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Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil

16 de março de 2006

PARA SEMPRE PETER PAN

"Ora, se não sou eu
quem mais vai decidir
o que é bom pra mim?
Dispenso a previsão!

Se o que eu sou
é tambem o que eu escolhi ser,
aceito a condição!"
(Rodrigo Amarante
)

Não gostei de ser adulto. Chato demais. Pode parecer clichê, e talvez seja mesmo, mas tenho saudade de ser criança. Ao contrário do que se possa imaginar, na passagem da infância para a vida adulta não há evolução. A verdade é que se perde muito mais do que se ganha. Tornamo-nos cada vez mais burros, automatizados, aceitamos cada vez mais a rotina a medida em que vamos deixando de lado a contemplação ingênua e a curiosidade intrínseca da criança.

O adulto acorda todo dia na mesma hora, vai pro seu trabalho e fica lá o dia inteiro repetindo à exaustão suas tarefas. Seja assinando papéis, pagando contas ou carimbando vias, ele passará o dia fazendo exatamente as mesmas coisas que fez no dia anterior. Até que chega um dia em que trabalhar é como dirigir um carro, ou seja, uma tarefa totalmente automática que sequer exige dele alguma atenção. Pior ainda é o momento em que essa postura desatenta extrapola o ambiente de trabalho e atinge a vida de maneira mais geral. É justamente nessa hora que faz falta o exemplo da infância.

Sinto falta dessa criança, de não conhecer como conheço hoje a imperfeição do ser humano. A maldade daquele que tortura, a corrupção, a inacreditável ganância dos homens que se matam não por um prato de comida, mas por mais um milhão para colocar na já gorda conta bancária.

A criança está sempre conhecendo o mundo. Quase tudo é novidade. Para ela não há verdades absolutas, e por isso ela está sempre questionando. É difícil separar na mente infantil os conceitos de real ou irreal, fato ou sonho. Lembro-me claramente de dúvidas ingênuas que tive na infância. Achava por exemplo que ladrões, bruxas e vampiros faziam parte do mesmo grupo de seres fantasiosos que só existiam em histórias fabulosas. Quando descobri que os ladrões existiam de fato fiquei apavorado por achar que, portanto, também seriam reais as bruxas e os vampiros.

Como não há como voltar no tempo, ou ser criança para sempre, como Peter Pan, o que me resta é tentar pensar com a cabeça do menino que um dia eu fui. Destruir todas as verdades absolutas que, ao longo dos anos, foram colocando na minha cabeça: que só posso ser feliz desse jeito ou daquele, que tenho que arrumar um trabalho assim ou assado, que tenho que usar aquela roupa da moda, que tenho que me casar com aquela moça de “boa família”.

Vou fazer como uma criança que está conhecendo agora o mundo, sem saber ao certo o que é verdade e o que é mentira. Questionando um por um esses dogmas estabelecidos pela hipocrisia e tabus construídos na mediocridade vou ser mais capaz de saber o que é bom pra mim. A vida é curta demais pra eu perder meu tempo seguindo um caminho que foi traçado por outros. Assim como Peter Pan, vou lutar para escapar do tic-tac sem fim do relógio na barriga do crocodilo. Não quero ser, de jeito nenhum, um adulto chato que senta no restaurante caro da moda com seu terno cinza enquanto vomita o jargão dos “bem sucedidos”. Vou procurar o meu próprio caminho. Vou fazer do meu jeito. E se eu errar, que seja um erro meu.

16 de janeiro de 2006

SERENA OU VALENTINA

Não tinha mais como adiar aquela decisão. Havia mais de três anos que Fortunato vinha levando uma vida dupla. Namorava ao mesmo tempo duas meninas: Serena e Valentina. O fato de elas não se conhecerem e até morarem longe uma da outra não impediu que a bigamia do Fortuna fosse descoberta. Ele mesmo vivia dizendo para os amigos:
-Mais cedo ou mais tarde minha casa vai cair...


E realmente não deu outra: a casa caiu. Fortunato entrou de mãos dadas e trocando bitocas com Serena no elevador lotado, sem perceber que lá dentro já estava Valentina. A baixaria começou ali mesmo. Valentina, que nunca fez a menor questão de manter a linha, já deu o berro e buscou Serena pelo cabelo, diante do olhar atento da animada platéia: -Vagabunda! Prostituta! Serena, sempre impassível, nem reagiu. Deve ter levado umas sete bolsadas da agressora sem fazer ao menos a menção de se esquivar. Enquanto isso Fortunato tentava, em vão, separar a briga no elevador lotado, por entre os sovacos suados dos curiosos passageiros. E foi assim. A partir daquele dia, tornou-se pública a bigamia praticada pelo Fortuna.

Entretanto, a verdade é que nenhuma das duas terminou de cara o relacionamento com o rapaz. O que aconteceu foi um ultimato bilateral: depois de recíprocas unhadas, pescotapas e hematomas, Serena e Valentina se uniram num bizarro conchavo exigindo do malandro Fortunato a escolha definitiva. –Ou uma, ou outra! Verdadeiro pânico tomou conta do rapaz. Para ele parecia totalmente impossível e absurdo optar por uma delas e abdicar da outra. Angustiado e impotente, resolveu pedir ajuda ao seu melhor amigo e confidente, o Peixe Elétrico, que acabava de voltar de longo exílio e poderia ter opinião imparcial, uma vez que não conhecia nenhuma das pequenas.

O Peixe Elétrico era alto e magro. Aliás, magro não: era esquelético. De longe se podia ver a efusão de costelas que lhe transpareciam a pele fina e branca. Na adolescência, foi viciado em todo o tipo de droga. Tomava de uma só vez os mais diversos comprimidos como uma criança pançuda devora jujubas. Bebia, cheirava, injetava e, se fosse o caso, até supositório ele aceitava. E dessa época de rotineiros excessos herdou o apelido e uma seqüela: um tique nervoso que fazia com que seu corpo todo tremesse, num intervalo perfeito de dezenove segundos, como um relógio. Isso mesmo: precisamente de dezenove em dezenove segundos vinha o tremor inadiável. Seus olhos reviravam, os pêlos do corpo todo eriçavam e o rosto vibrava fazendo pender de seu lábio um princípio de baba, como que numa crise epiléptica de um segundo de duração. E foi justamente a ele que Fortunato recorreu a fim de aplacar a aflição da escolha impossível.

Sentaram-se no tradicional ponto de encontro, o Bar do Cabelo. Depois da confraternização inicial, Fortunato iniciou a conversa que mudaria para sempre o seu destino:
-Pelo amor de Deus! O que é que eu faço, Peixe Elétrico?
-Quem diria, hein, Fortuna? Justo você, sempre o malandrão, o descolado, foi parar nesse mato sem cachorro...
-Pois é, meu irmão. Tô num beco sem saída. Não consigo viver sem as duas. Não basta uma, Peixe. Preciso das duas! Das duas!
-Só tem um jeito, cara. Você tem que comparar as duas item por item, situação por situação, e ver qual delas é melhor pra você.
-Como assim? Explica isso direito.
-Pra começar, faz um resumão das duas pra mim. Fala das características básicas, de como elas são com você.
-Ah, cara, é o seguinte: a Serena é meu nenenzinho, um anjo, a paz em pessoa. Ela é meu porto-seguro. E a Valentina é exatamente o contrário. A Valentina é fogo, rapaz. Dá um trabalho! Grita, me xinga, me arranha, mas me adora. E eu também adoro, dá pra entender?
-Mais ou menos... No dia-a-dia, como elas são? Preciso de mais dados pra te ajudar, Fortuna...
-A Valentina é um pitbull. Nunca vi mulher mais brava e mais ciumenta. Do lado dela eu vivo com taquicardia, só esperando a hora em que aquela bomba relógio vai explodir. É uma barraqueira de marca maior. Nem de motivo pra brigar comigo ela precisa. Na falta de motivo, ela inventa um. Já terminou o namoro comigo uma vez porque eu não soube falar se a carne que eu tinha comido no natal era pernil ou tender. Ela é dose, cara.
-E a Serena?
-Ah, a Serena é exatamente o contrário. É um amor. Evita a todo custo brigar comigo, super compreensiva. Me deixa jogar meu futebol, tomar minha cervejinha com a turma sem stress. Não me traz problema nenhum, só traz solução.
-Entendo, entendo. E na cama, como que é a Serena?
-Bom, a Serena na cama é mais ou menos, mas é uma gracinha. Ela faz a linha mais passiva, toma menos a iniciativa da coisa, tá me entendendo? Mas do jeito dela ela sabe ser uma delicinha. Fica lá me olhando e deixando eu fazer com ela tudo que eu quero. Uma princesinha...
-E a Valentina? Como é?
-Aí, não. São outros quinhentos! A Valentina é sensacional! Um espetáculo! Porque a nossa história é entre tapas e beijos, sabe como é? A gente tá sempre brigando e faz as pazes no sexo. E a Valentina é ativa na cama, domina a situação de uma maneira. Com ela não tem tabu. Entre quatro paredes ela faz de tudo, topa tudo. Ela é demais, Peixe...
-Sei, sei. Desse jeito fica difícil, pô.
-Mas é exatamente isso que eu tô te falando desde o começo! Porra, Peixe Elétrico! Minha situação tá foda!
-Calma, sem desespero. Descreve pra mim como elas são fisicamente.
-A Valentina é maravilhosa, uma beleza agressiva. Tem um rosto lindo, morena, estilo índia, capa de revista.
-E a Serena? Vai me falar que também é maravilhosa?
-Mais ou menos. A Serena é bonitinha, uma beleza mais angelical. Agora, você tem que ver o corpo da Valentina! Um avião. Um metro e setenta, poderosa, uma bunda e uns peitos gigantes, descomunais. Eu saio com ela na rua e o trânsito pára. A galera chega a aplaudir. Isso me dá a maior dor de cabeça porque fica cheio de gavião em cima. Eu tenho que ficar policiando o tempo todo pra não acabar igual um alce, com a cabeça cheia de galho. Nesse ponto, a Serena me dá muito menos trabalho, porque o corpo dela é bonitinho, mas não chama muito a atenção. Ela é mais magrinha, pouco peito. Mas é como eu te falei: acho um tesão também.
-Olha, cara, situação difícil a sua. Mas sabe como é... Você concorda que a mulher que você escolher vai querer casar rapidinho?
-Concordo. Disso eu tenho certeza.
-Pois é. E depois de tanta loucura que eu já fiz nessa vida, hoje eu posso falar que eu sou um cara mais tradicional, principalmente quando o assunto é casamento.
-O que você quer dizer com isso, Peixe?
-Tô te falando que, pelo que eu entendi, mulher pra casar mesmo é a Serena. Vê se você concorda comigo: isso que você sente pela Valentina é uma paixão muito forte, intensa. Só que todo mundo sabe que não existe nada mais eficaz pra acabar com uma paixão que um casamento. Com o tempo, essa paixão vai acabar e o que vai restar é uma mulher ranzinza, brava, chata e mandona e que ainda por cima vai acabar dando pro vizinho. Com ela, a sua vida vai virar um inferno em pouco tempo, cheia de altos e baixos. Já a Serena, pelo que você mesmo me falou, é o seu porto seguro. É desse tipo de mulher que nasceu e foi criada pra ser esposa, dona de casa e companheira dedicada. No longo prazo, a tendência é só melhorar. Você vai aprender a gostar cada vez mais dela. Se você quer mesmo saber a minha opinião, a Serena é a pessoa mais certa pra você.
-Porra, Peixe Elétrico. Quem te viu, quem te vê! Você agora me surpreendeu mesmo. Que dissecador do comportamento humano! Que sensatez! Você falou tudo que eu precisava ouvir.

