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Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil

11 de setembro de 2007

NOMES EM SÉRIE

Cheguei apressado ao escritório e foi aí que vi, em cima do teclado do computador, o tal recadinho anotado com a letra insegura da Vânia, a secretária-faxineira, num pedaço de papel: “Léo te ligou. Pediu pra você retornar a ligação. URGENTE!”

Liguei imediatamente pro celular da Vânia, a secretária-faxineira, pra saber o complemento simples e indispensável daquele pedaço de informação anotado no papel:

-Vânia, sou eu!
-Oi, Patrão. Em que posso estar te atendendo?(Vânia, a faxineira-secretária, achava chique falar tudo no gerúndio).
-É que eu vi aqui o recado que você deixou, Vânia, mas eu preciso saber qual foi o Léo que me ligou.
-Como assim qual Léo, senhor?
-Uai, eu conheço milhares de Léos, Vânia! Preciso saber qual deles me ligou pra poder retornar essa tal ligação “urgente”.
-Olha, infelizmente isto eu não vou poder estar te informando, Doutor. Só sei que era Léo.

E foi assim, no meio dessa aflição de não saber qual dentre os trinta e sete Léos que eu conheço havia me ligado, que percebi uma verdade nítida e esmagadora: já não se fazem mais nomes como antigamente. Ah, há quanto tempo não se vê mais um Segismundo, um Bartolomeu, uma Aracy! Tivesse me ligado um Bartolomeu e certamente seria ele o único Bartolomeu que eu conheço. Na pior das hipóteses, haveria dois Bartolomeus. E feliz daquele que tem o prazer de possuir em sua roda de amigos duas pessoas com esse nome histórico e teatral.

Pois eu dou uma rápida olhada em minha agenda e encontro 37 Leonardos, 45 Rodrigos, 22 Julianas e 74 Marianas! Não bastasse usarmos todos as mesmas roupas, assistirmos às mesmas novelas, desejarmos os mesmos tênis e morarmos nas mesmas casas, agora, pasmem, temos todos os mesmos nomes. Somos uma infinidade de Marcelos, Felipes e Letícias. Produzimos em série até as nossas alcunhas. O processo de uniformização está completo: somos todos iguais e, o que é pior, almejamos ser iguais. Estranhamos os nomes raros e fazemos até piada, quando a verdadeira estranheza está justamente no fato de termos todos os mesmos oito ou dez nomes e acharmos isso normal. Engraçado e bizarro é um país só de Dudus.

Lembro-me agora da família do meu avô. Essa sim uma família de nomes únicos, límpidos e adjetivos. Sim, adjetivos, uma vez que qualificavam a pessoa, distinguiam-na na multidão de outros nomes. Vejam bem que beleza: Eldonícius, Polinícius, Semirames, Magdala, Zenaide e Rhéa Sylvia. Todos primos, parte de uma mesma família. Percebam: Magdala só há de ser uma. Rhéa Sylvia também não há duas. E se alguma voz gritasse de longe, bem de longe, “Eldonícius, o almoço está pronto” certamente o saudoso primo do meu avô saberia que aquela haveria de ser a voz da sua querida mãe. Hoje em dia, tal fato seria impensável. Uma mãe que ouse berrar por aí na busca de um Leonardo para o almoço certamente haverá de ter em sua porta em questão de segundos toda uma horda de Leonardos famintos.

Distinto tio de também distinto nome que rodava pra lá e pra cá em seu fusca amarelo cocô era o Amílcar. Vejam que digno nome, também hoje condenado a um indevido ostracismo. Mas falei no fusca e preciso completar. À medida que foi envelhecendo, nosso querido Tio Amílcar, que já era baixinho, foi encolhendo. No fim da vida, era menor que um gnomo. De tal forma que ao pilotar o seu tradicional fusca amarelo cocô era impossível visualizar o motorista. O “fusca-fantasma” fazia bruscas conversões, balizas milimétricas, arrojadas ultrapassagens e a alegria das crianças do bairro. Não se sabe como...

Volto à minha agenda. Começo, atenciosamente, a repassar todos os Leonardos na tentativa improdutiva de localizar aquele que me havia ligado e percebo: não há em minha agenda, ou melhor, em todo o território brasileiro, um único elemento que seja conhecido simplesmente como “Léo”. É absolutamente necessário qualificar o nome com algum complemento: Léo Gordo, Léo Cabeça, Léo Bago-de-Boi, Léo Jeba, e por aí vai.

Mas toca o telefone:
-Alô!
-Alô. Quem fala?
-É o Léo, pô! Deixei recado aí pra você me ligar urgente.
-Qual Léo?
-Como assim qual Léo? Só Léo, uai.
-Só Léo?
-É! Só Léo.
-Então deve ser engano, meu filho. Não conheço nenhum Léo. Passar bem...

25 de junho de 2007

O NOSSO CÉU

Estavam os dois deitados na cama de uma pousada linda, cravada numa montanha de Minas, ele no colo dela. Ela fazia cafuné, brincando com os cachos do cabelo dele. Ele, com aquela felicidade calma de quem se sabe no lugar certo, acompanhava com olhos lentos o passarinho que brincava na varanda. Falou:

- Outro dia vi um filme que retratava o céu de uma maneira interessante. Falava que o céu de cada pessoa é diferente do da outra. Que o paraíso é uma coisa particular, como se fosse um somatório das coisas que a gente mais gosta aqui na Terra. Aí eu fiquei pensando como é que seria o meu céu...
- E como ia ser?
- Ah! Pra começar não ia ter carro, nem asfalto, nem engarrafamento. Todo mundo andaria a pé, ou de bicicleta e o chão ia ser de grama, pras pessoas andarem mais descalças.
- É... Isso ia ser bom mesmo. No meu também não ia ter carro não.
- No meu céu também não ia ter revólver.
- No meu também não.
- E no meu céu ia ter uma casa com uma jabuticabeira no quintal. Sem falar que todo mundo ia ter a casa que quisesse. E se alguém não quisesse ter casa, então que não tivesse. E o seu céu?
- No meu céu não ia ter coluna social.
- Nossa! Perfeito. Como é que eu não tive essa idéia?
- E também não ia ter o Faustão.
- Putz! Tô achando que eu vou querer ir pro seu céu. Muito boas as suas idéias... Quem sabe a gente não junta as nossas idéias e faz um céu em dupla?
- Depende... Preciso saber mais sobre o seu céu então.
- Bom, no meu céu ia ter Galo e Cruzeiro todo domingo, e o Galo ia ganhar sempre de goleada, só com gols humilhantes do Reinaldo.
- Uai, e o Éder?
- Tá bom. Do Reinaldo e do Éder.
- Que mais?
- Ah... Ia ter todos aqueles butecos que a gente vai lá em BH. Com a diferença que a gente ia poder tomar todas as cervejas mais geladas com torresmo sem preocupar com barriga nem coração.
- E caipi abacaxi? Não vai ter? Se não tiver, não vou.
- Claro que vai ter! Vê se eu ia esquecer disso!
- Ah bom.
- Também não vai ter banco, bolsa de valores, inflação, risco-Brasil, nada disso. Aliás, nem dinheiro vai ter.
- É. Melhor não mexer com dinheiro não, porque quando tem dinheiro no meio vira um inferno. Só de pensar em banco, fila e boleto pra pagar já me dá enjôo.
- Dois então. Mas pensa mais coisa aí... Me ajuda também, uai! Só eu que dou sugestão...
- Tá. Eu quero que tenha comida japonesa...
- Boa! De preferência combinados de salmão. E muito saquê.
- Saquê é fundamental...
- E depois do japa não pode faltar você peladinha com aquele tesão que você fica quando toma saquê...
- Mas será que no céu pode?
- Claro que pode, uai. O céu é nosso! Aliás, deve! Porque se não puder transar então não é céu: é inferno!
- É, tem toda a razão... Sem transar é inferno mesmo. Tô adorando esse nosso céu!
- Sabe de outra coisa? No nosso céu tem que ter nós dois deitados nessa cama, eu no seu colo, você fazendo cafuné e brincando com o meu cabelo e a gente conversando sobre o céu. Porque pra mim não tem jeito de o céu ser muito melhor que isso aqui não...
- É. Não tem não... Acho que essa cama com você já é um pouquinho de céu mesmo.
- Por mim eu passava o resto da vida aqui com você.
- Quem dera...

E assim dormiram, um enrolado no corpo do outro, como se fosse um bicho só.

Hoje, três meses depois, já não estão mais juntos. Ele está solteiro, saindo quase toda noite com os amigos, enchendo a cara e ficando cada dia com uma mulher diferente. Tem umas que nem o nome ele lembra. Ela? Ela está namorando um gerente de banco.

30 de maio de 2007

COITADO!

Viu o sinal amarelo e acelerou. Não queria chegar atrasado porque estava correndo feito um louco atrás daquela promoção no seu trabalho, em uma gigante corporação multinacional, precisava paparicar o chefe. Mas não deu. Foi obrigado a frear e esperar o interminável tempo de um sinal vermelho. “Tempo é dinheiro”, pensou. Apático, viu o malabarista do sinal vermelho se aprontando para mais um número. Sim, para mais um número. Já era rotina: todo dia passava por ali naquele mesmo horário e todo dia via o mesmo número mambembe daquele acrobata que devia ter, como ele, uns 25 anos. Usava uma roupa colorida de circo, mistura de pierrot com bobo da corte, e ateava fogo aos malabares naquele exato momento.

De dentro do seu carro, os vidros fechados, as portas travadas e o ar condicionado ligado, ao ver bem na sua frente pela centésima vez aquele rapaz da mesma idade que ele fazendo malabarismo no sinal, o jovem funcionário sentiu pena. Sim: teve muita pena. “Que bosta de vida, a desse cara! Como é que pode uma pessoa levar uma vida assim? Acordar todo santo dia na mesma hora, vestir essa mesma roupa de palhaço pra fazer a mesma coisa de sempre!” Enquanto pensava, ficava atento ao malabarista que, com seus movimentos precisos, criava desenhos de fogo no ar. Parecia ver aquela cena em câmera lenta. “Coitado! Vai passar a vida toda fazendo isso e nunca vai ter o que eu tenho”.

O número acabou brilhantemente e o malabarista passava de carro em carro com seu chapéu de bobo, na tentativa de recolher um trocado. As janelas dos carros permaneciam fechadas. A grande maioria das pessoas nem olhava, nem reconhecia a existência daquela pessoa. Era como se fosse invisível. Talvez não olhassem para não ter que encarar realmente a sua existência. Alguns até deram algum dinheiro pela greta da janela espelhada, mas sem olhar.

