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Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil

25 de abril de 2005

BEBERICO

Na verdade seu nome é Frederico, mas ganhou o apelido devido à peculiar insistência etílica. Era praticamente um maratonista do álcool. Não era magro, nem gordo, mas sua espantosa resistência aos efeitos da birita o fazia derrubar os mais célebres cachaceiros da região.

Certa vez, indo embora completamente alcoolizado de um casamento, Beberico pegou irresponsavelmente seu carro e foi dirigindo pra casa. Ao acordar no dia seguinte pela manhã, percebeu que havia sangue por todo seu quarto, no travesseiro, no chão e no paletó. Sentia inclusive na boca o gosto daquele sangue. Desesperado, achou que estava morrendo. Dirigiu-se apressado até o banheiro onde pôde constatar que também o seu rosto estava encharcado, assim como suas mãos. Entrou no banho a fim de se limpar para pelo menos poder identificar a lesão que ocasionava todo aquele sangramento. Ao sair do banho, limpo mas ainda tonto, constatou que não havia nenhum corte ou hematoma, e que inclusive ele não estava sangrando: provavelmente era sangue alheio.

Preocupado e afoito, ligou para todos os amigos perguntando o que tinha acontecido, e obteve de todos a mesma e uníssona resposta: -Simples, Beberico. Você disse que ia embora da festa, aí pegou seu carro e foi embora mesmo! Nós continuamos lá e nem tivemos mais notícia sua. Beberico não acreditava naquilo que acabara de ouvir. Ninguém sabia que sangue era aquele em seu quarto. Podia ser de um cachorro atropelado, mas o seu carro estava intacto, novo em folha. Podia ser de outro ser humano, uma briga, quem sabe? Mas Beberico não tinha sequer um dano físico, um olho roxo que fosse, nada! E assim, a verdade é que até hoje Beberico não sabe que diabo de sangue era aquele.


15 de abril de 2005

UM RIO

Imagine um rio de águas muito intensas. Ele é bravo e é manso. Às margens desse rio, uma família inteira se abriga e encontra ali as condições ideais para crescer. Essa família então vai crescendo e se multiplicando porque o rio a protege e dá alimento ao mesmo tempo em que banha e fertiliza suas margens. Depois de passar anos e anos oferecendo toda sua energia vital àquela família, é natural que o rio vá perdendo sua força. Suas águas vão ficando cada vez menos caudalosas até que...
Até que o rio seca. Seca, mas não morre nunca porque gerações inteiras foram banhadas por suas águas e conheceram a beleza de sua força. Por causa desse rio, aconteceu a vida. E essa vitalidade de sua correnteza existirá para sempre no sangue de cada um que um dia teve a imensa sorte de beber da sua água.


Em homenagem a meu avô.

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