E foi assim, depois dessa conversa no Bar do Cabelo, que Fortunato resolveu dispensar Valentina e eleger de vez Serena como sua companheira. Casaram-se, tiveram dois filhos e levavam uma vida tranqüila, quase monótona, sem altos e baixos como previra o sábio Peixe Elétrico. Construíram juntos uma casa mais ou menos espaçosa, num bairro mais ou menos luxuoso da cidade, onde criaram seus filhos, que por sua vez eram alunos mais ou menos bem sucedidos de uma escola mais ou menos conceituada na região.

No fim, ninguém pode dizer se Fortunato fez a escolha certa. A única coisa que se sabe é que, aos 45 anos, ele sofreu um infarto fulminante no banheiro de casa enquanto se masturbava. Serena o encontrou já morto, sentado no vaso sanitário com as calças arriadas e uma foto de Valentina na mão.

10 de janeiro de 2006

O CHICABON

Foi numa dessas cidadezinhas deliciosas do interior mineiro. Não interessa saber exatamente onde, só interessa que foi em Minas. Quem já percorreu de alguma forma essas estradas sabe muito bem do que estou falando.
Lá estava eu, sentado num bar de esquina tomando uma cerveja gelada na companhia de bons amigos quando aconteceu: na outra esquina, encostada numa mureta rosa, aquela menina chupava descansadamente um chicabon. Isso mesmo: com a leveza de quem tem a cabeça vazia de problemas, ela resolveu sentar-se ali, naquela mureta rosa, enquanto chupava tranqüila e displicentemente o seu picolé.
Devia estar lá pelos seus 15 anos. Linda, esbelta, corpo perfeito. Poderia ser considerada já uma adulta não fosse pelo ar desengonçado de quem ainda não se sabe mulher. E lambia aquele picolé como se o tempo tivesse parado. Naquele momento, o mundo era aquele chicabon. O maior problema a ser enfrentado era chupá-lo antes que se derretesse e lambuzasse a sua ventilada roupa.
Pode parecer banal, mas vejam, não é. Não se vê mais uma cena como essa nas grandes cidades. A correria do dia-a-dia torna inconcebível esse momento trivial de paz e tranqüilidade. Estamos sempre correndo, com pressa, não se sabe atrás do quê. Tudo é urgente. Contas a pagar, prazos a cumprir, buzinas frenéticas no carro que não sai do lugar. E, nessa rotina robótica, não há espaço para o tal chicabon. Ai daquele que for visto sentado no meio fio chupando um picolé. Logo lhe darão o implacável veredicto: -Preguiçoso... Vagabundo...
Porque, na metrópole poluída, respeitado mesmo é o sujeito que se mata nessa correria absurda, vende as férias, leva o trabalho pra dentro de casa nos fins de semana e mal percebe os filhos crescendo. Dessa maneira, esse “bem sucedido” cidadão, com seu dinheiro suado muito bem investido em rentáveis aplicações, vai levando sua vida até o dia em que pifa para sempre o seu estressado coração.
Além disso, outro empecilho ao pobre chicabon: impera agora a cultura do homem light. O homem light, para quem não conhece, jamais chuparia um picolé. Ele toma cerveja sem álcool, café descafeinado, leite desnatado e come doce sem açúcar. O homem light tirou a essência de tudo. Tudo para ele é proibido. O picolé, um perigoso e calórico veneno. De tanto proibir a essência de tudo, acabou ele mesmo se esquecendo de sua própria. Qual será mesmo, se é que existe, essa perdida essência do ser humano?
Na verdade, trata-se de uma pergunta de difícil resposta. Mas, enquanto isso, com sua abençoada ignorância dos problemas que os adultos inventam, aquela menina saboreava languidamente seu chicabon. Um picolé tem 400 calorias? 600 calorias? A bolsa de valores caiu? E daí? Sábia aquela menina sentada na mureta rosa com seu demorado chicabon.


10 de novembro de 2005

ALMA GÊMEA É O K...

MINI TRAGICOMÉDIA DE COSTUMES EM 5 ATOS

PRIMEIRO DIA

(Alberico está sentado na mesa do bar tomando um chope com a cara mais feliz do mundo quando chega o seu bom e velho amigo Coutinho).

Coutinho – Fala, meu ídolo!

Alberico – Grande Coutinho! Senta aí logo e toma um chope comigo pra comemorar...

Coutinho – É, nego! Tô vendo mesmo que cê tá com uma cara ótima. (Pede um chope). Anda. Desembucha, meu filho! Estamos comemorando o quê? Pode soltar a bomba...

Alberico – Coutinho, o negócio é o seguinte: conheci a mulher da minha vida! Tô querendo me casar.

Coutinho (exaltado) – Que brincadeira é essa, Alberico? Não brinca com assunto sério não!

Alberico – É sério, Coutinho. O pior é que é sério. Aliás, nunca falei tão sério na minha vida!

Coutinho – Você pirou, Alberico? Pirou de vez? Você é o nosso ídolo! O ídolo da turma toda exatamente porque nunca caiu nessa cilada de se apaixonar por mulher nenhuma. Vive por aí cada dia com uma mulher diferente, uma mais gostosa que a outra...

Alberico – Eu sei, Coutinho, eu sei. Mas agora isso vai acabar. Eu mesmo tô assustado, rapaz. Cada segundo que eu passo longe da Cacau eu tenho a impressão que tô perdendo meu tempo.

Coutinho – Isso passa, homem de deus! Isso passa! Eu já caí nessa, o Júlio já caiu nessa. Todo mundo já caiu, menos você Alberico! Você não! Você é a redenção da nossa turma toda! Todo mundo queria levar a vida que você leva, mas a gente não pode mais: já fizemos a burrada e agora não tem volta. A gente morre de inveja da vida que você leva e você vem me dizer que tá apaixonado? Tenha a santa paciência!

Alberico – Você não tá entendendo, Coutinho. Não tem como fugir, cara. Está escrito, é destino, sei lá. Só sei que a Cacau é a minha alma gêmea.

SEGUNDO DIA

(Um mês depois: Os dois estão sentados no mesmo bar, bebendo e conversando.)

Coutinho – Agora me esclarece uma coisa aqui, Alberico: Você ainda continua insistindo naquele papo besta de alma gêmea?

Alberico – Besta nada, Coutinho! Besta nada! Você precisa conhecer a Cacau pra entender o que eu tô falando. A gente vai se casar.

Coutinho (preocupado) – Alberico, pelo amor de deus escuta aqui o seu amigo! Não cai nessa não, mestre. É fria! Casamento é fria!

Alberico – A gente se ama, Coutinho! Entende uma coisa: a gente não agüenta ficar um segundo longe um do outro. Eu não escolhi isso. Simplesmente aconteceu, cara!

Coutinho (exaltado) – Como assim aconteceu, Bericão? Como assim?

Alberico (extasiado) – Ela é toda linda! É perfeita! Você tem que ver. Só anda de sandalinha baixa, pé no chão, e lava a cabeça com sabão de coco... De uma simplicidade que só vendo! E olha que tem só 18 aninhos...

Coutinho (indignado) – 18 anos? 18 anos? Você vai se casar com uma criança? Cê tá maluco, Alberico?

Alberico – Calma, Coutinho. Calma, rapaz. Deixa eu te contar, pô. Ela tem só 18, mas parece mais. Ela é uma mulher madura, cara. Não é igual essas menininhas que tem por aí não. Super culta, interessada. Ouve o Guinga, cara! Ela simplesmente a-do-ra o som do Guinga...

Coutinho – Som de quem?

Alberico – Guinga, porra. Um dos maiores gênios desse país, pô. Tá vendo, Coutinho? É esse tipo de ignorância que eu não agüento mais, e é por isso que a Cacau é diferente...

Coutinho – Porra, Bericão, não precisa ofender, cara.

Alberico – Foi mal, cara. Foi mal. É que eu fico empolgado quando falo da Cacau.

Coutinho – E você vai se casar com uma criança que não sabe nada da vida só por causa desse tal de Ginga?

Alberico (impaciente) – Guinga, Coutinho. Guinga.

TERCEIRO DIA

(Coutinho sentado na mesa do bar tomando um café. Alberico chega distraído, derrubando a xícara).

Coutinho – Que é isso, Alberico? Tá no mundo da lua?

Alberico – Na lua não, irmão, eu tô é no céu!

Coutinho – Tá no céu por que, filhão? Conta logo! Quer matar seu amigo de curiosidade?

Alberico (em êxtase) – É a Cacau. Nossa, nem te conto...

Coutinho (exaltado) – Como “nem te conto?” Conta sim, uai. Sou todo ouvidos!

Alberico – Tô acabando de chegar do motel. Passei a noite lá com a Cacau.

Coutinho – Mas e daí?

Alberico – E daí que eu tô completamente transtornado, Coutinho. Tô até com medo de mim, sentindo um aperto no peito igual eu nunca senti antes. Agora eu tenho certeza que ela é minha alma gêmea.

Coutinho – Ai, ai, ai... Lá vem você de novo com esse papinho... O que é que foi dessa vez?

Alberico – Alberico, você não imagina o que é a Cacau na cama. Eu tremo só de pensar! A mulher é um espetáculo!

Coutinho – Agora você tá falando a minha língua, rapaz! Anda! Conta tudo. Tudinho mesmo. Quero riqueza de detalhes!

Alberico – Então lá vai: pra começar, você não faz idéia do que é o corpo dessa menina! Um metro e setenta de altura, barriguinha sarada, com direito a piercing no umbigo.(Coutinho começa a uivar, animado).

Coutinho (salivando) – E a peitaria? Como que é a peitaria?

Alberico – O peito dela é a coisa mais gostosa desse mundo. Tamanho ótimo, quase grande demais, tipo os peitos da D. Natália. Lembra da Natália, mãe do Dirceuzinho?

Coutinho – Se lembro! Duas turbinas maravilhosas!

Alberico – E tem sempre uma marquinha de biquíni que é um negócio! E o melhor: empinadinhos, com os biquinhos rosadinhos sempre apontando pro ventilador de teto!

Coutinho – Agora essa sua paixão tá começando a fazer sentido. Agora sim! Esse é o Alberico que eu conheço!

QUARTO DIA

(Coutinho chega à mesa do bar e saúda Alberico).

Coutinho – E aí, meu ídolo! Continuas rasgando a menininha?

Alberico – Opa! Mais respeito aí, hein, Coutinho?

Coutinho – Calma. Tô brincando, sô. Mas fala aí... Abre o jogo...

Alberico – Pra te falar a verdade, eu já nem sei mais quem tá pegando quem...

Coutinho (curioso) – Como assim? Explica isso aí, uai!

Alberico – É que a Cacau tá cada dia melhor na cama, Coutinho, uma coisa inacreditável. Uma desenvoltura, um repertório de posições, cada uma mais acrobática que a outra!

Coutinho (batendo nas costas do amigo) – Você é mesmo um garimpeiro, hein, Bericão? Sempre encontra essas pedras preciosas por aí... Carne nova, gostosa e ninfomaníaca! É por isso que você é o nosso ídolo! Tu é um cara diferenciado, meu irmão! Que fase! Que fase!

Alberico (desanimado) – É, mas só que...

Coutinho – Só que o quê? Anda! Desembucha!

Alberico – Só que eu ando meio desconfiado, sabe Coutinho?

Coutinho – Por que, cara? Desconfiado de quê?