Já se conheciam de vista, de tanto se encontrarem por ali. O malabarista se aproximou do carro do jovem funcionário: lá estava ele como sempre com seu indefectível terno preto, não obstante o calor de fritar ovo no asfalto, e o impecável cabelo engomado, penteado pra trás, e o suor escorrendo pela testa enquanto tentava afrouxar o opressivo nó da gravata, como sempre. Também como sempre estendeu o chapéu e recebeu do jovem funcionário algumas moedas. O valor de sempre. Cruzaram os olhares e fizeram um para o outro, como sempre, uma ligeira reverência, balançando positivamente a cabeça:
-Oi!
-Opa!


O sinal abriu e o rapaz arrancou seu veículo. Afinal, ainda tinha que paparicar o chefe. Sentado no meio fio enquanto contava os trocados recebidos, o malabarista pensava naquele jovem funcionário que todo santo dia passava por ali, fosse chuva ou sol, com seu terno preto e seu cabelo engomado. Ficou triste e teve dó do outro. Isso mesmo: também ele sentiu muita pena. “Que bosta de vida, a desse cara! Como é que pode uma pessoa levar uma vida assim? Acordar todo santo dia na mesma hora, vestir essa mesma roupa de palhaço pra fazer a mesma coisa de sempre!” Enquanto isso, imaginava-o no seu emprego, enclausurado em algum cubículo calorento e recebendo ordens de algum chefe chato, realizando as mesmas tarefas burocráticas de sempre. Parecia ver aquela cena em câmera lenta. “Coitado! Vai passar a vida toda fazendo isso e nunca vai ter o que eu tenho”.

E é isso. Todo dia se encontram, e todo dia se despedem desse jeito: um deprimido com a miséria do outro.


14 de setembro de 2006

ESTÁ DECIDIDO

Está decidido: nunca mais a verei! Nunca mais vou brigar com ela aquelas mesmas brigas. Nunca mais vou olhar na cara dela. Nunca mais vou convidá-la pra sair. Nunca mais ela vai receber um telefonema meu. Nem e-mail, nem mensagem, nem presente, nem carta, nem recado. Nada.

É irreversível. Nunca mais passarei horas no carro em frente à sua casa esperando que ela fique pronta. Não vou mais sair com ela pra beber à toa e jogar conversa fora. Nunca mais vou ficar preocupado com os seus problemas. Não vou mais ligar pra ela do meio da torcida do Galo pra falar o resultado do jogo. Nunca mais vou falar pra ela o quanto ela é linda. Nunca mais vou apertar com força aquela mão, nem morder aquele ombro. Nunca mais vou sentir aquele perfume único, nem elogiar cada roupa mais bonita que a outra.

Está decidido: nunca mais ela vai fazer massagem no meu pé. Nunca mais vai ouvir comigo aquela música da Portela. Não tem mais jeito. De hoje em diante, nunca mais quando o telefone tocar eu vou esperar que seja ela. Nunca mais vou escutar o que ela fala, nunca mais vou discordar dela, nem concordar. Não vou mais ficar horas estudando no mapa do Brasil o melhor roteiro pra nossa viagem no Reveillon. Não vou mais ficar escolhendo com ela os nomes que os nossos filhos teriam. Acabaram-se todos os planos.

Está mesmo decidido: nunca mais a verei. Ontem, no velório tão triste, foi a última vez. Ela estava imóvel. E parecia perfeita para se levantar e vir me dar um abraço. Por que não veio? O que faltava àquele corpo que impedia o seu sorriso? Pra que serve tanta lágrima?

Apertei com toda a força do mundo sua mão tão sem calor e me despedi. Infelizmente não depende de mim. Simplesmente é assim. Está decidido: nunca mais sentirei ciúme.

31 de agosto de 2006

DOIS EM UM

De um lado Rubem Braga, do outro Nelson Rodrigues.
De dia Mário Quintana, à noite Rubem Fonseca.
Hoje Carlos Drummond, amanhã Augusto dos Anjos.
Tão diversos um do outro,
seres pensantes, sentintes e solidários
com outros seres iguais e inconscientes.
Sempre reagindo, de maneira singular,
a estímulos e provocações comuns.
Mas sempre reagindo.
Assim somos nós,
eu e mim-mesmo.
Dois em um.

17 de agosto de 2006

A ASSASSINA

Quando eu acordo já começo a ficar tenso. Sei que vem pela frente mais um longo dia em que ela vai fazer de tudo pra me matar. Assim tem sido há muito tempo, e sei que hoje não vai ser diferente. O coração já começa a bater forte no café da manhã, porque sei que vou sair de casa. Vou ter que abandonar o único ambiente em que me sinto protegido daquela assassina implacável.

Antes de entrar no meu carro, ainda na garagem, faço uma inspeção completa: olho debaixo e dentro do veículo e dou uma conferida no porta-malas pra ver se não tem ninguém. Podem me chamar de paranóico, mas já ouvi vários relatos de latrocínios que aconteceram desse jeito. Não vou deixá-la me vencer assim tão facilmente. Sei que ela mata mesmo e que se eu bobear serei presa fácil.

No engarrafamento, parado no sinal, mantenho sempre fechados os vidros do meu carro. Escondido detrás da película escura, será mais difícil ser alvejado por um de seus homens, desses que pedem no sinal e atacam com cacos de vidro na garganta quando a gente menos espera. Vivo com taquicardia, não relaxo nunca, sempre atento procurando evitar seu próximo ataque. Vários por aí mal sabem que estão jurados de morte e ela, homicida eficiente, vai eliminar a todos, um por um.

Por isso me preocupo tanto quando chego ao trabalho. Obsessivo, sempre caminho olhando para trás, tentando me prevenir contra a abordagem repentina de algum suspeito. Qualquer desatenção me custará a vida, pois há anos ela me persegue diariamente, mas há anos venho conseguindo adiar o meu fim. Seus assaltantes e assassinos estão aí, à solta, esperando o menor descuido para concluir o meu destino.

No fim do dia, volto pra casa dirigindo com cuidado, porque sei que ela tem espalhado pelo trânsito alguns de seus matadores mais eficientes. Quando não matam no acidente, matam na briga de trânsito. É tão comum que as pessoas já nem se espantam mais. Mas eu não vou me entregar. Mais um dia está terminando e eu já estou próximo de casa. Minha casa é minha fortaleza. Pago caro pra ter porteiro no prédio, grades pontiagudas, um alarme barulhento e convênio com uma firma de segurança particular exatamente pra evitar que ela consiga me atingir. Nem na polícia eu confio mais. No meu apartamento me sinto protegido.

Ufa! Até que enfim: lar doce lar! Agora sim posso relaxar. Aqui não sou mais tão vulnerável. Sinto-me vitorioso por escapar mais uma vez ileso daquela criminosa insensível. Descansado, e menos paranóico, posso fazer um saboroso lanche na padaria da esquina. Lá tem um misto quente gostoso a um preço honesto, ideal para finalizar o dia, e fica logo ali: basta atravessar a rua. Sigo conforme manda o figurino. Só atravesso na faixa de pedestres pra evitar qualquer tipo de problema, afinal, nunca se sabe.

De repente, sinto um vento forte seguido de um baque: fui pego. Como havia dito, ela é sempre uma matadora muito hábil: venceu-me no meu único instante de desatenção. Um motoboy apressado avançou o sinal vermelho em altíssima velocidade e, sem que eu pudesse reagir, me atropelou. Fui atirado alguns metros e bati a base da cabeça no meio fio. Que raiva! Odeio perder! Meu sangue escorre espesso pelo asfalto enquanto o motoboy acelera cada vez mais. Ele fugiu para poder entregar a tempo sua próxima encomenda. Já não consigo me mexer quando chega um sono incontrolável, seguido de uma confusa sensação de alívio. Sinto-me estranhamente bem, meus problemas acabaram. Morto, estou completo. Algumas pessoas param, mais por curiosidade que por caridade, outras apenas seguem seu caminho, em busca da segurança de suas casas.

O que eu tanto temia aconteceu: ela conseguiu me matar. De nada adiantou tanto zelo, tanta obsessão, toda aquela paranóia diária. De nada adiantaram as grades do prédio, o porteiro e aquele serviço tão caro de segurança particular. Ela usou o velho golpe do motoboy apressado para acabar comigo. Na minha luta pela sobrevivência na cidade, eu perdi. E tome cuidado: a cidade também pode matar você. A cidade é assassina.

31 de julho de 2006

VIDA QUÍMICA

Tocou o despertador. Nem parece que eu dormi e já chegou a hora de acordar para trabalhar. Aquela rotina de sempre: banho e depois café da manhã. Um copo de leite desnatado, uma fatia de pão integral com ricota e os primeiros comprimidos do dia. É... Tomo um monte de vitaminas diferentes no café. Uma pra acabar com um tal de radical livre, outra pra evitar a calvície, outra pra tirar pé de galinha...

Mas não paro por aí não. Vou contar como a coisa funciona: no meu caminho pro trabalho, sempre pego um trânsito muito mala. Fico ali parado naquele calor, no meu carro popular sem vidro elétrico, sem direção hidráulica nem ar condicionado, ouvindo buzinas ensurdecedoras às 7:30 da manhã. Tudo isso pra chegar no meu trabalho que é mais mala ainda. O meu chefe então nem se fala: é insuportável. Não tem nada pior que um burro com autoridade. Ganho pouco pra ser humilhado diariamente. Você precisa ver que delícia.

O que me salva, então, é o Prozac. Antes de sair de casa já mando logo um pra dentro, que é pra agüentar esse rojão. Só que com o Prozac eu fico excitado demais e aí, pra contrabalançar, eu tomo dez gotinhas de uns florais de Bach que eu tenho em casa que são uma beleza! Agora sim, posso começar o meu dia.

Logo antes do almoço eu tomo uma anfetaminazinha, bem de leve, pra dar aquela diminuída básica no apetite. Saio pra almoçar feliz da vida, com tão pouca fome que umas folhinhas de rúcula com agrião já são suficientes pra me saciar. Depois do almoço, pra finalizar, não pode faltar aquela xícara gigante de café expresso que me deixa elétrico pra agüentar o batente no turno da tarde.

