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Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil

10 de agosto de 2004

PAULINHO BONDADE

Paulinho Bondade nem é tão bom assim. Tem esse apelido desde os tempos de escola. Não porque fosse bondoso, mas devido à existência, no colégio, de um rapaz notoriamente bandido, que era conhecido na turma pelo singelo apelido de Paulinho Maldade. Apesar do apelido, Paulinho Bondade nunca foi o que se pode chamar de homem exemplar. Sempre foi autor de frases e cenas absurdas e inacreditáveis, que causavam grande espanto em todos, menos nele.
Aos dezessete anos, conheceu uma menina de dezesseis, Nilza, que mudaria de vez a sua vida. Nilza era bonita e gostosa, tinha pele clara e longuíssimos cabelos negros. Mas negra também era sua personalidade. Era dona de um gênio difícil, que misturava autoritarismo com doses cavalares de insegurança. Tratava Paulinho Bondade à base de gritos, unhadas e beliscões. Quanto melhor ele se comportava, mais ela achava que Bondade estava aprontando, e mais gritos e beliscões ele tinha que aguentar. Vivia, por isso, repleto de hematomas.
O problema é que, a partir daí, durante os quase dez anos que se sucederam, desenvolveu-se entre os dois uma relação doentia. Quanto mais Nilza infernizava a vida de Paulinho, mais dependente dela ele se sentia. Alguns defendiam a tese de que Bondade era, no fundo, um masoquista, que sentia um intenso prazer nos maus tratos da moça. Mas quem realmente o conhecia sabia que, a bem da verdade, o que realmente prendia Paulinho àquela louca era outra coisa: o sexo. Eis a verdade: como brigavam todo santo dia, havendo motivo ou não, faziam as pazes diariamente no ato sexual. Era justamente esse ato sexual diário, sempre encharcado de ódios, amores, violência e dor, que parecia indispensável para o Bondade. Ah! E havia ainda um agravante, o golpe fatal de Nilza: no sexo, ela se deixava subjugar por Paulinho. Aquele era, de fato, o momento de glória e redenção do rapaz. Muitas vezes, os amigos o chamavam num canto, na tentativa vã de afastá-lo daquela carrasca. Em coro, apelavam:
-Ô Bondade! Larga essa encrenca, moço! Isso não é vida, não.
E, nessa hora, Paulinho retrucava, eufórico:
-Vocês falam isso porque não fazem idéia do que eu sinto quando pego a Nilza de quatro, seguro no cabelo dela vendo aquela bundinha perfeita e o rosto olhando pra mim com uma carinha de safada que quer ser dominada. Ali, meu filho, é a minha hora! Eu posso sofrer o que for, mas nessa hora eu sou o cara! E é nisso que eu penso o tempo todo. É isso que me tira da cama todo dia de manhã!
Os amigos, perplexos, nem tinham mais o que dizer. Depois dessas declarações palpitantes do Paulinho, havia até quem saísse de lá invejando a situação do rapaz. Outro dia, houve quem balbuciasse:
-Pelo menos ele tem emoção na vida. Pior sou eu que fico enrolando até mais tarde no trabalho, esperando que a minha esposa durma antes de eu chegar, para não precisar comê-la.
E os outros ainda completaram:
-E a minha mulher? Era linda e gostosa e hoje é um bucho impraticável. Passa a vida pensando no que vai comer de sobremesa!
-E uma coisa nós não podemos negar: a Nilza pode ser o que for, mas é gostosa pacas!!
-Ah, isso é verdade. O Bondade que me perdoe, mas que rabo é aquele, hein?!