Alberico – Por exemplo: fico pensando onde é que a Cacau tá aprendendo essas posições novas, esse repertório sexual dela...

Coutinho – Ah não! Deixa de ser careta! Hoje em dia se aprende isso em tudo que é lugar. Na tv a cabo tem uns programas que só falam nisso. Sem falar nos livros, na internet, até na escola, viu? Até na escola!

Alberico – Outro dia, no motel, no meio do ato, ela me chamou de um nome estranho...

Coutinho – Que nome?

Alberico – Mandioca.

Coutinho – Mandioca?

Alberico (envergonhado) – É...Mandioca...

QUINTO DIA

(Coutinho chega animado à mesa do bar. Alberico pensativo).

Coutinho – Se não é o meu grande amigo Mandioca.

Alberico – Não pisa, Coutinho. Não pisa que eu tô sofrendo. Tô sofrendo horrores...

Coutinho – E desde quando meu ídolo sofre? Tá sofrendo por quê?

Alberico – A Cacau. Me deu um pé na bunda.

Coutinho – Tá falando sério? Que é que aconteceu, homem de deus?

Alberico – Por e-mail, dá pra acreditar? A minha alma gêmea, a única mulher que me tirou do sério a minha vida inteira terminou comigo pela internet. Mandou um e-mail falando que tinha conhecido outro cara e que tava indo embora pra morar com ele em Jericoacoara.

Coutinho – Ele quem? Quem é o cara, Bericão? Tu já sabe?

Alberico – Sei: o Mandioca.

Coutinho – Mandioca?

Alberico – É. Mandioca.

Coutinho – Mandioca???

Alberico – Mandioca.

Coutinho – E por quê o apelido do cara é Mandioca, meu irmão?

Alberico – Porra, Coutinho, que crueldade, cara. E precisa perguntar? Tá na cara, pô.

Coutinho – É. Se bem que é mesmo. Mandioca só pode ser uma coisa... Tá mais que óbvio.

Alberico – Pois é.

Coutinho – E você tá muito mal? Precisando de alguma coisa é só falar!

Alberico – Tô mal, cara, claro! Minha alma gêmea tá numa praia paradisíaca com um cara que chama Mandioca. Você queria o que?

Coutinho – Mudando de assunto, Bericão. Dá só uma olhada na mulata que acabou de entrar...

Alberico – Nossa senhora! Que ferramenta, hein, Coutinho? Que espetáculo! Peraí que eu vou lá nela. Em branco é que eu não posso deixar passar!

Coutinho – Uai, Bericão? Mas já? E aquele papo de alma gêmea pra lá, alma gêmea pra cá? A defunta ainda nem esfriou, pô...

Alberico – Ah, quer saber Coutinho? ALMA GÊMEA É O CARALHO!!!


4 de outubro de 2005

MATANDO OS PRÓPRIOS FILHOS

Contra a proibição das armas, podemos listar uma série de bons argumentos: o cerceamento de um direito de escolha, a vulnerabilidade do cidadão da Zona Rural (onde a polícia não chega), o estímulo ao tráfico e ao contrabando de armas (uma vez que a nossa polícia já se mostrou incapaz de fiscalizar nossas fronteiras), etc.
Entendo perfeitamente. A argumentação é excelente, mas continuo contra as armas. Minha visão, nesse caso, chega às raias da utopia, admito. Discordo da organização social desigual como um todo e, no meu ponto de vista, grande parte dos criminosos acaba por ser resultado dessa sociedade viciada e injusta. Então compramos armas para nos defender e matar muitas vezes aqueles que, assim como nós, são vítimas desse ciclo vicioso.
Pense numa pessoa que não teve base familiar, não teve oportunidade de se educar, não tem a menor noção do que seja uma postura ética diante da vida e acaba tragada pela tentação e o status do crime organizado. É um marginal. Marginal no sentido de que passa uma vida inteira à margem, excluído das oportunidades sociais, e é justamente nessa penumbra que o seu caráter é formado. É um filho da sociedade, parido e criado por ela. Alguém pode argumentar citando exemplos de várias pessoas que não tiveram chance e mesmo assim não se deixaram levar pelo caminho do crime, mas esses são os excepcionais. E uma sociedade, mais uma vez na minha opinião, não pode exigir de seu cidadão que ele seja um fora-de-série. Por isso o sistema é perverso: abandona nas condições mais desumanas um filho seu e depois julga melhor dar-lhe um tiro para resolver o problema que a sua própria omissão criou.
Daqui a uns mil anos, quando formos uma Suíça, serei totalmente a favor da liberação das armas. Prometo renascer no Brasil, tirar meu título de eleitor, votar a favor das armas no referendo do ano de 3005 e sair por aí com meu revólver futurístico ameaçando mandar bala na cara de quem ousar invadir uma propriedade minha!

"Um sistema que exige qualidades excepcionais dos seres humanos só excepcionalmente terá êxito."
Bertrand Russell

Ônibus 174
Quem viu este filme, sabe do que estou falando.

31 de maio de 2005

FOGO E VENTO

Compare o pensamento humano a uma fogueira. Enquanto houver fogo, é sinal de que a inteligência está funcionando, que o homem raciocina e é realmente consciente dos seus sonhos e seus atos. O problema se dá quando, por algum motivo, esse homem se descuida e deixa a chama se apagar. Nesse exato momento, ele deixa de ser gente e passa a ser, no máximo, um robô bem acabado.
O principal adversário de um homem nessa luta por manter acesa a chama da sua independência são os próprios homens. São os outros que, até sem perceber, de maneira sutil e automática, criam o vento que apaga o fogo. Podemos facilmente enumerar situações cotidianas flagrantes de apagamento da chama alheia.
Uma professora que dá uma bronca no aluno que não está prestando atenção à aula e o pune na frente dos colegas. Esse menino, que estava gastando seu tempo pensando bestamente na vida, aprende que deve sempre usar seu tempo objetivamente, estudando, trabalhando ou obedecendo e acaba, por isso, um dia deixando se apagar dentro dele a chama da subjetividade e da contemplação. Ou um pai que vive a dizer para o filho durante o jantar que muito se orgulharia caso o filho resolvesse seguir sua carreira de médico. Ele até diz que isso é apenas um sonho dele, e que o filho tem total liberdade para escolher outro caminho, mas será que tem? Há também o tradicionalíssimo caso daquela moça que vive a ouvir das amigas da mãe: -Vai casar ou vai ficar pra titia? E depois que segue o caminho estipulado pelos outros e se casa continua ainda escutando: -Quando é que vai dar um netinho pra sua mãe?
Esses são casos típicos de pessoas que, sem perceber, vivem ditando regras e determinando o destino da vida daqueles que os cercam. São os apagadores de chama. São o vento que apaga o fogo. Quem não estiver atento perderá sua capacidade de reflexão, perderá sua capacidade de decidir seu próprio futuro. Quem for obediente vai se dar mal.
Falei em obediência e explico: aquele que tem como único e absoluto objetivo agradar os outros conseguirá ser, no máximo, um medíocre como tantos outros por aí. Aquele que raciocina, pensa, acredita e realmente deseja realizar, com certeza terá que desobedecer e desagradar para alcançar seu objetivo. Vejamos: Galileu teve que contestar ensinamentos consagrados de Aristóteles e desagradar à Igreja para defender aquilo em que depositava sua confiança – a teoria que dizia que a Terra gira em torno do Sol, e não o contrário. Por causa disso, foi condenado e censurado pela Igreja. Albert Einstein precisou se contrapor à visão de Isaac Newton, pai da física e considerado um dos maiores cientistas de todos os tempos, e contrariar leis científicas seculares para defender sua Teoria da Relatividade. Mudando radicalmente de área, podemos citar Muhammad Ali, ou Cassius Clay, que num brilhante exemplo pacifista desobedeceu às ordens do seu país e se recusou a lutar na guerra do Vietnã. Ainda não se convenceu? Então vamos lá. Você conhece o Agenor de Miranda Araújo? Não? O Agenor desobedeceu a seu pai, que só queria o seu bem, e encheu de vergonha a sua mãe porque rejeitou um bem remunerado cargo executivo na empresa da família para viver de música. Essa “irresponsabilidade” foi fundamental para que ele se tornasse o Cazuza. E o Rubinho Barrichello? Exemplo mundial de obediência e subordinação, ele acatou ordens da Ferrari e reduziu a velocidade para permitir que Schumacher o ultrapassasse. Agora eu faço a pergunta: qual deles é o maior campeão de todos os tempos?
É necessário esclarecer, entretanto, que a desobediência pura e simples não levará ninguém a lugar algum. Os casos citados acima são todos eles exemplos de desobediências fundamentadas, intrinsecamente ligadas a objetivos definidos e consistentes. A desobediência gratuita e alienada dificilmente resultará em bons frutos.
Por outro lado, é necessário também salientar o importante papel que os obedientes realizam para a sociedade. Aquele rapaz de terno e gravata impecáveis, cabelo calculadamente penteado, orgulho da mamãe e da vovó, genro predileto de dez entre dez sogras, certamente tem muito trabalho a realizar. Será sempre dele a tarefa de levar sorrindo para casa pilhas e mais pilhas de trabalho no final de semana enquanto seu chefe se diverte na pescaria. Normalmente, referem-se a ele no escritório como “indispensável”. O sujeito “indispensável” nada mais é do que aquele cidadão que terá que trabalhar no feriado. E o mais surpreendente é que, obediente como ele só, ainda será capaz de se orgulhar disso. O obediente, no futebol, é aquele jogador que treina com disposição todo santo dia e fica dando carrinho no meio de campo a pedido do treinador enquanto um polêmico Romário se esbalda na noite, falta os treinamentos, mas resolve a parada lá na frente e enche o bolso de dinheiro.
Poderia enumerar aqui mais centenas de exemplos, mas espero já ter conseguido esclarecer suficientemente o meu ponto de vista. Mas muito cuidado! Não vá aceitando assim, tão depressa, a minha opinião! Reflita, conteste! Pense com a sua cabeça, porque nessa vida eu tenho dois medos fundamentais. O primeiro é que um dia eu me dê por vencido e permita que o vento dos outros apague a minha chama. O segundo medo, e com certeza o maior deles, é que eu deixe um dia de ser chama e passe a ser vento, e saia pelas ruas ventilando e apagando o fogo dos outros.