O problema é que vai chegando o final do dia e o efeito da anfetamina vai passando, começa a bater uma fome negra. Mas comer comida mesmo, de verdade, eu não posso de jeito nenhum, senão eu engordo e todo mundo sabe que no mundo de hoje não tem lugar pra obeso. Gordo hoje em dia só pega mulher se for pagando ou se também for gorda. Todo mundo gosta é daquelas mulheres bem magrelas, que vomitam tudo que comem, com peitão de silicone. Sancho Pança só serve pra ser o engraçado da turma ou o gente boa, e isso eu não quero. Então eu preparo aquele shake Herbalife maravilhoso, que não tem gosto de nada, mas quando bate na barriga vira uma maçaroca que engana a minha fome por mais um tempinho e eu ganho uma sobrevida...

Pronto! Saí do trabalho e agora é hora de passar na musculação para dar aquela malhada. Antes, é claro, eu tomo uma injeçãozinha limpeza, que um amigo meu super sangue bom me indicou. É um anabolizante pra cavalo mangalarga que ele me garantiu que não faz mal nenhum, e nele eu confio porque afinal de contas já tem um tempão que ele é faxineiro lá da academia. Na verdade, a minha pele tá ficando meio estragada, minhas costas meio peludas, mas em compensação tô ficando com um bíceps bombante e um abdômen que parece um tanque. Quando acaba a malhação eu devoro uma barrinha de proteína que é a minha última refeição do dia.

Satisfeito da vida, saradão, eu tomo um banho e já ligo pra turma da academia pra marcar a balada. Hoje vai tocar aquele mesmo Dj da semana passada e da retrasada que a mulherada adora. O cara acelera com força! O bom é que a música é muito alta, quase ensurdecedora. Isso me salva, porque não dá pra ouvir nada e aí eu nem preciso conversar com o mulherio. Normalmente eu não bebo, porque dá muita barriga. Prefiro tomar um docinho, ou uma bala, o que estiver mais à mão, e aí começo a delirar com aquele bate-estaca. Parece que o cara tá tocando dentro da minha cabeça. A primeira menina que me dá meia olhada já sabe que eu passo o rodo. E passo mesmo, quero nem saber!

Aí é garantido, com essas meninas de hoje, que vai acabar no motel. E eu, que não sou bobo, já ando com o Viagra na carteira e mando ele pra dentro na hora que eu tô saindo com a gata da boate, que é pra já chegar no motel em ponto de bala. Acelerado por causa do doce e bombando do Viagra, fica fácil. Pego a mulher de um jeito que ela vai chegar em casa destruída, detonada. Eu sou o cara!

O único problema do Viagra é que depois dá uma dor de cabeça que é um espetáculo. Parece que o tampo vai explodir. Mas é pra isso que existe a Neosaldina. É só tomar uma neusa que em meia hora passa a dor. Aí eu deito. Mas não consigo dormir, porque o efeito do doce ainda não passou e eu fico ouvindo meu coração bater como se fosse um terremoto. Abro a gaveta do criado-mudo e pego a cartelinha do Dormonid. Tomo um, dependendo dois, e durmo igual um anjo. No dia seguinte, quando eu acordo, repito tudo outra vez. E não consigo nem imaginar como meus pais e meus avôs, ou até os homens das cavernas faziam pra viver sem essas pílulas milagrosas, esses comprimidos maravilhosos. Viva a indústria farmacêutica! Viva a química!

9 de junho de 2006

O JARDINEIRO

"Enterrei meu canarinho
junto à roseira.
Agora, a primeira rosa
vai amanhecer
cantando."
(Yeda Prates Bernis)

Quando a gente acorda, e lembra, sente aquela vontade de chorar. Mas chorar por quê? O motivo primordial do lamento é algo que às vezes fica difícil entender. Vejo o rapaz basco de pé diante da Guernica, de Picasso: ele chora. O pai que assiste inquieto ao nascimento da filha também chora. A lavadeira do interior de Minas que viaja uma eternidade para, pela primeira vez na vida, ver o mar. Olhando com os pés molhados a força da rebentação salgada, ela ao mesmo tempo chora e ri.

É isso. O ser humano tem esse dom de sentir. O belo também faz chorar. E quando olho pra trás, tentando recuperar tudo o que posso da vida do meu avô, só o que vejo é beleza: a vibração da família, a elegância no trato com as pessoas, a dedicação incansável ao trabalho e a pureza da caridade. É aquela sensação de que tudo deu certo. Mas na vida real sempre me pareceu impossível um mundo assim, tão perfeito. Talvez tenha havido alguma feiúra, e dela ele nos tenha poupado.

Viveu como um jardineiro teimoso, plantando sementes coloridas nesse jardim-mundo preto e branco. E cada uma dessas sementes um dia se tornará árvore. E essas árvores darão os mais diversos frutos, das mais diversas cores e sabores. É assim o milagre da vida. Através do esforço silencioso e constante desse jardineiro que lutou, sem muita ajuda, para transformar em floresta esse nosso deserto. E é por isso que dá vontade de chorar. Chorar sim, de tão bonito.

8 de maio de 2006

AS COISAS DO ATROPELADO

"Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso".

E era exatamente assim, como o personagem de Kafka, que Fabiana se sentia. Lendo “A Metamorfose” ela percebeu de fato uma grande identificação com o protagonista do famoso romance. Mergulhada em suas utopias, há muito já se via como uma aberração: estranhava o mundo em que vivia como se não compartilhasse mais nada com o jeito humano de ser. Não conseguia mais se comunicar direito com as pessoas à sua volta, mesmo as mais próximas, que por sua vez viviam comentando entre si: “Fabiana está cada dia mais louca!”.
A verdade é que Fabiana era de fato, e com orgulho, diferente. Vivia no mundo da contemplação e tinha um compromisso absoluto com a sua própria felicidade. Não fazia concessões e não admitia fazer nada que fosse, para ela, chato ou entediante. Deliciava-se com livros, cinema e obras de arte, e não conseguia de maneira alguma se estabelecer no mundo oficial em que viviam suas amigas. Estas, sempre pragmáticas, moças de famílias tradicionais e respeitadas na cidade, viviam lhe dizendo:

-Pelo amor de Deus, Fabi! Você vive em outra realidade, minha filha! Parece que faz questão de ser diferente de todo mundo só pra chocar. Não quer saber de namorar ninguém, não acredita em casamento... Vai acabar ficando pra titia se continuar assim. Olha que já está chegando nos trinta!

-O que eu posso fazer, Beatriz? Eu não quero levar uma vida hipócrita. Quero vida de verdade. Vocês todos é que não enxergam o que está debaixo dos seus olhos! Isso aí não é vida pra mim não. Acho pouco. Quando casa é uma beleza, mais depois de um certo tempo eu já vi como que é. Fica aquele relacionamento mecânico, repetitivo, sem paixão, sem taquicardia, sem surpresa nenhuma.

-Ora, vamos admitir! Caia logo na real e faça como eu: me casei com o Rodrigo, que eu não amo e nem nunca amei de verdade, mas pelo menos é bem sucedido, me dá uma estabilidade na vida, sabe? Moro num bom apartamento, meus filhos estudam nos melhores colégios, tenho um carro do ano e uma casa de praia em Maresias! O que mais uma mulher pode querer?

- O que mais? Ora, tudo. Tudo o que eu não quero pra mim é essa tal “estabilidade” aí que você tá falando. Estabilidade é rotina! Eu quero uma vida instável, quero altos e baixos, quero rir muito e também chorar, que chorar faz parte da vida. Quero muita paixão e também aceito sofrer. Quero tomar porre e quero curtir a ressaca. Não quero de jeito nenhum um casamento burocrático, com diálogos decorados, jantar fora obrigatório no sábado à noite e beijinho morno de boa noite. Pra ser igual a você, que fecha os olhos pra não ver o marasmo que é a sua vida, que acha que felicidade é um carro zero, que trai e é traída e tá construindo sua vida inteira em cima dessa hipocrisia escrota, prefiro continuar do jeito que eu tô. Eu não sirvo pra isso.

- Fabiana, tá cada vez mais impossível conversar com você. Só tô querendo te ajudar e você vem me dando essas patadas!

- Me ajudar??? Me ajudar??? E desde quando eu tô precisando ser ajudada? Me deixa quieta no meu canto que eu sei muito bem o que eu tô fazendo e assim a gente nem precisa discutir. Adoro você, mas não agüento essa mania de querer ficar me forçando a ser igual a todo mundo. Se isso basta pra você, ótimo! Só que você tem que respeitar a minha opinião e, pra mim, essa vidinha tradicionalzinha não serve.

- Tudo bem. Mas escuta uma última coisa: aposto que você um dia ainda vai dar o braço a torcer e acabar igualzinha a todas nós. Casadinha, trabalhando que nem uma doida e ainda arranjando tempo pra buscar filho na escola e arrumar a casa pro maridão. Tenho certeza!

- Olha, Bia, confesso que acho difícil isso acontecer, viu? Principalmente essa parte do “maridão”. Tem tanto cara interessante nesse mundo, tanta gente legal que eu já conheci e tantos que eu sei que ainda vou conhecer... Cada um com um jeito diferente, uma mania, um cheiro... Acho isso bom demais! Quero mesmo é namorar muito, viver ali cada momento de verdade, sentindo o coração bater forte no peito. Esse papo de marido eu não descarto, mas só se fosse mesmo uma pessoa muito especial, tipo uma alma gêmea, mas você sabe que eu não acredito nessas coisas, né Bia?

- Ai, ai , ai, Fabiana... Você tá cada dia mais distante da realidade...

E era sempre assim. Fabiana falava e ninguém a entendia. Na cabeça das amigas, as suas idéias não faziam o menor sentido. Achavam, realmente, que Fabi estava à beira de ser internada num hospício ou coisa parecida. Da mesma forma, ela não conseguia admitir que alguém pudesse ser capaz de levar uma vida desse jeito premeditado que Beatriz e suas outras amigas levavam. Mas é verdade que Fabiana andava realmente meio perdida. Ela sabia claramente o que não queria, mas não sabia muito bem o que queria.

Gostava muito mesmo era de sair por aí no seu carrinho, meio velho, meio desregulado, indo atrás de uma boa conversa em algum boteco, alguma festa, cantarolando distraída os sambas que gostava de ouvir. E foi justamente numa destas noites que aconteceu o fato que marcaria, talvez para sempre, a vida de Fabiana.