25 de maio de 2005

O VÔO DE JÚLIA

Júlia nasceu naquilo que a sociedade chamava de “berço de ouro”. Seu avô havia ficado milionário no ramo da especulação imobiliária, de forma que deixou como herança para seu filho único, o pai de Júlia, uma dessas fortunas incalculáveis. Levavam, por isso, uma vida que todo mundo sonha em ter, digna de rico de novela das oito.
O problema é que no fundo Júlia achava aquilo tudo, no mínimo, um pouco estranho. Como não precisasse trabalhar, acordava sempre tarde, por volta das dez da manhã e ia tomar o sortido desjejum com seu pai, um viúvo bonachão que resolvera curtir a vida à sua maneira. A essa altura, já estavam há horas trabalhando no faraônico apartamento o jardineiro (sim, havia um jardim no apartamento), a empregada doméstica, a faxineira e o motorista do pai. Mesmo sabendo que o patrão só acordava lá pelas nove da manhã, todos os funcionários chegavam pontualmente para o serviço às sete horas. Todos os dias, exceto os domingos.
Finalizado o café da manhã, o pai saía devidamente uniformizado e aparelhado para a inadiável partida de tênis matinal. Enquanto isso, Júlia se arrumava e ia para o escritório de onde administrava os negócios da família. Mas isso é mentira. A própria Júlia sempre soube que sua presença no escritório era totalmente desnecessária, dispensável. A verdade é que seu pai havia contratado profissionais do mais alto gabarito exatamente para que pudessem relaxar, viajar ou simplesmente ficar à toa enquanto se multiplicavam os já gordos dividendos da família.
Inútil no trabalho, Júlia se trancava em sua sala, abria seu jornal e lia com particular interesse notícias sobre conflitos no Oriente Médio, guerras civis espalhadas pelo continente africano, intervenções norte-americanas ao redor do globo, além dos tradicionais problemas de fome e miséria no Brasil. Vivia, por causa disso, sempre triste e desanimada. As amigas mais próximas não entendiam, e tentavam logo levantar o astral da moça:
-Ora, Julinha... Tenha a santa paciência! O que é que você tem a ver com o que está acontecendo na África? Você tem a faca e o queijo na mão e fica aí, se lamentando pelos cantos. Você leva a vida que eu pedi a Deus. Pode ficar à toa o dia inteiro, se quiser.
Júlia respondia: -Mas o problema é exatamente esse! Eu não preciso fazer nada!
Mas outra a interrompia e logo emendava: -Sem falar que essa semana vai ter a festa no Haras do Benitinho. Vai ser excelente! Começa na sexta à noite e termina só no domingo à tarde. Ouvi dizer que mandaram vir um sistema de som de São Paulo num caminhão por exigência do DJ que vai tocar. Ele é um dos mais badalados do mundo! Tem gente do Brasil inteiro disputando os convites no tapa!
Mas nada disso era capaz de animar Júlia. O fato é que ela estava deprimida. Seu namorado, Marcelo, era seu vizinho no prédio. Tinham uma história de vida bastante parecida. Ambos eram ricos desde sempre e achavam desconfortável aquela situação. A única diferença é que, enquanto Júlia vivia deprimida, Marcelo pegava a gorda mesada que recebia do pai e gastava em papelotes e mais papelotes de cocaína. Cheirava o dinheiro todo. Júlia até tentava falar alguma coisa com ele:
-Pára com isso, Marcelo! Pra quê isso?
E ele respondia: -Você é que devia experimentar pra ver o tanto que é bom. Quando eu tô cheirado, parece que a vida é uma maravilha!
-Mas depois o efeito passa e volta tudo ao normal mesmo, não é?
-É. É sim. Aí, quando passa o efeito, eu cheiro tudo de novo! A sensação que dá quando o pó começa a bater na tampa não dá pra descrever, Julinha. Você sente a onda vindo, de leve, e quando você vê já bateu. O bicho pega!
Um dia, aborrecida do namorado e com vontade de dar uma arejada, Júlia telefonou para o escritório avisando que não iria trabalhar, que estava precisando espairecer. Avisou o escritório só por hábito, por rotina, pois sabia que sua ausência nem seria sentida. Pegou o carro e foi dar uma passeada pela cidade, observando com olhos atentos tudo o que via. Seus olhos mais pareciam bocas famintas, devorando tudo que passava pela frente: o trânsito insuportavelmente parado, o menino malabarista no sinal fechado, as senhoras grã-finas de óculos escuros carregando sacolas e mais sacolas de compras, um mendigo que se divertia cheirando cola e urinando na calçada enquanto o outro dormia em cima de um pedaço de papelão...
Até que ela se cansou e voltou para casa. Parou o carro na garagem entrou no elevador e apertou o 13. Encontrou o pai almoçando:
-Oi, filhinha. Que surpresa boa! Senta aqui com o papai que o almoço está delicioso! Tem aquela massa que você adora!
A filha deu um beijo no rosto do pai e disse: -Espera um pouquinho que eu já venho, papai...
Entrou no quarto, trancou a porta, abriu a janela e pulou. Isso mesmo: subiu no parapeito e voou sem titubear. Talvez tenha sido, ao longo de toda a sua vida, a atitude mais consciente de Júlia. No salão de beleza, uma manicure comentava entre uma e outra cutícula:
-Que menina louca! Tinha tudo na vida: dinheiro, saúde, um pai que a amava e mesmo assim se matou.
E uma outra, enquanto tingia o cabelo, falou: -Era louca. Só pode ser muita loucura, coitadinha. Ou então era uma drogada...
O fato é que Júlia se matou. Matou-se e eu até hoje não sei muito bem o porquê. A maioria acha que foi por loucura. Eu, por outro lado, desconfio que tenha sido por excesso de lucidez. Tanta lucidez que tornou insuportável continuar a vida nesse mundo.

12 de maio de 2005

A MULHER INVISÍVEL

"Como aqueles primitivos
que carregam consigo
o maxilar inferior de seus mortos,
eu te carrego comigo
tarde de maio".
(Carlos Drummond de Andrade)

Houve um tempo em que éramos inseparáveis. Tão inseparáveis que chegava a irritar. Eu dormia na casa dela, ela na minha. Quando não estávamos juntos, conversávamos ao telefone. O tempo inteiro um grudado no outro. Nos conhecíamos um ao outro tão intimamente que nossas reações eram sempre previsíveis. Um sabia o que o outro pensava, e digo mais, sabia o que o outro ia pensar. Mas éramos novos. A mãe dela foi transferida no emprego para uma cidade distante e tiveram que se mudar. Não houve, na época, nada que eu pudesse fazer. Ela foi embora e eu fiquei...

No começo, havia a esperança de sempre mantermos contato e tentar dar prosseguimento àquele relacionamento que parecia indestrutível. Mas o tempo e a distância não deixaram. Aos poucos o comprometimento que havia foi diminuindo, os laços foram se desfazendo, nosso mundo em comum desaparecendo e os assuntos se tornando mera rotina. As vidas se tornaram distantes até um ponto em que não fazia mais nenhum sentido insistir. Acabou. Aquela pessoa com quem um dia eu dividi os meus minutos e as minhas idéias já não existia mais. E foi assim.
Hoje, mais de dez anos depois, aconteceu: estava sentado na sala assistindo a um jornal na televisão e uma notícia me fez pensar nela. De repente, cresceu em mim uma vontade violenta de conversar com ela sobre aquele assunto da notícia. Precisava saber a opinião dela. E o peito apertava. Queria ouvir de novo aquela voz, aquele jeito de falar. Que saudade! Como é estranho e difícil de entender que aquela pessoa que um dia fora tão imprescindível e constante na minha vida pudesse ter simplesmente desaparecido. O peito doía. É tão inexplicável e dolorosa essa ausência irreversível!

Tentei reconstruir na minha mente o seu rosto, mas não consegui. Para relembrar talvez fosse necessário o estímulo infalível de um cheiro, ou de um sabor... O tempo se encarregou de ir aos poucos apagando da memória. Como será que ela está agora? Será que continua linda? Será que está gorda? Será que a cidade a tornou cinza? Terá essa rotina desumana enfraquecido o seu brilho? Não sei. E nem tenho como saber. Resta-me divagar. Imagino que tenha se casado, que continue linda e que tenha uma filha. E na minha imaginação ela passeia com a filha no colo numa tarde de maio e os dias são sempre ensolarados. Sim: na minha imaginação não chove nunca e há uma brisa agradável soprando o cabelo dela. A filha se chama Ana Maria, é bochechuda e sempre chora de medo quando aparece algum “au-au”. E nesse mundo ideal não há espaço para a pressa da insanidade urbana e nem tampouco para a irritante busca da vitória. Só existe a calma. A calma , e as árvores, e o vento, e pés descalços.

Fico feliz por ela, mas me lembro que estou apenas sonhando. Tomara que ela esteja feliz como estava no meu sonho. Tomara que não tenha sofrido, que não tenha chorado, que não tenha morrido! Tomara que um dia, numa dessas tardes ensolaradas de maio, uma brisa sopre agradável em seu ouvido e ela pense, mesmo que apenas por um instante, em mim.

A FORÇA DA CORRENTEZA

Pense na seguinte imagem: pequenos bebês sendo deixados no leito de um rio. Assim é a nossa vida. Sem perceber, a estranha força da correnteza vai nos guiando e nos levando sem que a gente tenha muito domínio da situação. Ao nosso lado, milhares de outras pessoas vão se deixando levar pela tal correnteza, de modo a nos deixar ainda mais convencidos de que o caminho do leito do rio é o caminho certo. A multidão é tamanha que a gente mal consegue ver o que é que há além daquele rio...
Não que o caminho ditado pela correnteza não seja um caminho válido. O problema é que, se não ficarmos atentos, poderemos acabar achando que se trata de um caminho único, coisa que não é. Desde o momento em que nascemos até o dia de hoje, a maioria de nós tem se deixado levar pela correnteza. Ainda duvida? É fácil responder.
Por exemplo: imagine alguém que esteja concluindo algum curso superior e resolva largar tudo porque gosta mesmo é de ser músico. Será essa uma tarefa fácil? Não. Não porque esse caminho vai contra a correnteza e sabemos que é gigante a força do rio. As pessoas que estão perto dele logo tentarão dissuadi-lo da idéia “maluca”. Achou pouco? Imagine então alguém que se descobre homossexual. Será uma tarefa fácil para essa pessoa assumir para sua família e amigos que deseja relacionar-se com pessoas do mesmo sexo? E, uma vez homossexual resolvido e apaixonado, será que ele poderá demonstrar seu afeto beijando na boca seu parceiro em local público? Não. Provavelmente correria até o risco de ser preso por única e exclusivamente dar um beijo na boca da pessoa que ama.
Mais uma vez se manifesta o violento e camuflado poder da correnteza. Camuflado, porque do ponto de vista de quem está no meio do rio, não existe a tal corrente. Para se perceber esse movimento comum, seria necessário nadar até a margem, ou seja, deslocar-se, para aí sim perceber a multidão de cabecinhas que estão sendo arrastadas na enxurrada.
Falei sobre a margem e prossigo: quanto mais no meio do leito do rio, encoberto por milhares de outros corpos que simplesmente bóiam, mais difícil se torna vislumbrar os caminhos alternativos, seus afluentes. É necessária a proximidade da margem para que se possa realmente perceber a situação e enxergar todas as possibilidades. Sim, é necessário ser um “marginal”. Quem se afasta do leito do rio será automaticamente taxado de marginal, mas deve saber que, para conseguir alcançar seu novo objetivo essa será uma condição obrigatória.
Aquele músico, cujo exemplo citei acima, se quiser realmente viver de música terá que desagradar à família e magoar os pais. Mas essa desobediência é absolutamente indispensável. O mesmo se aplica ao homossexual. A sua felicidade dependerá sempre de algum sofrimento alheio. Para se realizar, ele terá provavelmente que ferir o orgulho dos pais e aviltar senhoras conservadoras em locais públicos. Seu único crime foi não seguir o caminho da multidão. Resolveu tomar as rédeas do seu próprio destino e traçar para si um rumo diferente, talvez um afluente deste mesmo rio...
O importante aqui não é evitar o rio e sim saber da sua existência. Uma vez identificada a força da correnteza, cabe a cada um escolher para si uma direção a seguir: pode ser o próprio rio, mas pode não ser. Eu, por exemplo, já escolhi. Quero, até o fim da minha vida, ter forças para nadar contra essa correnteza imperativa, pois lá na nascente encontrarei a água mais limpa. Quanto aos que seguirão até final do rio, imagino o que encontrarão por lá: o esgoto, a merda.

25 de abril de 2005

BEBERICO

Na verdade seu nome é Frederico, mas ganhou o apelido devido à peculiar insistência etílica. Era praticamente um maratonista do álcool. Não era magro, nem gordo, mas sua espantosa resistência aos efeitos da birita o fazia derrubar os mais célebres cachaceiros da região.

Certa vez, indo embora completamente alcoolizado de um casamento, Beberico pegou irresponsavelmente seu carro e foi dirigindo pra casa. Ao acordar no dia seguinte pela manhã, percebeu que havia sangue por todo seu quarto, no travesseiro, no chão e no paletó. Sentia inclusive na boca o gosto daquele sangue. Desesperado, achou que estava morrendo. Dirigiu-se apressado até o banheiro onde pôde constatar que também o seu rosto estava encharcado, assim como suas mãos. Entrou no banho a fim de se limpar para pelo menos poder identificar a lesão que ocasionava todo aquele sangramento. Ao sair do banho, limpo mas ainda tonto, constatou que não havia nenhum corte ou hematoma, e que inclusive ele não estava sangrando: provavelmente era sangue alheio.

Preocupado e afoito, ligou para todos os amigos perguntando o que tinha acontecido, e obteve de todos a mesma e uníssona resposta: -Simples, Beberico. Você disse que ia embora da festa, aí pegou seu carro e foi embora mesmo! Nós continuamos lá e nem tivemos mais notícia sua. Beberico não acreditava naquilo que acabara de ouvir. Ninguém sabia que sangue era aquele em seu quarto. Podia ser de um cachorro atropelado, mas o seu carro estava intacto, novo em folha. Podia ser de outro ser humano, uma briga, quem sabe? Mas Beberico não tinha sequer um dano físico, um olho roxo que fosse, nada! E assim, a verdade é que até hoje Beberico não sabe que diabo de sangue era aquele.


15 de abril de 2005

UM RIO

Imagine um rio de águas muito intensas. Ele é bravo e é manso. Às margens desse rio, uma família inteira se abriga e encontra ali as condições ideais para crescer. Essa família então vai crescendo e se multiplicando porque o rio a protege e dá alimento ao mesmo tempo em que banha e fertiliza suas margens. Depois de passar anos e anos oferecendo toda sua energia vital àquela família, é natural que o rio vá perdendo sua força. Suas águas vão ficando cada vez menos caudalosas até que...
Até que o rio seca. Seca, mas não morre nunca porque gerações inteiras foram banhadas por suas águas e conheceram a beleza de sua força. Por causa desse rio, aconteceu a vida. E essa vitalidade de sua correnteza existirá para sempre no sangue de cada um que um dia teve a imensa sorte de beber da sua água.


Em homenagem a meu avô.

28 de março de 2005

SOBRE AMOR À PRIMEIRA VISTA

Fala-se bastante, hoje e sempre, em amor à primeira vista e é preciso fazer logo um esclarecimento: é uma grandessíssima bobagem. Amor à primeira vista é uma coisa que nunca existiu, não existe e jamais existirá. Sei que sempre haverá por aí aqueles cidadãos rasteiros e irrefletidos que logo se exaltarão e sairão berrando frases repletas de pontos de exclamação acusando-me de ser um insensível ou até mesmo um traumatizado ou recalcado por pensar assim. Por isso, desde já inicio minha defesa alegando que, muito pelo contrário, faço tal afirmação na qualidade de severo defensor da plenitude do significado da palavra amor.
Certa vez, vi uma mulher que me causou imediatamente um desconcerto incomparável com tudo que eu já havia sentido por alguém “à primeira vista” até então. E é exatamente aí que mora o perigo. Atordoados pela taquicardia e pelo calor causados por aquele primeiro impacto, torna-se mais fácil esquecermos que o amor é uma emoção completa. Completa porque para caracterizá-lo é necessário o uso de mais sentidos. Além da primeira “vista” deve haver o primeiro cheiro, o primeiro toque, o primeiro gosto ou o primeiro som. Ou seja, confiar apenas na primeira vista e desprezar a perfeição de nossos sensos é não enxergar verdadeiramente. Vemos melhor quando usamos o corpo todo. O amor precisa da comunhão dos sentidos. E também precisa do tempo.
Falei sobre o tempo e explico: só o tempo é capaz de revelar nossas ilusões de ótica, porque geralmente vemos o que queremos ver. Pessoas carentes, em busca desesperada de companhia, se deixam enganar facilmente por estelionatários exatamente porque projetam ali um grande amor. Mas a verdade aparece com o tempo. Assim também são as amizades. Com o passar dos anos podemos facilmente discernir os verdadeiros amigos e os eventuais interesseiros.
O amor não existe na primeira vista, nem na segunda e nem na terceira. Não se deve ter pressa. Trata-se de um exercício de paciência que pode até parecer complicado mas que, aos poucos, vai se mostrando valioso e gratificante. É como um quebra-cabeça que vamos montando, a quatro mãos, colocando uma peça por dia. Com o passar do tempo já começamos a perceber ali a figura do amor, apesar de ainda haver muitos espaços vazios. Assim, com calma, continuamos posicionando as peças, preenchendo esses vazios, e o amor vai aparecendo cada vez mais, sua imagem vai se escancarando diante de nossos olhos tornando-se cada vez mais nítida. E sempre haverá espaço para colocarmos mais uma peça.

15 de março de 2005

DONA ALICINHA

Já acordou daquele jeito. Vestiu o roupão tradicional e desceu as escadarias da mansão para tomar o café da manhã.
-Alzira! Pelo amor de Deus, Alzira! Tenha a santa paciência!
-Mas o que é que foi, Dona Alicinha!
-O que é que houve? Quer saber o que é que houve? O que foi que eu te falei ontem, hein?
-Não lembro não, senhora!
-Esse é o problema! Você nunca lembra! Eu te falei mil vezes pra você servir o café essa semana usando a toalha de mesa branca, mas você insiste em desobedecer...
-É porque a branca tá lavando, Dona Alicinha...
-Ah! Agora além de tudo deu pra me responder, Alzira? Você acha que eu não sei que você faz essas coisas só pra me irritar? Pois eu vou te mostrar que sou eu quem manda nessa casa. Ai de você se me desobedecer mais uma vez que seja! Uma vezinha só!
Era sempre assim. Dona Alicinha acordava com a macaca e quem sofria as conseqüências era quase sempre Alzira. Todas as manhãs ela ouvia, calada e obediente, os desaforos da patroa. E o pior é que Alzira ainda a defendia perante as outras domésticas da rua. Quando falavam mal de Dona Alicinha, Alzira logo retrucava: - No fundo ela tem um coração de ouro!
Alicinha levava a chamada vida de madame. Casada, mãe de dois filhos homens já crescidos e uma menina ainda criança, vivia de cuidar da casa e dar ordens a uma infinidade de criados. Foi treinada desde a mais tenra infância até o dia em que subiu ao altar com Plínio para realizar, da melhor maneira possível de acordo com os conceitos seculares de seus pais, as tarefas de uma verdadeira dona de casa.
Após a habitual bronca matinal em Alzira, pegou seus artefatos esportivos importados e rumou para a academia de ginástica onde diariamente se exercitava com o auxílio de seu personal trainer e a companhia das amigas do condomínio fechado. Lá passou quase a manhã inteira discorrendo sobre a incompetência de Alzira enquanto recebia o apoio uníssono das colegas:
-Se fosse lá em casa já estava no olho da rua! –E outra logo emendava:
-Esse povo está cada vez mais despreparado. Outro dia me veio uma que mal sabia fazer um estrogonofe. Sem falar em outra que eu descobri que fazia programas à noite! Vê se pode! Uma prostitutazinha dentro da minha casa!
-É. Se bobear essa gente toma conta...
Saiu dali aliviada. Falar mal da criadagem era, para ela e aquelas honradas senhoras, uma verdadeira e eficiente terapia. Tão eficiente que já deixou a academia com o apetite renovado para se encontrar com as irmãs, num almoço no restaurante mais badalado no momento. O restaurante ficava numa esquina movimentada e nobre da cidade e oferecia algumas mesas na calçada além de outras num ambiente interno climatizado com excelente ar condicionado. Em princípio houve uma dúvida entre os dois ambientes, dúvida essa que foi rapidamente solucionada por Alicinha:
-Vocês estão doidas! Vamos nos sentar bonitinhas lá dentro no ar condicionado porque aqui fora toda hora aparece um daqueles pedintes insuportáveis querendo vender rosas, engraxar sapato... É um inferno! Isso sem falar no risco de passar um daqueles trombadinhas com caco de vidro na mão e tudo. Deus que me livre!
A argumentação de Alicinha convenceu prontamente suas irmãs, que a seguiram para o interior do recinto. De dentro do restaurante, no conforto do ar condicionado, Alicinha já observava pelo vidro a presença de algumas crianças de rua: -Que inferno! Lá vêm aqueles meninos pedir moeda ou então sobra de comida. Eles não dão sossego...
As irmãs tentavam acalmá-la: -Calma, Alicinha... Calma, minha filha. Desse jeito você vai acabar tendo um troço!
E ela respondia: -Calma nada! Esse presidente não faz nada e dá nisso. A gente é que paga o pato!
Imediatamente chamou o garçom e fez o pedido: -Olha aqui, meu filho... Embrulha o que sobrou desse peixe que é pra dar pro menino ali na porta.
Deixou o restaurante apressada e jogou o marmitex no colo do menino, pois já estava atrasada para levar a filha à aula de francês. Pegou a menina em casa e saiu dirigindo às pressas. As duas conversavam distraídas sobre a novela quando foram interrompidas por um garoto no sinal fechado:
-Vai um chicletinho aí, dona?
-Ai! Que susto, moleque! Quer me matar do coração?
Fechou o vidro blindado na cara do rapazinho e voltou-se para a filha: -Absurdo! Esses moleques ao invés de trabalhar e arrumar um emprego decente ficam nessa vagabundagem no meio da rua. E ainda por cima assustam a gente...
Estressada, achou melhor voltar pra casa e dar uma cochilada até a hora de buscar a filha no francês, mas não conseguiu porque o jardineiro fazia um barulho ensurdecedor com o cortador de grama. Não teve outra saída, a não ser ficar rolando na cama de um lado para o outro até tocar o celular: era a filha.
-Mamãe, acabou a aula. Pode vir me buscar.
-Tá bom, meu amorzinho. Mamãe já vai...
Como se já não bastasse o ódio que alimentava pelo jardineiro, ao chegar ao curso da filha deparou-se, abismada, com uma animada conversa entre sua menininha e um garotinho negro um tanto mal vestido para os padrões daquela renomada e cara escola. Puxou-a bruscamente para dentro do carro e iniciou o interrogatório:
-Que garoto é esse, minha filha?
-É o Laércio, mãe. Ele é da minha sala de francês.
-Como assim? Ele não me parece ter condições financeiras para freqüentar essa escola...
-Eu sei, mãe. É que ele é filho da moça da cantina, então ele pode estudar de graça. Ele é muito engraçado. E o pessoal da sala fala que ele quer namorar comigo.
-Nem brinca com uma coisa dessas, minha filha. Só faltava essa. Com tanta gente branca nessa escola você vem me arrumar justo um negrinho? Ah! Tenha a santa paciência!
A filha, calada, não entendeu nada.
Mais um dia na vida de Alicinha estava terminando. Durante quase 24 horas ela permaneceu dura como uma rocha diante das situações mais tristes do cotidiano. Xingou a empregada doméstica pela manhã, esquivou-se dos pedintes na saída do restaurante, fechou o vidro na cara do vendedor de chicletes e repreendeu a filha por sua amizade com um negro. Poderiam até pensar que Alicinha é uma vítima da absorvente vida numa cidade grande. Poderiam argumentar que a repetição exaustiva daquele horror cotidiano pelo período de quase uma vida inteira acabou por torná-lo banal para aquela madame. Poderiam pensar, ao final daquele dia, que a rudeza da metrópole a tornara incapaz de sofrer ou de sentir, não fosse por um último e inesperado acontecimento: no começo da noite, Alicinha assistia à sua infalível novela ao lado de seu marido Plínio quando ele, num movimento incerto, derrubou uma taça de vinho tinto no sofá branco recém reformado. Ao ver aquele líquido vermelho se espalhando pelo alvo tecido do sofá, Alicinha chorou. Mas não foi um pranto qualquer. Ela chorava o mesmo choro de quem acaba de ver morrer um filho. Rolava no carpete, esperneava, soluçava enquanto esfregava a própria saia na mancha de vinho. Em vão.