Animadíssima naquela noite, a programação começava num bar com alguns amigos dos mais boêmios. Com essa turma, era impossível saber onde terminaria a noite, e ela adorava essa sensação de incerteza, de improviso, essa noção de que tudo poderia acontecer. No caminho para o bar, no seu carro, ela ouvia um cd do Cartola e cantava, ou melhor, gritava junto com o cantor o seu samba preferido:

“Deixe-me ir, preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar...

Quero assistir ao sol nascer,
Ver as águas dos rios, correr,
Ouvir os pássaros cantar,
Eu quero nascer, quero viver!

Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar...

Se alguém por mim perguntar,
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar!”.


No ápice da sua empolgação, Fabiana ouviu um forte estrondo e sentiu um solavanco que quase lhe arranca o pescoço: atropelara algo. Em pânico, desceu do carro e viu quase debaixo dele, estirado no chão sobre uma poça de sangue, o corpo de um homem.

Disse corpo e isso pode dar a impressão de que o homem estivesse já morto. Não estava. É verdade que não conseguia se mexer, mas gemia muito: o choque havia sido forte e ele devia estar todo quebrado, muito machucado. Sem conseguir se mexer também estava ela, atônita, no meio da rua. O trânsito não parou. Os carros continuavam a passar em alta velocidade na avenida. No máximo buzinavam uma buzina raivosa. E não havia pedestres. A avenida larga e asfaltada era terreno inóspito para a caminhada e a prova disto era aquele rapaz de camiseta branca, calça jeans e tênis All Star que agonizava debaixo do carro.

Ela então ouve uma voz. Era ele, o atropelado. Com dificuldade, o sangue escorrendo, pediu que ela fizesse alguma coisa, chamasse uma ambulância. Só assim ela saiu do estado de choque. Venceu a inércia, ligou para o socorro e tentou conversar com o ferido. Chegou bem perto para entender o que ele tentava sussurrar, tão perto que sentiu seu hálito de sangue. A alça da bolsa que ele carregava havia se enrolado em seu pescoço e dificultava-lhe a respiração.

Desesperada, mas com muito cuidado, ela conseguiu desenrolar e retirar a bolsa no exato momento em que chegava o socorro. Rápidos e sem fazer muitas perguntas, os médicos iniciaram o atendimento ao rapaz. Fabiana ficou ali, parada, observando tudo e segurando aquela bolsa suja de sangue que há poucos instantes retirara. Em poucos instantes, a ambulância partiu.

Depois de resolvidas todas as questões policiais e burocráticas ela correu alucinada para o hospital. Estava muito preocupada com a saúde do moço e, ainda por cima, tinha ficado por engano com a sua bolsa. Sentou-se na sala de espera, aguardando ansiosa o boletim que o médico lhe prometera. Tremia enquanto idéias desconexas passavam por sua cabeça: “Como é frágil a vida humana! Adoro os sambas do Cartola! Todo mundo deve estar se divertindo no bar... Será que a família daquele homem já sabia do seu atropelamento? Ai que preguiça da Beatriz! Que pena que o inseto morreu no livro do Kafka! Será que aquele rapaz que eu atropelei tinha namorada? Será que ele vai morrer?”

Não suportou. Tinha necessidade de se sentir íntima daquele homem que atropelara. Abriu a bolsa à procura de alguma coisa que lhe ajudasse a conhecer melhor aquela pessoa. Encontrou, no primeiro compartimento, um Ipod. Isso mesmo, um daqueles aparelhos portáteis que armazenam fotos e tocam músicas. Sabia que mexer no aparelho seria invasão de privacidade, mas não conseguiu evitar e foi, aos poucos, se impressionando. Olhando as fotos, foi acompanhando e montando na sua cabeça uma história da vida do moço que ela sabia que estava entre a vida e a morte. Nas fotos, ele aparecia ainda pequeno, no colo da mãe e do pai, depois numa festa de aniversário com bolo e tudo. Aos poucos o menino da foto ia crescendo e se transformando no adulto que ela atropelou. Como ele era bonito!
O peito de Fabiana começou a doer forte à medida que ela ia identificando uma série de impressionantes coincidências entre eles. Algumas fotos mostravam exatamente as mesmas praias pequeninas e quase desertas não fossem as vilas de pescadores que Fabi adorava conhecer. Outra foto mostrava o estádio do Mineirão, no meio da torcida do Galo, exatamente no mesmo lugar da arquibancada em que Fabiana gostava de se sentar pra torcer até ficar rouca e tomar cerveja com os amigos. Rodas de samba, botecos, churrasco com amigos, cidadezinhas do interior, uma casa com rede na varanda: tudo que aparecia naquelas fotos representava precisamente o universo que Fabiana adorava habitar. Começou a olhar a coleção de músicas e seu espanto foi ainda maior. Trazia no aparelho uma coleção completa e eclética de samba e tudo o mais que ela gostava de ouvir: estavam ali Cartola, Nelson Cavaquinho, Clara Nunes, Chico Buarque, Tom e Vinícius, Paulinho da Viola...
Sentiu uma vontade muito grande de chorar. O corpo que há pouco estava debaixo de seu carro foi deixando de ser um anônimo, uma pessoa qualquer. Diante dos seus olhos, através das fotografias e das músicas, foi se formando um sujeito, um ser humano com uma história de vida, uma família, amigos e um gosto musical. O corpo virou gente, se humanizou e ainda por cima começava a dar à Fabiana a impressão de que havia atropelado um conhecido, um grande amigo, ou até um namorado. Aquele homem, cada vez mais bonito, freqüentava o mesmo mundo que ela. Lembrou-se então da conversa que tivera com Beatriz e quase acreditou que acabara de atropelar a tal “alma gêmea”.
Foi quando chegou o médico trazendo notícias. Interpelado afoitamente por Fabiana, explicou que havia feito todos os procedimentos necessários e que o rapaz estava em coma devido a uma série de traumatismos na cabeça. A situação dele era bastante grave, mas havia esperança de que ficasse bom.

Fabiana chorou. Chorou muito. Sentou-se num canto da sala de espera e lá ficou chorando um choro silencioso enquanto revia todas as fotos e ouvia todos aqueles sambas. Cansada, os olhos vermelhos, resolveu abrir novamente a bolsa do atropelado para guardar o Ipod e deixou cair dela um livro: era “A Metamorfose”, de Kafka.

16 de março de 2006

PARA SEMPRE PETER PAN

"Ora, se não sou eu
quem mais vai decidir
o que é bom pra mim?
Dispenso a previsão!

Se o que eu sou
é tambem o que eu escolhi ser,
aceito a condição!"
(Rodrigo Amarante
)

Não gostei de ser adulto. Chato demais. Pode parecer clichê, e talvez seja mesmo, mas tenho saudade de ser criança. Ao contrário do que se possa imaginar, na passagem da infância para a vida adulta não há evolução. A verdade é que se perde muito mais do que se ganha. Tornamo-nos cada vez mais burros, automatizados, aceitamos cada vez mais a rotina a medida em que vamos deixando de lado a contemplação ingênua e a curiosidade intrínseca da criança.

O adulto acorda todo dia na mesma hora, vai pro seu trabalho e fica lá o dia inteiro repetindo à exaustão suas tarefas. Seja assinando papéis, pagando contas ou carimbando vias, ele passará o dia fazendo exatamente as mesmas coisas que fez no dia anterior. Até que chega um dia em que trabalhar é como dirigir um carro, ou seja, uma tarefa totalmente automática que sequer exige dele alguma atenção. Pior ainda é o momento em que essa postura desatenta extrapola o ambiente de trabalho e atinge a vida de maneira mais geral. É justamente nessa hora que faz falta o exemplo da infância.

Sinto falta dessa criança, de não conhecer como conheço hoje a imperfeição do ser humano. A maldade daquele que tortura, a corrupção, a inacreditável ganância dos homens que se matam não por um prato de comida, mas por mais um milhão para colocar na já gorda conta bancária.

A criança está sempre conhecendo o mundo. Quase tudo é novidade. Para ela não há verdades absolutas, e por isso ela está sempre questionando. É difícil separar na mente infantil os conceitos de real ou irreal, fato ou sonho. Lembro-me claramente de dúvidas ingênuas que tive na infância. Achava por exemplo que ladrões, bruxas e vampiros faziam parte do mesmo grupo de seres fantasiosos que só existiam em histórias fabulosas. Quando descobri que os ladrões existiam de fato fiquei apavorado por achar que, portanto, também seriam reais as bruxas e os vampiros.

Como não há como voltar no tempo, ou ser criança para sempre, como Peter Pan, o que me resta é tentar pensar com a cabeça do menino que um dia eu fui. Destruir todas as verdades absolutas que, ao longo dos anos, foram colocando na minha cabeça: que só posso ser feliz desse jeito ou daquele, que tenho que arrumar um trabalho assim ou assado, que tenho que usar aquela roupa da moda, que tenho que me casar com aquela moça de “boa família”.

Vou fazer como uma criança que está conhecendo agora o mundo, sem saber ao certo o que é verdade e o que é mentira. Questionando um por um esses dogmas estabelecidos pela hipocrisia e tabus construídos na mediocridade vou ser mais capaz de saber o que é bom pra mim. A vida é curta demais pra eu perder meu tempo seguindo um caminho que foi traçado por outros. Assim como Peter Pan, vou lutar para escapar do tic-tac sem fim do relógio na barriga do crocodilo. Não quero ser, de jeito nenhum, um adulto chato que senta no restaurante caro da moda com seu terno cinza enquanto vomita o jargão dos “bem sucedidos”. Vou procurar o meu próprio caminho. Vou fazer do meu jeito. E se eu errar, que seja um erro meu.

16 de janeiro de 2006

SERENA OU VALENTINA

Não tinha mais como adiar aquela decisão. Havia mais de três anos que Fortunato vinha levando uma vida dupla. Namorava ao mesmo tempo duas meninas: Serena e Valentina. O fato de elas não se conhecerem e até morarem longe uma da outra não impediu que a bigamia do Fortuna fosse descoberta. Ele mesmo vivia dizendo para os amigos:
-Mais cedo ou mais tarde minha casa vai cair...


E realmente não deu outra: a casa caiu. Fortunato entrou de mãos dadas e trocando bitocas com Serena no elevador lotado, sem perceber que lá dentro já estava Valentina. A baixaria começou ali mesmo. Valentina, que nunca fez a menor questão de manter a linha, já deu o berro e buscou Serena pelo cabelo, diante do olhar atento da animada platéia: -Vagabunda! Prostituta! Serena, sempre impassível, nem reagiu. Deve ter levado umas sete bolsadas da agressora sem fazer ao menos a menção de se esquivar. Enquanto isso Fortunato tentava, em vão, separar a briga no elevador lotado, por entre os sovacos suados dos curiosos passageiros. E foi assim. A partir daquele dia, tornou-se pública a bigamia praticada pelo Fortuna.