19 de janeiro de 2005

CERTEZA

Se existe uma coisa difícil de se ter nessa vida, essa coisa é a certeza. Pense comigo. Quando a gente nasce, na verdade a gente não tem muita certeza se quer realmente sair da confortável e aconchegante barriga de nossas mães. Mas aí vem uma série de contrações esquisitas e umas mãos com luvas de borracha que nos tiram de lá, sem que a gente esteja certo de que aquela era a nossa melhor opção.
O choque inicial é grande, mas tudo bem. A gente nasce e depois é colocado em um colégio sem ter certeza se estudar ali é ou não um bom negócio, mas fomos matriculados lá. Aí um dia a gente se forma e tem que escolher, por volta dos dezoito aninhos, uma profissão que teoricamente será aquela que desempenharemos até o fim de nossas vidas. Não há como, nessa idade, ter muita certeza do que realmente queremos para nossas vidas. Mas somos valentes, não somos do tipo de gente que foge do pau e, sendo assim, escolhemos a tal profissão.
Em meio a isso tudo, a gente conhece uma pessoa espetacular que passa a fazer parte de nossas vidas de um jeito que a gente ainda não conhecia. Só que no planeta existem outros seis bilhões de pessoas, de maneira que é matematicamente impossível ter certeza se aquela pessoa com a qual estamos vivendo é a nossa melhor alternativa. Mesmo assim, sem ter certeza, concluímos que sua companhia é boa, nos faz mais bem que mal e resolvemos ficar com ela.
Mas como assim ficar? Existe uma série de possibilidades de convivência, mas a que sempre aparece com a força de uma tsunami é a do casamento. Sim, sim, já decidimos quem nos fará companhia, mas o próximo passo é decidir como. Casar é o melhor negócio? É, mais uma vez, impraticável ter certeza. Não nos foi dado o talento para prever o futuro e a nossa melhor opção acaba sendo pagar pra ver. Vale a pena.
Depois de muito tempo vivendo juntos, os filhos já bem criados, crescidos e independentes, a gente começa pela primeira vez na vida a ter uma noção de certeza. A gente olha pra trás e começa a achar que fez boas escolhas ao longo dos anos, que escolheu a companhia ideal, uma pessoa que sempre esteve do nosso lado quando a gente mais precisou. Só que aí um dia essa pessoa morre e a gente fica sozinho, sem ter certeza se ela morreu mesmo ou se apenas foi pra um outro lugar onde um dia a gente vai se ver de novo.

21 de dezembro de 2004

MULHERES DA (MINHA) VIDA

Não sei se sou eu ou se são elas, mas o fato é que o meu histórico com as mulheres é, no mínimo, peculiar. Resolvi fazer um apanhado geral dos meus relacionamentos, relâmpago ou não, e concluí que há entre eles um único fato reincidente: nunca dão certo. E exatamente por isso é que vou aqui recordá-los, um a um, da forma mais leviana possível.
A primeira vez que me peguei pensando numa mulher, na verdade uma menina, foi no pré-primário, eu acho. Eu devia ter uns cinco anos e tinha essa coleguinha linda, com algumas sardas e um cabelo que, para mim, devia ser o mais lisinho do mundo. Chamava-se Cristina Maria. Éramos praticamente inseparáveis na escola, sentávamos sempre perto um do outro durante as aulas e, ao final delas, esperávamos juntos a chegada dos nossos pais enquanto disputávamos animadíssimos partidas de gol a gol usando petelecos e umas bolinhas miúdas de papel.
O fato é que minha avó havia acabado de chegar do Japão, de onde trouxera para mim uma fantástica caneta de doze cores, artigo até então desconhecido no Brasil, que eu usava para fazer desenhos multicoloridos e inveja nos colegas. Qual não foi minha surpresa quando, numa aula de desenho, não encontrei nos meus pertences a tal caneta japonesa de doze cores. Fiquei totalmente desconsolado. Não acreditava naquilo e sabia que, para conseguir outra, só se minha avó desse um pulinho no Japão (e naquela época eu acreditava que o único modo de ir ao Japão era escavando um buraco até o outro lado do planeta). A minha tristeza só passou quando vi um dia minha linda namoradinha, Cristina Maria, desenhando casinhas com a minha rara e reluzente caneta japonesa. Fiquei satisfeitíssimo e fui ao seu encontro para que ela devolvesse minha ferramenta esferográfica. Mas não. Ao invés de devolver-me a caneta, Cristininha berrava escandalosa, clamava pela ajuda da professora dizendo que eu estava batendo nela. Quando eu dizia que a caneta era a que minha avó havia trazido do Japão e que podia provar, ela retrucava cínica e sarcástica: “Você acha que só a sua avó é que vai para o Japão?”
E foi assim que terminou o meu primeiro namoro e começou a minha história de insucessos no amor: com um furto. Isso mesmo, caro leitor: minha primeira namorada, aquele ser belo e dócil por quem eu nutria o mais puro dos sentimentos e cuja simples presença me trazia a mais sincera felicidade trocou o nosso relacionamento por uma caneta japonesa de doze cores.
Levei muito tempo para superar esse primeiro trauma, mas superei. Entretanto, foi só na quarta série (aos dez, onze anos) que fui me apaixonar novamente. Havia na minha sala uma menina que já não era menina: era quase uma mulher. Tanto pela altura quanto pela pujança das curvas que começavam a se apresentar, ela chamava bastante a minha atenção. Um dia, no meio da aula de matemática, eu recebo dela um bilhetinho com os seguintes dizeres: “Você gosta de mim? Sim ou não. Marque com um "x" e devolva. Ass.: Lívia Elisa”. Na escola era assim, a gente sempre sabia o nome e o sobrenome dos colegas. Tremendo de nervoso, marquei um sim e devolvi a ela o bilhete. Nem podia acreditar que uma mulher daquele tamanho ia querer alguma coisa com um menino franzino, quase tísico, como naquela época eu era!
Mas tudo que é bom dura pouco, e comigo não foi diferente. No recreio, transbordando felicidade e quase babando de emoção, fui contar a boa nova ao meu melhor amigo, o Marcinho, que me respondeu com uma pedrada: “É sério? Ela mandou o mesmo bilhete para mim, e eu também respondi que sim”. Ficamos ambos desolados com a infeliz coincidência, mas Lívia, muito mais madura e malandra, conseguiu contornar a situação. Ficou combinado o seguinte: "cada festa eu danço a música lenta com um de vocês" (naquela época ainda não se beijava nas festas da sala).
Dos males, o menor. Saímos, eu e Marcinho, mais ou menos satisfeitos com o moderno acordo uma vez que éramos melhores amigos. Já a Lívia saiu satisfeitíssima, havia feito um negócio da China.
Colocar em prática o acordo foi deveras doloroso. A simples aproximação da data de uma festa cuja preferência no rodízio não seria minha já me causava dores de barriga assombrosas. E não era dor de barriga de vontade de ir ao banheiro, não senhor: aos dez anos senti minha primeira úlcera. Era terrível. Eu sabia que ia ser obrigado a ver minha namorada dançando música lenta a festa inteira com outro e que esse dia estava cada dia mais próximo. E que eles conversariam e ela contaria a ele as histórias mais fresquinhas, mais recentes, que eu nem podia imaginar.
Em compensação, na semana seguinte eu ia à forra. Os segredos mais novos seriam meus, as músicas lentas do Kid Abelha seriam minhas e a bochecha colada na dela seria a minha. Era a redenção! A volta por cima!
Nos mantivemos por um bom tempo nessa montanha russa: um dia nas nuvens, no outro no inferno. Marcinho e eu sempre insatisfeitos, mas nenhum podia desistir daquilo e automaticamente entregar o ouro pro adversário. Lívia, por outro lado, achou por bem acabar de vez com aquela lengalenga e tomou uma decisão drástica e cruel: deu-nos em ambos um belo pontapé no traseiro em favor de um garoto mais velho, da oitava série, que já tinha carro e brinco na orelha. Mais um fiasco que levaria anos para ser cicatrizado...
Depois dessa tornei-me, pode-se dizer assim, um vadio. Foram anos e anos, da quarta até a oitava série, em que defendi com unhas e dentes a filosofia da solteirice. Qualquer mulher que me causasse uma leve taquicardia que fosse seria automaticamente descartada. Isso mesmo: durante esses anos todos meu foco sempre foi voltado para aquelas mulheres que me pareciam inofensivas, incapazes de provocar em mim alguma coisa que fosse além de uma ereção. Eu queria as gostosas, as bandidas e as raimundas da vida, desde que eu não identificasse nelas nada que fosse, para mim, apaixonante.
O problema é que, na vida real, não existe plano perfeito e, mais cedo ou mais tarde, o castelo acaba desabando. E desabou. Eis que surge no meu caminho, no meio de um show do Lulu Santos, a Débora. Além de linda, altamente gostosa, cabelos de índia e boca carnuda, ela me atropelou. Digo atropelou porque entrou na minha vida sem me dar a menor chance de me defender, de dizer não. Quando eu percebi, ela já estava dentro da minha casa, dentro da minha família, enfim, parte imprescindível da minha vida. Tinha todas as qualidades do mundo, menos uma: era ciumenta. Ciumenta não, ela praticamente reinventou o ciúme. Levava o ciúme a níveis jamais visitados pelo homo sapiens. E a conseqüência disso era que eu, apaixonado por ela e me comportando de forma impecável e imaculada, via de regra voltava para casa rasgado, unhado, mordido e repleto de escoriações. Sim, eu apanhava. Apanhava e não podia revidar porque ela, além do fato de ser mulher, era a mulher que eu adorava. E quando não batia em mim, atentava contra a própria vida. Abria a porta do carro em alta velocidade na tentativa desesperada de se lançar ao asfalto, subia no parapeito de seu apartamento no nono andar com ímpetos suicidas enquanto eu sofria na angústia de salvá-la e no medo de perdê-la. Tanto me desesperei, tanto sofri, que percebi que aquela relação doentia não podia perdurar, não era saudável para nenhum dos dois. Ao fim de dois anos de constante e mutiladora tensão, tomei coragem e terminei tudo. Digo tomei coragem e explico: é sabido que o homem dificilmente termina um relacionamento. As mulheres, essas sim, têm a dignidade de colocar um ponto final em um relacionamento sem futuro de maneira distinta e correta. Nós, homens, comumente nos acovardamos e acabamos optando pela saída genial: vamos fazer tudo de errado até que a mulher se canse de nós e ponha, ela própria, um fim à relação. Dessa forma, imagina-se, não precisamos lidar com a responsabilidade pelo término, uma vez que quem o solicitou foi a parceira...
A verdade é que, devido ao acúmulo de insucessos, tornou-se mais fácil para mim superar um relacionamento falido e partir para um próximo, e foi assim mesmo que fiz. Pouco depois do desfecho com a Débora já me vi novamente envolvido com outra mulher. Sua beleza era inquestionável, seu bom humor parecia transbordar de seu corpo contaminando todo mundo que estivesse ao seu redor. A simples companhia de Amanda já me fazia sentir um privilegiado. É verdade: quando eu estava com ela, tinha a nítida sensação de que eu era um homem de muita sorte, escolhido a dedo por Deus para desfrutar do prêmio máximo que era a companhia de Amanda. Meus amigos, pasmem, também a adoravam. Ela se sentava com a turma toda nos botecos da vida e ali nos divertia por horas com seu bom humor, suas informações sempre atualizadas sobre os mais variados assuntos, e bebia litros de cerveja sem que isso afetasse de alguma forma seu corpo perfeito. O interessante é que existe um fator capaz de modificar drasticamente os rumos de um relacionamento e que eu, um bobo inexperiente, até então descaradamente desconhecia: a intimidade. Um belo dia, eu ligo pra minha adorada Amanda, avisando que estou indo para o sítio de um amigo, numa cidade próxima, pra jogar uma bolinha e tomar uma cerveja com a turma. A resposta da Amanda? Lá vai: “Tomara que você bata esse carro no meio do caminho e morra! Aliás, só você não! Você e esses seus amigos fracassados”!
Só tenho uma coisa a dizer, caro leitor: não é fácil, não.