Entretanto, a verdade é que nenhuma das duas terminou de cara o relacionamento com o rapaz. O que aconteceu foi um ultimato bilateral: depois de recíprocas unhadas, pescotapas e hematomas, Serena e Valentina se uniram num bizarro conchavo exigindo do malandro Fortunato a escolha definitiva. –Ou uma, ou outra! Verdadeiro pânico tomou conta do rapaz. Para ele parecia totalmente impossível e absurdo optar por uma delas e abdicar da outra. Angustiado e impotente, resolveu pedir ajuda ao seu melhor amigo e confidente, o Peixe Elétrico, que acabava de voltar de longo exílio e poderia ter opinião imparcial, uma vez que não conhecia nenhuma das pequenas.

O Peixe Elétrico era alto e magro. Aliás, magro não: era esquelético. De longe se podia ver a efusão de costelas que lhe transpareciam a pele fina e branca. Na adolescência, foi viciado em todo o tipo de droga. Tomava de uma só vez os mais diversos comprimidos como uma criança pançuda devora jujubas. Bebia, cheirava, injetava e, se fosse o caso, até supositório ele aceitava. E dessa época de rotineiros excessos herdou o apelido e uma seqüela: um tique nervoso que fazia com que seu corpo todo tremesse, num intervalo perfeito de dezenove segundos, como um relógio. Isso mesmo: precisamente de dezenove em dezenove segundos vinha o tremor inadiável. Seus olhos reviravam, os pêlos do corpo todo eriçavam e o rosto vibrava fazendo pender de seu lábio um princípio de baba, como que numa crise epiléptica de um segundo de duração. E foi justamente a ele que Fortunato recorreu a fim de aplacar a aflição da escolha impossível.

Sentaram-se no tradicional ponto de encontro, o Bar do Cabelo. Depois da confraternização inicial, Fortunato iniciou a conversa que mudaria para sempre o seu destino:
-Pelo amor de Deus! O que é que eu faço, Peixe Elétrico?
-Quem diria, hein, Fortuna? Justo você, sempre o malandrão, o descolado, foi parar nesse mato sem cachorro...
-Pois é, meu irmão. Tô num beco sem saída. Não consigo viver sem as duas. Não basta uma, Peixe. Preciso das duas! Das duas!
-Só tem um jeito, cara. Você tem que comparar as duas item por item, situação por situação, e ver qual delas é melhor pra você.
-Como assim? Explica isso direito.
-Pra começar, faz um resumão das duas pra mim. Fala das características básicas, de como elas são com você.
-Ah, cara, é o seguinte: a Serena é meu nenenzinho, um anjo, a paz em pessoa. Ela é meu porto-seguro. E a Valentina é exatamente o contrário. A Valentina é fogo, rapaz. Dá um trabalho! Grita, me xinga, me arranha, mas me adora. E eu também adoro, dá pra entender?
-Mais ou menos... No dia-a-dia, como elas são? Preciso de mais dados pra te ajudar, Fortuna...
-A Valentina é um pitbull. Nunca vi mulher mais brava e mais ciumenta. Do lado dela eu vivo com taquicardia, só esperando a hora em que aquela bomba relógio vai explodir. É uma barraqueira de marca maior. Nem de motivo pra brigar comigo ela precisa. Na falta de motivo, ela inventa um. Já terminou o namoro comigo uma vez porque eu não soube falar se a carne que eu tinha comido no natal era pernil ou tender. Ela é dose, cara.
-E a Serena?
-Ah, a Serena é exatamente o contrário. É um amor. Evita a todo custo brigar comigo, super compreensiva. Me deixa jogar meu futebol, tomar minha cervejinha com a turma sem stress. Não me traz problema nenhum, só traz solução.
-Entendo, entendo. E na cama, como que é a Serena?
-Bom, a Serena na cama é mais ou menos, mas é uma gracinha. Ela faz a linha mais passiva, toma menos a iniciativa da coisa, tá me entendendo? Mas do jeito dela ela sabe ser uma delicinha. Fica lá me olhando e deixando eu fazer com ela tudo que eu quero. Uma princesinha...
-E a Valentina? Como é?
-Aí, não. São outros quinhentos! A Valentina é sensacional! Um espetáculo! Porque a nossa história é entre tapas e beijos, sabe como é? A gente tá sempre brigando e faz as pazes no sexo. E a Valentina é ativa na cama, domina a situação de uma maneira. Com ela não tem tabu. Entre quatro paredes ela faz de tudo, topa tudo. Ela é demais, Peixe...
-Sei, sei. Desse jeito fica difícil, pô.
-Mas é exatamente isso que eu tô te falando desde o começo! Porra, Peixe Elétrico! Minha situação tá foda!
-Calma, sem desespero. Descreve pra mim como elas são fisicamente.
-A Valentina é maravilhosa, uma beleza agressiva. Tem um rosto lindo, morena, estilo índia, capa de revista.
-E a Serena? Vai me falar que também é maravilhosa?
-Mais ou menos. A Serena é bonitinha, uma beleza mais angelical. Agora, você tem que ver o corpo da Valentina! Um avião. Um metro e setenta, poderosa, uma bunda e uns peitos gigantes, descomunais. Eu saio com ela na rua e o trânsito pára. A galera chega a aplaudir. Isso me dá a maior dor de cabeça porque fica cheio de gavião em cima. Eu tenho que ficar policiando o tempo todo pra não acabar igual um alce, com a cabeça cheia de galho. Nesse ponto, a Serena me dá muito menos trabalho, porque o corpo dela é bonitinho, mas não chama muito a atenção. Ela é mais magrinha, pouco peito. Mas é como eu te falei: acho um tesão também.
-Olha, cara, situação difícil a sua. Mas sabe como é... Você concorda que a mulher que você escolher vai querer casar rapidinho?
-Concordo. Disso eu tenho certeza.
-Pois é. E depois de tanta loucura que eu já fiz nessa vida, hoje eu posso falar que eu sou um cara mais tradicional, principalmente quando o assunto é casamento.
-O que você quer dizer com isso, Peixe?
-Tô te falando que, pelo que eu entendi, mulher pra casar mesmo é a Serena. Vê se você concorda comigo: isso que você sente pela Valentina é uma paixão muito forte, intensa. Só que todo mundo sabe que não existe nada mais eficaz pra acabar com uma paixão que um casamento. Com o tempo, essa paixão vai acabar e o que vai restar é uma mulher ranzinza, brava, chata e mandona e que ainda por cima vai acabar dando pro vizinho. Com ela, a sua vida vai virar um inferno em pouco tempo, cheia de altos e baixos. Já a Serena, pelo que você mesmo me falou, é o seu porto seguro. É desse tipo de mulher que nasceu e foi criada pra ser esposa, dona de casa e companheira dedicada. No longo prazo, a tendência é só melhorar. Você vai aprender a gostar cada vez mais dela. Se você quer mesmo saber a minha opinião, a Serena é a pessoa mais certa pra você.
-Porra, Peixe Elétrico. Quem te viu, quem te vê! Você agora me surpreendeu mesmo. Que dissecador do comportamento humano! Que sensatez! Você falou tudo que eu precisava ouvir.

E foi assim, depois dessa conversa no Bar do Cabelo, que Fortunato resolveu dispensar Valentina e eleger de vez Serena como sua companheira. Casaram-se, tiveram dois filhos e levavam uma vida tranqüila, quase monótona, sem altos e baixos como previra o sábio Peixe Elétrico. Construíram juntos uma casa mais ou menos espaçosa, num bairro mais ou menos luxuoso da cidade, onde criaram seus filhos, que por sua vez eram alunos mais ou menos bem sucedidos de uma escola mais ou menos conceituada na região.

No fim, ninguém pode dizer se Fortunato fez a escolha certa. A única coisa que se sabe é que, aos 45 anos, ele sofreu um infarto fulminante no banheiro de casa enquanto se masturbava. Serena o encontrou já morto, sentado no vaso sanitário com as calças arriadas e uma foto de Valentina na mão.

10 de janeiro de 2006

O CHICABON

Foi numa dessas cidadezinhas deliciosas do interior mineiro. Não interessa saber exatamente onde, só interessa que foi em Minas. Quem já percorreu de alguma forma essas estradas sabe muito bem do que estou falando.
Lá estava eu, sentado num bar de esquina tomando uma cerveja gelada na companhia de bons amigos quando aconteceu: na outra esquina, encostada numa mureta rosa, aquela menina chupava descansadamente um chicabon. Isso mesmo: com a leveza de quem tem a cabeça vazia de problemas, ela resolveu sentar-se ali, naquela mureta rosa, enquanto chupava tranqüila e displicentemente o seu picolé.
Devia estar lá pelos seus 15 anos. Linda, esbelta, corpo perfeito. Poderia ser considerada já uma adulta não fosse pelo ar desengonçado de quem ainda não se sabe mulher. E lambia aquele picolé como se o tempo tivesse parado. Naquele momento, o mundo era aquele chicabon. O maior problema a ser enfrentado era chupá-lo antes que se derretesse e lambuzasse a sua ventilada roupa.
Pode parecer banal, mas vejam, não é. Não se vê mais uma cena como essa nas grandes cidades. A correria do dia-a-dia torna inconcebível esse momento trivial de paz e tranqüilidade. Estamos sempre correndo, com pressa, não se sabe atrás do quê. Tudo é urgente. Contas a pagar, prazos a cumprir, buzinas frenéticas no carro que não sai do lugar. E, nessa rotina robótica, não há espaço para o tal chicabon. Ai daquele que for visto sentado no meio fio chupando um picolé. Logo lhe darão o implacável veredicto: -Preguiçoso... Vagabundo...
Porque, na metrópole poluída, respeitado mesmo é o sujeito que se mata nessa correria absurda, vende as férias, leva o trabalho pra dentro de casa nos fins de semana e mal percebe os filhos crescendo. Dessa maneira, esse “bem sucedido” cidadão, com seu dinheiro suado muito bem investido em rentáveis aplicações, vai levando sua vida até o dia em que pifa para sempre o seu estressado coração.
Além disso, outro empecilho ao pobre chicabon: impera agora a cultura do homem light. O homem light, para quem não conhece, jamais chuparia um picolé. Ele toma cerveja sem álcool, café descafeinado, leite desnatado e come doce sem açúcar. O homem light tirou a essência de tudo. Tudo para ele é proibido. O picolé, um perigoso e calórico veneno. De tanto proibir a essência de tudo, acabou ele mesmo se esquecendo de sua própria. Qual será mesmo, se é que existe, essa perdida essência do ser humano?
Na verdade, trata-se de uma pergunta de difícil resposta. Mas, enquanto isso, com sua abençoada ignorância dos problemas que os adultos inventam, aquela menina saboreava languidamente seu chicabon. Um picolé tem 400 calorias? 600 calorias? A bolsa de valores caiu? E daí? Sábia aquela menina sentada na mureta rosa com seu demorado chicabon.


10 de novembro de 2005

ALMA GÊMEA É O K...

MINI TRAGICOMÉDIA DE COSTUMES EM 5 ATOS

PRIMEIRO DIA

(Alberico está sentado na mesa do bar tomando um chope com a cara mais feliz do mundo quando chega o seu bom e velho amigo Coutinho).

Coutinho – Fala, meu ídolo!

Alberico – Grande Coutinho! Senta aí logo e toma um chope comigo pra comemorar...

Coutinho – É, nego! Tô vendo mesmo que cê tá com uma cara ótima. (Pede um chope). Anda. Desembucha, meu filho! Estamos comemorando o quê? Pode soltar a bomba...

Alberico – Coutinho, o negócio é o seguinte: conheci a mulher da minha vida! Tô querendo me casar.

Coutinho (exaltado) – Que brincadeira é essa, Alberico? Não brinca com assunto sério não!

Alberico – É sério, Coutinho. O pior é que é sério. Aliás, nunca falei tão sério na minha vida!

Coutinho – Você pirou, Alberico? Pirou de vez? Você é o nosso ídolo! O ídolo da turma toda exatamente porque nunca caiu nessa cilada de se apaixonar por mulher nenhuma. Vive por aí cada dia com uma mulher diferente, uma mais gostosa que a outra...

Alberico – Eu sei, Coutinho, eu sei. Mas agora isso vai acabar. Eu mesmo tô assustado, rapaz. Cada segundo que eu passo longe da Cacau eu tenho a impressão que tô perdendo meu tempo.

Coutinho – Isso passa, homem de deus! Isso passa! Eu já caí nessa, o Júlio já caiu nessa. Todo mundo já caiu, menos você Alberico! Você não! Você é a redenção da nossa turma toda! Todo mundo queria levar a vida que você leva, mas a gente não pode mais: já fizemos a burrada e agora não tem volta. A gente morre de inveja da vida que você leva e você vem me dizer que tá apaixonado? Tenha a santa paciência!

Alberico – Você não tá entendendo, Coutinho. Não tem como fugir, cara. Está escrito, é destino, sei lá. Só sei que a Cacau é a minha alma gêmea.

SEGUNDO DIA

(Um mês depois: Os dois estão sentados no mesmo bar, bebendo e conversando.)

Coutinho – Agora me esclarece uma coisa aqui, Alberico: Você ainda continua insistindo naquele papo besta de alma gêmea?

Alberico – Besta nada, Coutinho! Besta nada! Você precisa conhecer a Cacau pra entender o que eu tô falando. A gente vai se casar.

Coutinho (preocupado) – Alberico, pelo amor de deus escuta aqui o seu amigo! Não cai nessa não, mestre. É fria! Casamento é fria!

Alberico – A gente se ama, Coutinho! Entende uma coisa: a gente não agüenta ficar um segundo longe um do outro. Eu não escolhi isso. Simplesmente aconteceu, cara!

Coutinho (exaltado) – Como assim aconteceu, Bericão? Como assim?

Alberico (extasiado) – Ela é toda linda! É perfeita! Você tem que ver. Só anda de sandalinha baixa, pé no chão, e lava a cabeça com sabão de coco... De uma simplicidade que só vendo! E olha que tem só 18 aninhos...

Coutinho (indignado) – 18 anos? 18 anos? Você vai se casar com uma criança? Cê tá maluco, Alberico?

Alberico – Calma, Coutinho. Calma, rapaz. Deixa eu te contar, pô. Ela tem só 18, mas parece mais. Ela é uma mulher madura, cara. Não é igual essas menininhas que tem por aí não. Super culta, interessada. Ouve o Guinga, cara! Ela simplesmente a-do-ra o som do Guinga...

Coutinho – Som de quem?

Alberico – Guinga, porra. Um dos maiores gênios desse país, pô. Tá vendo, Coutinho? É esse tipo de ignorância que eu não agüento mais, e é por isso que a Cacau é diferente...

Coutinho – Porra, Bericão, não precisa ofender, cara.

Alberico – Foi mal, cara. Foi mal. É que eu fico empolgado quando falo da Cacau.

Coutinho – E você vai se casar com uma criança que não sabe nada da vida só por causa desse tal de Ginga?

Alberico (impaciente) – Guinga, Coutinho. Guinga.

TERCEIRO DIA

(Coutinho sentado na mesa do bar tomando um café. Alberico chega distraído, derrubando a xícara).

Coutinho – Que é isso, Alberico? Tá no mundo da lua?

Alberico – Na lua não, irmão, eu tô é no céu!

Coutinho – Tá no céu por que, filhão? Conta logo! Quer matar seu amigo de curiosidade?

Alberico (em êxtase) – É a Cacau. Nossa, nem te conto...

Coutinho (exaltado) – Como “nem te conto?” Conta sim, uai. Sou todo ouvidos!

Alberico – Tô acabando de chegar do motel. Passei a noite lá com a Cacau.

Coutinho – Mas e daí?

Alberico – E daí que eu tô completamente transtornado, Coutinho. Tô até com medo de mim, sentindo um aperto no peito igual eu nunca senti antes. Agora eu tenho certeza que ela é minha alma gêmea.

Coutinho – Ai, ai, ai... Lá vem você de novo com esse papinho... O que é que foi dessa vez?

Alberico – Alberico, você não imagina o que é a Cacau na cama. Eu tremo só de pensar! A mulher é um espetáculo!

Coutinho – Agora você tá falando a minha língua, rapaz! Anda! Conta tudo. Tudinho mesmo. Quero riqueza de detalhes!

Alberico – Então lá vai: pra começar, você não faz idéia do que é o corpo dessa menina! Um metro e setenta de altura, barriguinha sarada, com direito a piercing no umbigo.(Coutinho começa a uivar, animado).

Coutinho (salivando) – E a peitaria? Como que é a peitaria?

Alberico – O peito dela é a coisa mais gostosa desse mundo. Tamanho ótimo, quase grande demais, tipo os peitos da D. Natália. Lembra da Natália, mãe do Dirceuzinho?

Coutinho – Se lembro! Duas turbinas maravilhosas!

Alberico – E tem sempre uma marquinha de biquíni que é um negócio! E o melhor: empinadinhos, com os biquinhos rosadinhos sempre apontando pro ventilador de teto!

Coutinho – Agora essa sua paixão tá começando a fazer sentido. Agora sim! Esse é o Alberico que eu conheço!

QUARTO DIA

(Coutinho chega à mesa do bar e saúda Alberico).

Coutinho – E aí, meu ídolo! Continuas rasgando a menininha?

Alberico – Opa! Mais respeito aí, hein, Coutinho?

Coutinho – Calma. Tô brincando, sô. Mas fala aí... Abre o jogo...

Alberico – Pra te falar a verdade, eu já nem sei mais quem tá pegando quem...

Coutinho (curioso) – Como assim? Explica isso aí, uai!

Alberico – É que a Cacau tá cada dia melhor na cama, Coutinho, uma coisa inacreditável. Uma desenvoltura, um repertório de posições, cada uma mais acrobática que a outra!

Coutinho (batendo nas costas do amigo) – Você é mesmo um garimpeiro, hein, Bericão? Sempre encontra essas pedras preciosas por aí... Carne nova, gostosa e ninfomaníaca! É por isso que você é o nosso ídolo! Tu é um cara diferenciado, meu irmão! Que fase! Que fase!

Alberico (desanimado) – É, mas só que...

Coutinho – Só que o quê? Anda! Desembucha!

Alberico – Só que eu ando meio desconfiado, sabe Coutinho?

Coutinho – Por que, cara? Desconfiado de quê?

Alberico – Por exemplo: fico pensando onde é que a Cacau tá aprendendo essas posições novas, esse repertório sexual dela...

Coutinho – Ah não! Deixa de ser careta! Hoje em dia se aprende isso em tudo que é lugar. Na tv a cabo tem uns programas que só falam nisso. Sem falar nos livros, na internet, até na escola, viu? Até na escola!

Alberico – Outro dia, no motel, no meio do ato, ela me chamou de um nome estranho...

Coutinho – Que nome?

Alberico – Mandioca.

Coutinho – Mandioca?

Alberico (envergonhado) – É...Mandioca...

QUINTO DIA

(Coutinho chega animado à mesa do bar. Alberico pensativo).

Coutinho – Se não é o meu grande amigo Mandioca.

Alberico – Não pisa, Coutinho. Não pisa que eu tô sofrendo. Tô sofrendo horrores...

Coutinho – E desde quando meu ídolo sofre? Tá sofrendo por quê?

Alberico – A Cacau. Me deu um pé na bunda.

Coutinho – Tá falando sério? Que é que aconteceu, homem de deus?

Alberico – Por e-mail, dá pra acreditar? A minha alma gêmea, a única mulher que me tirou do sério a minha vida inteira terminou comigo pela internet. Mandou um e-mail falando que tinha conhecido outro cara e que tava indo embora pra morar com ele em Jericoacoara.

Coutinho – Ele quem? Quem é o cara, Bericão? Tu já sabe?

Alberico – Sei: o Mandioca.

Coutinho – Mandioca?

Alberico – É. Mandioca.

Coutinho – Mandioca???

Alberico – Mandioca.

Coutinho – E por quê o apelido do cara é Mandioca, meu irmão?

Alberico – Porra, Coutinho, que crueldade, cara. E precisa perguntar? Tá na cara, pô.

Coutinho – É. Se bem que é mesmo. Mandioca só pode ser uma coisa... Tá mais que óbvio.

Alberico – Pois é.

Coutinho – E você tá muito mal? Precisando de alguma coisa é só falar!