6 de dezembro de 2004

O ENTERRO DO MEU TIO

Outro dia recebi um telefonema às quatro da manhã: meu tio havia sido baleado na noite anterior e não resistiu aos ferimentos. Morreu. Ele estava tranqüilo numa padaria fazendo um lanche no exato momento em que dois assaltantes entraram e um deles, de dezessete anos, disparou seu revólver (não se sabe ao certo se por crueldade ou susto). Morreu e deixou esposa, três filhas, além de uma infinidade de parentes e amigos que o adoravam. O fato é que marcaram o velório e o enterro para o dia seguinte.
No velório, surpreendi-me ao perceber a aglomeração de uma triste e barulhenta multidão. As pessoas se acotovelavam em busca de espaço junto ao corpo, que ainda nem havia chegado. Foi a primeira vez que fui a um velório tão cheio, talvez porque até aquele dia eu só houvesse ido a alguns poucos e escassos enterros, e sempre funerais de pessoas já bem velhas, cuja grande parte dos amigos também já tivesse falecido.
A realidade é que pela primeira vez eu comparecia a um velório de alguém que morrera em pleno auge de sua atividade e cuja vida fora tirada de forma tão violenta, inesperada e ao mesmo tempo banal. E essa banalidade somada ao carisma e jovialidade do meu tio assassinado parecia aumentar de forma exponencial a dor e o inconformismo de todos que, ali no enterro, tentavam se consolar.
Tamanha e tão desordenada era a multidão que, no momento da chegada do corpo, foi necessária a intervenção de alguns familiares no sentido de liberar o cômodo onde estava o caixão. Deu-se então um critério, para mim arbitrário, de seleção: só poderiam ficar ali num primeiro momento os parentes, de forma que até os amigos mais íntimos e antigos tiveram de ser retirados da sala, dando lugar a sobrinhos distantes e primos de terceiro grau.
Do lado de fora, separados por uma porta de vidro, os amigos e conhecidos do meu tio se colocavam nas pontas dos pés e grudavam seus rostos no vidro numa tentativa desesperada e mórbida de visualizar o morto enquanto, do lado de dentro, o padre abria o caixão. Nelson Rodrigues costumava dizer que a verdadeira dor dança mambo. E é verdade: o ser humano, na aflição incompreensível do momento da perda, não sabe o que fazer. Pula, grita, dá cabeçadas na parede, silencia, se joga no chão, rodopia e, no dia seguinte, no momento em que acorda e lembra que aquilo não foi um sonho e que o morto realmente morreu, o sofrimento se repete. E assim a agonia e o sentimento de impotência vão prosseguindo, dia após dia.
Mas citei Nelson Rodrigues e preciso retornar ao velório. No instante da abertura do caixão, o que se ouviu foi um uivo agudo, doloroso e único, resultado do somatório do pranto inconformado e da lamúria de todos aqueles que tanto amavam o meu tio e, em volta do corpo, não suportavam aquela cena. Havia, ainda, a busca desesperada do último carinho, do último afago. Todos ali passavam ternamente a mão em seu rosto já frio, e essa talvez seja a característica mais desumana e dolorosa das mortes inesperadas, seja por acidente, seja pela violência humana: a morte inesperada não dá ao ser humano o direito ao último carinho, à última declaração de amor. A pessoa morre sem que tenhamos declarado todo o nosso sentimento, porque a maioria dos seres humanos tem essa mania boba de guardar para si o amor que sente. Só externamos o nosso ódio, enquanto escondemos o amor, bem escondidinho, em algum lugar dentro de nós. Ai daquele que for descoberto amando! Ai de mim se souberem que eu amo de verdade algumas pessoas nessa vida...
De onde eu estava, aos pés do caixão, eu também chorava e podia ver claramente a figura de meu tio. Ele havia acabado de voltar da praia, onde comemorou com minha tia seus vinte e cinco anos de casado, e por isso sua pele ainda estava bronzeada. A verdade é que, visualmente, seu corpo parecia intacto. Não fossem os algodões nas narinas, eu jamais entenderia o que é que faltava àquele corpo para que ele se levantasse dali, saísse do caixão e voltasse, saudável e bronzeado, a fascinar a todos nós com sua tradicional inteligência, seu bom humor, seu paternalismo, suas piadinhas prontas, seu empreendedorismo incontrolável, seu sorriso fácil, seu talento...
Taí: esse vai fazer falta.

5 de outubro de 2004

OS SINTOMAS DA PAIXÃO

O título é meio brega. Ia ser pior ainda. A primeira idéia era “Os sintomas do amor”, mas aí eu caí na real e vi que até hoje, aos 28 anos de idade, eu ainda não conheci o amor. Não faço idéia do que sente uma pessoa que ama, porque na minha história pessoal nenhum relacionamento ultrapassou os dois anos de vida e eu imagino que o amor seja uma coisa que nasce depois, com o tempo, como aquele casal sessentão que vi andando de mãos dadas hoje na praça.
Posso não entender de amor, mas de paixão acho que entendo. Entendo sim porque já me apaixonei e já até tentei me desapaixonar, e não consegui. É como saber que estou doente de uma doença para a qual a medicina ainda não descobriu a cura. Você fica meio desesperado porque aquilo não passa, ou demora a passar, e não há remédio que cure ou pelo menos alivie a dor.
Falei em doença e explico o porquê: na minha opinião, a paixão é algo que pode ser diagnosticado tal qual uma gripe, através de uma análise específica dos sintomas. E a minha intenção aqui é tentar enumerar alguns destes sintomas para que qualquer um possa fazer um auto-exame e descobrir se tem ou não a tal “enfermidade”. É bem provável que o meu intuito seja vão, uma vez que me baseio única e exclusivamente numa cobaia solitária, eu mesmo, enquanto o método científico clama por amostragens maiores a fim de se aproximar ao máximo de resultados verídicos.
Como não sou cientista, tomo a liberdade de quem não pretende ser levado a sério para enumerar, de 1 a 10, os sintomas da paixão. É muito fácil. Você pode ter certeza que está apaixonado se:

1. Você se flagra pensando nela às três da tarde de uma terça-feira repleta de trabalho e tem uma vontade incontrolável de parar tudo que está fazendo só pra telefonar e ouvir aquele jeito de falar que só ela tem e você não entende como é que pode...;

2. O simples fato de saber que na sexta-feira vai ter uma festa e ela vai estar lá já te faz lembrar que suas calças estão muito velhas e que você precisa urgente ir ao shopping pra comprar uma calça nova;

3. Toda vez que você sabe que vai se encontrar com ela você toma aquele banho com atenção redobrada, gasta quase o sabonete inteiro, usa e abusa do xampu e quando sai do banho faz a barba mais meticulosa da década e passa o perfume em todas as vinte e três partes do corpo que, nas suas fantasias antecipadas, ela cheirou;

4. Ela chega na festa que você já sabia há muito tempo que ela ia, tanto que passou a semana inteira ensaiando sozinho conversas interessantes, mas mesmo assim bate uma súbita taquicardia e um nervosismo tão besta que ela te fala “oi” e você não consegue responder direito;

5. Na hora que você vai deixá-la em casa, depois da festa, você pára o carro na porta, mas fica rezando por dentro pra não chegar nunca o momento da despedida, fica ali com ela demorando até o dia nascer e quando ela fala que tem que ir você pergunta: -Mas já?;

6. Ao acordar de manhã, no exato instante em que o cérebro começa a funcionar, a primeira coisa que você se lembra é que vocês ficaram juntos na véspera e isso te dá vontade de dar um pulo da cama como quem comemora um gol, mas você não pula e fica deitado mesmo, se enrola no cobertor e ri sozinho;

7. Você fica se policiando o dia inteiro pra não ligar pra ela no dia seguinte, porque você tem medo de ligar e ela te achar muito pegajoso e se desinteressar, mas mesmo assim chega uma hora que você não consegue e acaba ligando;

8. Deitado na cama, à noite, você se lembra de um livro que ela falou que estava louca pra ler e fica doido pra chegar logo o dia seguinte que é pra você poder comprar o tal livro e deixar na portaria do prédio em que ela mora, com um cartão com seu nome e umas palavras que só você mesmo poderia ter escrito;

9. Toca uma música no rádio e você logo pensa que essa música é a cara dela, mas aí essa música acaba e começa uma outra música que é tão a cara dela quanto a que acabou de tocar;

10. Naquele boteco, só você e ela, conversando e comendo aquele tira-gosto manjado com uma cerveja gelada quase banal, você subitamente constata que não existe nenhum outro lugar do mundo em que você preferiria estar naquele momento que não fosse ali mesmo, naquele boteco ordinário, com ela.

27 de setembro de 2004

"JOYAHOLICS"

“Mais uma dose? É claro que eu tô afim! A noite nunca tem fim. Por que que a gente é assim?”