Alberico – Tô mal, cara, claro! Minha alma gêmea tá numa praia paradisíaca com um cara que chama Mandioca. Você queria o que?

Coutinho – Mudando de assunto, Bericão. Dá só uma olhada na mulata que acabou de entrar...

Alberico – Nossa senhora! Que ferramenta, hein, Coutinho? Que espetáculo! Peraí que eu vou lá nela. Em branco é que eu não posso deixar passar!

Coutinho – Uai, Bericão? Mas já? E aquele papo de alma gêmea pra lá, alma gêmea pra cá? A defunta ainda nem esfriou, pô...

Alberico – Ah, quer saber Coutinho? ALMA GÊMEA É O CARALHO!!!


4 de outubro de 2005

MATANDO OS PRÓPRIOS FILHOS

Contra a proibição das armas, podemos listar uma série de bons argumentos: o cerceamento de um direito de escolha, a vulnerabilidade do cidadão da Zona Rural (onde a polícia não chega), o estímulo ao tráfico e ao contrabando de armas (uma vez que a nossa polícia já se mostrou incapaz de fiscalizar nossas fronteiras), etc.
Entendo perfeitamente. A argumentação é excelente, mas continuo contra as armas. Minha visão, nesse caso, chega às raias da utopia, admito. Discordo da organização social desigual como um todo e, no meu ponto de vista, grande parte dos criminosos acaba por ser resultado dessa sociedade viciada e injusta. Então compramos armas para nos defender e matar muitas vezes aqueles que, assim como nós, são vítimas desse ciclo vicioso.
Pense numa pessoa que não teve base familiar, não teve oportunidade de se educar, não tem a menor noção do que seja uma postura ética diante da vida e acaba tragada pela tentação e o status do crime organizado. É um marginal. Marginal no sentido de que passa uma vida inteira à margem, excluído das oportunidades sociais, e é justamente nessa penumbra que o seu caráter é formado. É um filho da sociedade, parido e criado por ela. Alguém pode argumentar citando exemplos de várias pessoas que não tiveram chance e mesmo assim não se deixaram levar pelo caminho do crime, mas esses são os excepcionais. E uma sociedade, mais uma vez na minha opinião, não pode exigir de seu cidadão que ele seja um fora-de-série. Por isso o sistema é perverso: abandona nas condições mais desumanas um filho seu e depois julga melhor dar-lhe um tiro para resolver o problema que a sua própria omissão criou.
Daqui a uns mil anos, quando formos uma Suíça, serei totalmente a favor da liberação das armas. Prometo renascer no Brasil, tirar meu título de eleitor, votar a favor das armas no referendo do ano de 3005 e sair por aí com meu revólver futurístico ameaçando mandar bala na cara de quem ousar invadir uma propriedade minha!

"Um sistema que exige qualidades excepcionais dos seres humanos só excepcionalmente terá êxito."
Bertrand Russell

Ônibus 174
Quem viu este filme, sabe do que estou falando.

31 de maio de 2005

FOGO E VENTO

Compare o pensamento humano a uma fogueira. Enquanto houver fogo, é sinal de que a inteligência está funcionando, que o homem raciocina e é realmente consciente dos seus sonhos e seus atos. O problema se dá quando, por algum motivo, esse homem se descuida e deixa a chama se apagar. Nesse exato momento, ele deixa de ser gente e passa a ser, no máximo, um robô bem acabado.
O principal adversário de um homem nessa luta por manter acesa a chama da sua independência são os próprios homens. São os outros que, até sem perceber, de maneira sutil e automática, criam o vento que apaga o fogo. Podemos facilmente enumerar situações cotidianas flagrantes de apagamento da chama alheia.
Uma professora que dá uma bronca no aluno que não está prestando atenção à aula e o pune na frente dos colegas. Esse menino, que estava gastando seu tempo pensando bestamente na vida, aprende que deve sempre usar seu tempo objetivamente, estudando, trabalhando ou obedecendo e acaba, por isso, um dia deixando se apagar dentro dele a chama da subjetividade e da contemplação. Ou um pai que vive a dizer para o filho durante o jantar que muito se orgulharia caso o filho resolvesse seguir sua carreira de médico. Ele até diz que isso é apenas um sonho dele, e que o filho tem total liberdade para escolher outro caminho, mas será que tem? Há também o tradicionalíssimo caso daquela moça que vive a ouvir das amigas da mãe: -Vai casar ou vai ficar pra titia? E depois que segue o caminho estipulado pelos outros e se casa continua ainda escutando: -Quando é que vai dar um netinho pra sua mãe?
Esses são casos típicos de pessoas que, sem perceber, vivem ditando regras e determinando o destino da vida daqueles que os cercam. São os apagadores de chama. São o vento que apaga o fogo. Quem não estiver atento perderá sua capacidade de reflexão, perderá sua capacidade de decidir seu próprio futuro. Quem for obediente vai se dar mal.
Falei em obediência e explico: aquele que tem como único e absoluto objetivo agradar os outros conseguirá ser, no máximo, um medíocre como tantos outros por aí. Aquele que raciocina, pensa, acredita e realmente deseja realizar, com certeza terá que desobedecer e desagradar para alcançar seu objetivo. Vejamos: Galileu teve que contestar ensinamentos consagrados de Aristóteles e desagradar à Igreja para defender aquilo em que depositava sua confiança – a teoria que dizia que a Terra gira em torno do Sol, e não o contrário. Por causa disso, foi condenado e censurado pela Igreja. Albert Einstein precisou se contrapor à visão de Isaac Newton, pai da física e considerado um dos maiores cientistas de todos os tempos, e contrariar leis científicas seculares para defender sua Teoria da Relatividade. Mudando radicalmente de área, podemos citar Muhammad Ali, ou Cassius Clay, que num brilhante exemplo pacifista desobedeceu às ordens do seu país e se recusou a lutar na guerra do Vietnã. Ainda não se convenceu? Então vamos lá. Você conhece o Agenor de Miranda Araújo? Não? O Agenor desobedeceu a seu pai, que só queria o seu bem, e encheu de vergonha a sua mãe porque rejeitou um bem remunerado cargo executivo na empresa da família para viver de música. Essa “irresponsabilidade” foi fundamental para que ele se tornasse o Cazuza. E o Rubinho Barrichello? Exemplo mundial de obediência e subordinação, ele acatou ordens da Ferrari e reduziu a velocidade para permitir que Schumacher o ultrapassasse. Agora eu faço a pergunta: qual deles é o maior campeão de todos os tempos?
É necessário esclarecer, entretanto, que a desobediência pura e simples não levará ninguém a lugar algum. Os casos citados acima são todos eles exemplos de desobediências fundamentadas, intrinsecamente ligadas a objetivos definidos e consistentes. A desobediência gratuita e alienada dificilmente resultará em bons frutos.
Por outro lado, é necessário também salientar o importante papel que os obedientes realizam para a sociedade. Aquele rapaz de terno e gravata impecáveis, cabelo calculadamente penteado, orgulho da mamãe e da vovó, genro predileto de dez entre dez sogras, certamente tem muito trabalho a realizar. Será sempre dele a tarefa de levar sorrindo para casa pilhas e mais pilhas de trabalho no final de semana enquanto seu chefe se diverte na pescaria. Normalmente, referem-se a ele no escritório como “indispensável”. O sujeito “indispensável” nada mais é do que aquele cidadão que terá que trabalhar no feriado. E o mais surpreendente é que, obediente como ele só, ainda será capaz de se orgulhar disso. O obediente, no futebol, é aquele jogador que treina com disposição todo santo dia e fica dando carrinho no meio de campo a pedido do treinador enquanto um polêmico Romário se esbalda na noite, falta os treinamentos, mas resolve a parada lá na frente e enche o bolso de dinheiro.
Poderia enumerar aqui mais centenas de exemplos, mas espero já ter conseguido esclarecer suficientemente o meu ponto de vista. Mas muito cuidado! Não vá aceitando assim, tão depressa, a minha opinião! Reflita, conteste! Pense com a sua cabeça, porque nessa vida eu tenho dois medos fundamentais. O primeiro é que um dia eu me dê por vencido e permita que o vento dos outros apague a minha chama. O segundo medo, e com certeza o maior deles, é que eu deixe um dia de ser chama e passe a ser vento, e saia pelas ruas ventilando e apagando o fogo dos outros.

25 de maio de 2005

O VÔO DE JÚLIA

Júlia nasceu naquilo que a sociedade chamava de “berço de ouro”. Seu avô havia ficado milionário no ramo da especulação imobiliária, de forma que deixou como herança para seu filho único, o pai de Júlia, uma dessas fortunas incalculáveis. Levavam, por isso, uma vida que todo mundo sonha em ter, digna de rico de novela das oito.
O problema é que no fundo Júlia achava aquilo tudo, no mínimo, um pouco estranho. Como não precisasse trabalhar, acordava sempre tarde, por volta das dez da manhã e ia tomar o sortido desjejum com seu pai, um viúvo bonachão que resolvera curtir a vida à sua maneira. A essa altura, já estavam há horas trabalhando no faraônico apartamento o jardineiro (sim, havia um jardim no apartamento), a empregada doméstica, a faxineira e o motorista do pai. Mesmo sabendo que o patrão só acordava lá pelas nove da manhã, todos os funcionários chegavam pontualmente para o serviço às sete horas. Todos os dias, exceto os domingos.
Finalizado o café da manhã, o pai saía devidamente uniformizado e aparelhado para a inadiável partida de tênis matinal. Enquanto isso, Júlia se arrumava e ia para o escritório de onde administrava os negócios da família. Mas isso é mentira. A própria Júlia sempre soube que sua presença no escritório era totalmente desnecessária, dispensável. A verdade é que seu pai havia contratado profissionais do mais alto gabarito exatamente para que pudessem relaxar, viajar ou simplesmente ficar à toa enquanto se multiplicavam os já gordos dividendos da família.
Inútil no trabalho, Júlia se trancava em sua sala, abria seu jornal e lia com particular interesse notícias sobre conflitos no Oriente Médio, guerras civis espalhadas pelo continente africano, intervenções norte-americanas ao redor do globo, além dos tradicionais problemas de fome e miséria no Brasil. Vivia, por causa disso, sempre triste e desanimada. As amigas mais próximas não entendiam, e tentavam logo levantar o astral da moça:
-Ora, Julinha... Tenha a santa paciência! O que é que você tem a ver com o que está acontecendo na África? Você tem a faca e o queijo na mão e fica aí, se lamentando pelos cantos. Você leva a vida que eu pedi a Deus. Pode ficar à toa o dia inteiro, se quiser.
Júlia respondia: -Mas o problema é exatamente esse! Eu não preciso fazer nada!
Mas outra a interrompia e logo emendava: -Sem falar que essa semana vai ter a festa no Haras do Benitinho. Vai ser excelente! Começa na sexta à noite e termina só no domingo à tarde. Ouvi dizer que mandaram vir um sistema de som de São Paulo num caminhão por exigência do DJ que vai tocar. Ele é um dos mais badalados do mundo! Tem gente do Brasil inteiro disputando os convites no tapa!
Mas nada disso era capaz de animar Júlia. O fato é que ela estava deprimida. Seu namorado, Marcelo, era seu vizinho no prédio. Tinham uma história de vida bastante parecida. Ambos eram ricos desde sempre e achavam desconfortável aquela situação. A única diferença é que, enquanto Júlia vivia deprimida, Marcelo pegava a gorda mesada que recebia do pai e gastava em papelotes e mais papelotes de cocaína. Cheirava o dinheiro todo. Júlia até tentava falar alguma coisa com ele:
-Pára com isso, Marcelo! Pra quê isso?
E ele respondia: -Você é que devia experimentar pra ver o tanto que é bom. Quando eu tô cheirado, parece que a vida é uma maravilha!
-Mas depois o efeito passa e volta tudo ao normal mesmo, não é?
-É. É sim. Aí, quando passa o efeito, eu cheiro tudo de novo! A sensação que dá quando o pó começa a bater na tampa não dá pra descrever, Julinha. Você sente a onda vindo, de leve, e quando você vê já bateu. O bicho pega!
Um dia, aborrecida do namorado e com vontade de dar uma arejada, Júlia telefonou para o escritório avisando que não iria trabalhar, que estava precisando espairecer. Avisou o escritório só por hábito, por rotina, pois sabia que sua ausência nem seria sentida. Pegou o carro e foi dar uma passeada pela cidade, observando com olhos atentos tudo o que via. Seus olhos mais pareciam bocas famintas, devorando tudo que passava pela frente: o trânsito insuportavelmente parado, o menino malabarista no sinal fechado, as senhoras grã-finas de óculos escuros carregando sacolas e mais sacolas de compras, um mendigo que se divertia cheirando cola e urinando na calçada enquanto o outro dormia em cima de um pedaço de papelão...
Até que ela se cansou e voltou para casa. Parou o carro na garagem entrou no elevador e apertou o 13. Encontrou o pai almoçando:
-Oi, filhinha. Que surpresa boa! Senta aqui com o papai que o almoço está delicioso! Tem aquela massa que você adora!
A filha deu um beijo no rosto do pai e disse: -Espera um pouquinho que eu já venho, papai...
Entrou no quarto, trancou a porta, abriu a janela e pulou. Isso mesmo: subiu no parapeito e voou sem titubear. Talvez tenha sido, ao longo de toda a sua vida, a atitude mais consciente de Júlia. No salão de beleza, uma manicure comentava entre uma e outra cutícula:
-Que menina louca! Tinha tudo na vida: dinheiro, saúde, um pai que a amava e mesmo assim se matou.
E uma outra, enquanto tingia o cabelo, falou: -Era louca. Só pode ser muita loucura, coitadinha. Ou então era uma drogada...
O fato é que Júlia se matou. Matou-se e eu até hoje não sei muito bem o porquê. A maioria acha que foi por loucura. Eu, por outro lado, desconfio que tenha sido por excesso de lucidez. Tanta lucidez que tornou insuportável continuar a vida nesse mundo.

12 de maio de 2005

A MULHER INVISÍVEL

"Como aqueles primitivos
que carregam consigo
o maxilar inferior de seus mortos,
eu te carrego comigo
tarde de maio".
(Carlos Drummond de Andrade)

Houve um tempo em que éramos inseparáveis. Tão inseparáveis que chegava a irritar. Eu dormia na casa dela, ela na minha. Quando não estávamos juntos, conversávamos ao telefone. O tempo inteiro um grudado no outro. Nos conhecíamos um ao outro tão intimamente que nossas reações eram sempre previsíveis. Um sabia o que o outro pensava, e digo mais, sabia o que o outro ia pensar. Mas éramos novos. A mãe dela foi transferida no emprego para uma cidade distante e tiveram que se mudar. Não houve, na época, nada que eu pudesse fazer. Ela foi embora e eu fiquei...

No começo, havia a esperança de sempre mantermos contato e tentar dar prosseguimento àquele relacionamento que parecia indestrutível. Mas o tempo e a distância não deixaram. Aos poucos o comprometimento que havia foi diminuindo, os laços foram se desfazendo, nosso mundo em comum desaparecendo e os assuntos se tornando mera rotina. As vidas se tornaram distantes até um ponto em que não fazia mais nenhum sentido insistir. Acabou. Aquela pessoa com quem um dia eu dividi os meus minutos e as minhas idéias já não existia mais. E foi assim.
Hoje, mais de dez anos depois, aconteceu: estava sentado na sala assistindo a um jornal na televisão e uma notícia me fez pensar nela. De repente, cresceu em mim uma vontade violenta de conversar com ela sobre aquele assunto da notícia. Precisava saber a opinião dela. E o peito apertava. Queria ouvir de novo aquela voz, aquele jeito de falar. Que saudade! Como é estranho e difícil de entender que aquela pessoa que um dia fora tão imprescindível e constante na minha vida pudesse ter simplesmente desaparecido. O peito doía. É tão inexplicável e dolorosa essa ausência irreversível!

Tentei reconstruir na minha mente o seu rosto, mas não consegui. Para relembrar talvez fosse necessário o estímulo infalível de um cheiro, ou de um sabor... O tempo se encarregou de ir aos poucos apagando da memória. Como será que ela está agora? Será que continua linda? Será que está gorda? Será que a cidade a tornou cinza? Terá essa rotina desumana enfraquecido o seu brilho? Não sei. E nem tenho como saber. Resta-me divagar. Imagino que tenha se casado, que continue linda e que tenha uma filha. E na minha imaginação ela passeia com a filha no colo numa tarde de maio e os dias são sempre ensolarados. Sim: na minha imaginação não chove nunca e há uma brisa agradável soprando o cabelo dela. A filha se chama Ana Maria, é bochechuda e sempre chora de medo quando aparece algum “au-au”. E nesse mundo ideal não há espaço para a pressa da insanidade urbana e nem tampouco para a irritante busca da vitória. Só existe a calma. A calma , e as árvores, e o vento, e pés descalços.

Fico feliz por ela, mas me lembro que estou apenas sonhando. Tomara que ela esteja feliz como estava no meu sonho. Tomara que não tenha sofrido, que não tenha chorado, que não tenha morrido! Tomara que um dia, numa dessas tardes ensolaradas de maio, uma brisa sopre agradável em seu ouvido e ela pense, mesmo que apenas por um instante, em mim.

A FORÇA DA CORRENTEZA

Pense na seguinte imagem: pequenos bebês sendo deixados no leito de um rio. Assim é a nossa vida. Sem perceber, a estranha força da correnteza vai nos guiando e nos levando sem que a gente tenha muito domínio da situação. Ao nosso lado, milhares de outras pessoas vão se deixando levar pela tal correnteza, de modo a nos deixar ainda mais convencidos de que o caminho do leito do rio é o caminho certo. A multidão é tamanha que a gente mal consegue ver o que é que há além daquele rio...
Não que o caminho ditado pela correnteza não seja um caminho válido. O problema é que, se não ficarmos atentos, poderemos acabar achando que se trata de um caminho único, coisa que não é. Desde o momento em que nascemos até o dia de hoje, a maioria de nós tem se deixado levar pela correnteza. Ainda duvida? É fácil responder.
Por exemplo: imagine alguém que esteja concluindo algum curso superior e resolva largar tudo porque gosta mesmo é de ser músico. Será essa uma tarefa fácil? Não. Não porque esse caminho vai contra a correnteza e sabemos que é gigante a força do rio. As pessoas que estão perto dele logo tentarão dissuadi-lo da idéia “maluca”. Achou pouco? Imagine então alguém que se descobre homossexual. Será uma tarefa fácil para essa pessoa assumir para sua família e amigos que deseja relacionar-se com pessoas do mesmo sexo? E, uma vez homossexual resolvido e apaixonado, será que ele poderá demonstrar seu afeto beijando na boca seu parceiro em local público? Não. Provavelmente correria até o risco de ser preso por única e exclusivamente dar um beijo na boca da pessoa que ama.
Mais uma vez se manifesta o violento e camuflado poder da correnteza. Camuflado, porque do ponto de vista de quem está no meio do rio, não existe a tal corrente. Para se perceber esse movimento comum, seria necessário nadar até a margem, ou seja, deslocar-se, para aí sim perceber a multidão de cabecinhas que estão sendo arrastadas na enxurrada.
Falei sobre a margem e prossigo: quanto mais no meio do leito do rio, encoberto por milhares de outros corpos que simplesmente bóiam, mais difícil se torna vislumbrar os caminhos alternativos, seus afluentes. É necessária a proximidade da margem para que se possa realmente perceber a situação e enxergar todas as possibilidades. Sim, é necessário ser um “marginal”. Quem se afasta do leito do rio será automaticamente taxado de marginal, mas deve saber que, para conseguir alcançar seu novo objetivo essa será uma condição obrigatória.
Aquele músico, cujo exemplo citei acima, se quiser realmente viver de música terá que desagradar à família e magoar os pais. Mas essa desobediência é absolutamente indispensável. O mesmo se aplica ao homossexual. A sua felicidade dependerá sempre de algum sofrimento alheio. Para se realizar, ele terá provavelmente que ferir o orgulho dos pais e aviltar senhoras conservadoras em locais públicos. Seu único crime foi não seguir o caminho da multidão. Resolveu tomar as rédeas do seu próprio destino e traçar para si um rumo diferente, talvez um afluente deste mesmo rio...
O importante aqui não é evitar o rio e sim saber da sua existência. Uma vez identificada a força da correnteza, cabe a cada um escolher para si uma direção a seguir: pode ser o próprio rio, mas pode não ser. Eu, por exemplo, já escolhi. Quero, até o fim da minha vida, ter forças para nadar contra essa correnteza imperativa, pois lá na nascente encontrarei a água mais limpa. Quanto aos que seguirão até final do rio, imagino o que encontrarão por lá: o esgoto, a merda.


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