Há muito tempo já é conhecido, entre nós brasileiros, o termo inglês “workaholic”, que é empregado para designar aquele cidadão que é viciado em trabalho. Este tipo de sujeito está sempre disposto a uma nova jornada de trabalho, inclusive dedicando a este as horas que deveriam estar reservadas ao lazer e ao descanso. Mas felizmente não estou aqui pra falar deste tipo de indivíduo. Não. O que me move é a possibilidade de debater aqui um outro tipo de comportamento, parecido com o dos workaholics, mas ao mesmo tempo inverso: os joyaholics.
Não sei bem se já existe tal termo, mas se não existe, acabo de inventá-lo e exijo minha patente. Trata-se daquele ser humano insaciável, incansável e de um vigor físico inexplicável, viciado em baladas. Todos conhecemos pelo menos uma pessoa assim. Eu, por exemplo, conheço algumas mas destaco uma em especial: eu mesmo.
Não é difícil identificar um joyaholic, uma vez que suas características principais podem ser facilmente diagnosticadas. Em caso de superposição de programas, o joyaholic será sempre aquele incapaz de escolher um único programa e certamente será visto nas três festas daquela noite, sempre com o copo na mão, demonstrando grande resistência. Além disso, quando a última das três festas acabar, será ele também o último a sair da festa, estando ainda aberto a convites para mais algum evento mesmo naquela hora, às nove da manhã. Esse momento, do fim de festa, é um momento especial pois aí ocorre a confraternização dos joyaholics, uma vez que são sempre os mesmos elementos a desejarem a noite até seu último segundo, já se conhecem de longa data e não raro tornam-se amigos.
O interessante disso tudo é que muitas das pessoas que participaram da noite sem sequer metade do empenho de um joyaholic, no dia seguinte apresentam-se com o dobro da indisposição, pois seu corpo ainda não está preparado, ainda não foi submetido aos tantos acúmulos de excessos superpostos que deixam o corpo do boêmio altamente preparado para a insanidade noturna. Podemos fazer a comparação, por exemplo, com um atleta olímpico que submete seu corpo a treinamentos intensos e dolorosos a fim de alcançar melhor desempenho nas competições. Como todo atleta de ponta, é certo dizer também que o joyaholic não sai ileso dessa absurda maratona.
Assim como jogadores de futebol aposentados apresentam problemas nos joelhos, os de vôlei sentem os ombros e os boxers chegam a apresentar em alguns casos até o Mal de Parkinson, também o boêmio haverá de manifestar um dia alguma seqüela. Resta-nos esperar para ver o que o futuro nos reserva. Mas enquanto o futuro não chega, vamos bebendo.

10 de agosto de 2004

PAULINHO BONDADE

Paulinho Bondade nem é tão bom assim. Tem esse apelido desde os tempos de escola. Não porque fosse bondoso, mas devido à existência, no colégio, de um rapaz notoriamente bandido, que era conhecido na turma pelo singelo apelido de Paulinho Maldade. Apesar do apelido, Paulinho Bondade nunca foi o que se pode chamar de homem exemplar. Sempre foi autor de frases e cenas absurdas e inacreditáveis, que causavam grande espanto em todos, menos nele.
Aos dezessete anos, conheceu uma menina de dezesseis, Nilza, que mudaria de vez a sua vida. Nilza era bonita e gostosa, tinha pele clara e longuíssimos cabelos negros. Mas negra também era sua personalidade. Era dona de um gênio difícil, que misturava autoritarismo com doses cavalares de insegurança. Tratava Paulinho Bondade à base de gritos, unhadas e beliscões. Quanto melhor ele se comportava, mais ela achava que Bondade estava aprontando, e mais gritos e beliscões ele tinha que aguentar. Vivia, por isso, repleto de hematomas.
O problema é que, a partir daí, durante os quase dez anos que se sucederam, desenvolveu-se entre os dois uma relação doentia. Quanto mais Nilza infernizava a vida de Paulinho, mais dependente dela ele se sentia. Alguns defendiam a tese de que Bondade era, no fundo, um masoquista, que sentia um intenso prazer nos maus tratos da moça. Mas quem realmente o conhecia sabia que, a bem da verdade, o que realmente prendia Paulinho àquela louca era outra coisa: o sexo. Eis a verdade: como brigavam todo santo dia, havendo motivo ou não, faziam as pazes diariamente no ato sexual. Era justamente esse ato sexual diário, sempre encharcado de ódios, amores, violência e dor, que parecia indispensável para o Bondade. Ah! E havia ainda um agravante, o golpe fatal de Nilza: no sexo, ela se deixava subjugar por Paulinho. Aquele era, de fato, o momento de glória e redenção do rapaz. Muitas vezes, os amigos o chamavam num canto, na tentativa vã de afastá-lo daquela carrasca. Em coro, apelavam:
-Ô Bondade! Larga essa encrenca, moço! Isso não é vida, não.
E, nessa hora, Paulinho retrucava, eufórico:
-Vocês falam isso porque não fazem idéia do que eu sinto quando pego a Nilza de quatro, seguro no cabelo dela vendo aquela bundinha perfeita e o rosto olhando pra mim com uma carinha de safada que quer ser dominada. Ali, meu filho, é a minha hora! Eu posso sofrer o que for, mas nessa hora eu sou o cara! E é nisso que eu penso o tempo todo. É isso que me tira da cama todo dia de manhã!
Os amigos, perplexos, nem tinham mais o que dizer. Depois dessas declarações palpitantes do Paulinho, havia até quem saísse de lá invejando a situação do rapaz. Outro dia, houve quem balbuciasse:
-Pelo menos ele tem emoção na vida. Pior sou eu que fico enrolando até mais tarde no trabalho, esperando que a minha esposa durma antes de eu chegar, para não precisar comê-la.
E os outros ainda completaram:
-E a minha mulher? Era linda e gostosa e hoje é um bucho impraticável. Passa a vida pensando no que vai comer de sobremesa!
-E uma coisa nós não podemos negar: a Nilza pode ser o que for, mas é gostosa pacas!!
-Ah, isso é verdade. O Bondade que me perdoe, mas que rabo é aquele, hein?!

A verdade é que Nilza era, sim, sob o aspecto do talento sexual, uma mulher incomparável. Desde a sua primeira vez, com o próprio Paulinho, havia evoluído no domínio dos afazeres sexuais de uma maneira que chegava a espantar o namorado. Mas ele, claro, adorava isso e se submetia de forma incondicional aos caprichos inexplicáveis da moça, deixando-se humilhar e humilhando-se publicamente, na frente de quem fosse. A situação era de tal forma desconfortável que até o pai de Paulinho, seu Weber, homem discretíssimo, já não agüentava mais. Após tantos anos vendo o filho sofrer e se humilhar perante todos, não agüentou mais e fez a declaração bombástica: -Preferia ter um filho gay! Assim não dá. É sofrimento demais!
Do outro lado, Dona Isolda, mãe de Nilza e figura manjada nas colunas sociais da cidade, também condenava a relação do casal, esbravejando: “Minha filha, larga esse rapaz enquanto há tempo! Esse sujeito é descontrolado. Qualquer dia acontece uma tragédia daquelas! Ai, que vergonha...”. A aflição de Dona Isolda era tal que se recusava a abrir o portão da casa para Paulinho. Enquanto Nilza não tomasse uma atitude, ele ficava do lado de fora, fizesse chuva ou sol, fosse dia ou noite.
Apesar de todo esforço coletivo contrário ao relacionamento, o fato é que Paulinho e Nilza se aturavam e até se julgavam felizes. Até que...
Até que um dia, sem dar a menor satisfação, Nilza pôs um fim no relacionamento. Bondade, completamente atônito, não sabia o que fazer. Como já era de se esperar, se humilhou como jamais havia feito. Mandava flores, deixava recados, ajoelhava-se na porta do trabalho de Nilza com presentes caríssimos, gritava, esperneava: “Pelo amor de Deus, Nilzinha! Pelo amor de Deus!”. E nada. Nilza estava impassível perante o sofrimento do ex-namorado. Nos momentos da maior degradação de Paulinho, fazia cara de nojo e dizia: “Tenha dó, meu filho. Tenha dó”.
Ele ainda inconsolável ligava para os amigos numa última tentativa de aplacar seu sofrimento. Chorando como uma viúva, tomado por uma constipação monumental, soluçava ao telefone: “Como é que eu faço sem Nilzinha? Como é que eu vivo sem aquela bunda, sem aquele gênio maldito da minha Nilzinha? Me responde!” Os amigos ainda tentavam: “Calma, Bondade. Calminha aí. O que não falta nessa cidade é bunda boa e mulher chata! Aliás, é o que mais tem, viu?” De nada adiantava.
Eis que um dia toca o telefone de Paulinho. Era um amigo de longa data:
-Paulinho! Como vai? Tudo bom aí, filhão?
-Vou levando. Vou levando. – respondeu resignado.
-Vem cá. E aquele namoro antigo com a Nilzinha, como é que anda?
-Tá perguntando por quê, hein?
-Responde, meu filho. Responde.
-Terminou. Levei um baita pé na bunda! Estou que não me agüento mais! Agora me diz: que é que foi?
-É que...
-Desembucha logo, homem de Deus! Anda!
-É que ela está hospedada no mesmo hotel que eu, aqui em Ouro Preto.
-Ouro Preto? Sozinha ou acompanhada? – perguntou apavorado.
-Acompanhada.
-Puta que o pariu! Com quem? Anda, responde! Com quem?
-Com o...
-Fala logo, filho da puta! – gritou babando.
-Com o Taveira.
-Taveira? Que Taveira é esse, diabo?- a essa altura, Paulinho Bondade já estava no último estágio da taquicardia. Achava que nada podia ser pior do que aquilo. Mas podia...
-Taveira. Aquele professor de yoga dela, tá lembrado? –retrucou o amigo.
Paulinho não agüentou a pressão. Desligou o telefone na cara do amigo e deu início a uma crise nervosa. Ficava imaginando o Taveira, um sujeito alto, musculoso e elástico experimentando as mais acrobáticas e impensáveis posições sexuais com a sua pura e imaculada Nilzinha, saciando-a de uma forma que ele nunca fora capaz. Nas fantasias de Bondade, o Taveira, além das qualidades já citadas, possuía ainda um pênis colossal, que parecia partir ao meio sua pobre namoradinha em coitos mais engenhosos que os do Kama Sutra.
Pois bem. Paulinho então tomou a drástica decisão: “Essa humilhação eu não agüento! Tudo, menos isso!”. Como um vingador experiente esperou sem alarde o retorno dos dois e passou a vigiar a rotina do novo casal. Para amigos e familiares, transparecia uma felicidade efusiva e palpitante, deixando muito satisfeitos todos aqueles que dele gostavam. Arranjou até uma namoradinha nova e calmíssima, a Mônica, com quem passeava pra lá e pra cá irradiando um sorriso escancarado. Seu pai, seu Weber, já dizia numa alegria cega e delirante: “Agora sim! Sou um pai felicíssimo. Com a graça de Deus, Paulinho deu um jeito na vida. Livrou-se daquela megera e encontrou essa santa! A Mônica sim é uma mulher com ‘M’ maiúsculo!”.
Mas não era nada disso. Tudo teatro. Todas as noites, e repito: todas as noites Paulinho chorava em silêncio e babava no travesseiro até o dia raiar. De manhã, numa coriza medonha, tomava seu banho e saía para a rua. Mais um dia de teatro.
Comprou um revólver e uma fantasia de florista e foi bater na casa de Taveira, com a arma escondida no meio do buquê de margaridas. Taveira abriu a porta e ouviu-se logo o estampido. O tiro, certeiro, matou o professor de yoga antes que este pudesse dizer ao menos um “olá”. Nilza, que estava na cozinha, correu para a sala e viu a cena dramática: Paulinho com o revólver na mão e Taveira morto no chão com o queixo dilacerado. Os vizinhos, assustados, correram para o apartamento de Taveira, mas Bondade havia trancado a porta e bloqueado a passagem com a mesa de jantar. Do lado de fora, só o que se ouvia eram os inacreditáveis gritos de pavor de Nilza. De Paulinho, não se ouvia sequer um pio. Os vizinhos tentavam desesperadamente arrombar a porta quando mais dois tiros foram disparados. Tarde demais.
A polícia chegou e conseguiu arrombar a porta. Lá dentro, o que se via era uma cena lamentável: três corpos sem vida estendidos no chão, cada um com um buraco de bala. Em cima da mesa, Bondade deixara um bilhete destinado à Dona Isolda, mãe de Nilza, com os seguintes dizeres:

“Ninguém me humilha mais. Antes de matar, estuprei. Ass.: Paulinho.”



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