A verdade é que Nilza era, sim, sob o aspecto do talento sexual, uma mulher incomparável. Desde a sua primeira vez, com o próprio Paulinho, havia evoluído no domínio dos afazeres sexuais de uma maneira que chegava a espantar o namorado. Mas ele, claro, adorava isso e se submetia de forma incondicional aos caprichos inexplicáveis da moça, deixando-se humilhar e humilhando-se publicamente, na frente de quem fosse. A situação era de tal forma desconfortável que até o pai de Paulinho, seu Weber, homem discretíssimo, já não agüentava mais. Após tantos anos vendo o filho sofrer e se humilhar perante todos, não agüentou mais e fez a declaração bombástica: -Preferia ter um filho gay! Assim não dá. É sofrimento demais!
Do outro lado, Dona Isolda, mãe de Nilza e figura manjada nas colunas sociais da cidade, também condenava a relação do casal, esbravejando: “Minha filha, larga esse rapaz enquanto há tempo! Esse sujeito é descontrolado. Qualquer dia acontece uma tragédia daquelas! Ai, que vergonha...”. A aflição de Dona Isolda era tal que se recusava a abrir o portão da casa para Paulinho. Enquanto Nilza não tomasse uma atitude, ele ficava do lado de fora, fizesse chuva ou sol, fosse dia ou noite.
Apesar de todo esforço coletivo contrário ao relacionamento, o fato é que Paulinho e Nilza se aturavam e até se julgavam felizes. Até que...
Até que um dia, sem dar a menor satisfação, Nilza pôs um fim no relacionamento. Bondade, completamente atônito, não sabia o que fazer. Como já era de se esperar, se humilhou como jamais havia feito. Mandava flores, deixava recados, ajoelhava-se na porta do trabalho de Nilza com presentes caríssimos, gritava, esperneava: “Pelo amor de Deus, Nilzinha! Pelo amor de Deus!”. E nada. Nilza estava impassível perante o sofrimento do ex-namorado. Nos momentos da maior degradação de Paulinho, fazia cara de nojo e dizia: “Tenha dó, meu filho. Tenha dó”.
Ele ainda inconsolável ligava para os amigos numa última tentativa de aplacar seu sofrimento. Chorando como uma viúva, tomado por uma constipação monumental, soluçava ao telefone: “Como é que eu faço sem Nilzinha? Como é que eu vivo sem aquela bunda, sem aquele gênio maldito da minha Nilzinha? Me responde!” Os amigos ainda tentavam: “Calma, Bondade. Calminha aí. O que não falta nessa cidade é bunda boa e mulher chata! Aliás, é o que mais tem, viu?” De nada adiantava.
Eis que um dia toca o telefone de Paulinho. Era um amigo de longa data:
-Paulinho! Como vai? Tudo bom aí, filhão?
-Vou levando. Vou levando. – respondeu resignado.
-Vem cá. E aquele namoro antigo com a Nilzinha, como é que anda?
-Tá perguntando por quê, hein?
-Responde, meu filho. Responde.
-Terminou. Levei um baita pé na bunda! Estou que não me agüento mais! Agora me diz: que é que foi?
-É que...
-Desembucha logo, homem de Deus! Anda!
-É que ela está hospedada no mesmo hotel que eu, aqui em Ouro Preto.
-Ouro Preto? Sozinha ou acompanhada? – perguntou apavorado.
-Acompanhada.
-Puta que o pariu! Com quem? Anda, responde! Com quem?
-Com o...
-Fala logo, filho da puta! – gritou babando.
-Com o Taveira.
-Taveira? Que Taveira é esse, diabo?- a essa altura, Paulinho Bondade já estava no último estágio da taquicardia. Achava que nada podia ser pior do que aquilo. Mas podia...
-Taveira. Aquele professor de yoga dela, tá lembrado? –retrucou o amigo.
Paulinho não agüentou a pressão. Desligou o telefone na cara do amigo e deu início a uma crise nervosa. Ficava imaginando o Taveira, um sujeito alto, musculoso e elástico experimentando as mais acrobáticas e impensáveis posições sexuais com a sua pura e imaculada Nilzinha, saciando-a de uma forma que ele nunca fora capaz. Nas fantasias de Bondade, o Taveira, além das qualidades já citadas, possuía ainda um pênis colossal, que parecia partir ao meio sua pobre namoradinha em coitos mais engenhosos que os do Kama Sutra.
Pois bem. Paulinho então tomou a drástica decisão: “Essa humilhação eu não agüento! Tudo, menos isso!”. Como um vingador experiente esperou sem alarde o retorno dos dois e passou a vigiar a rotina do novo casal. Para amigos e familiares, transparecia uma felicidade efusiva e palpitante, deixando muito satisfeitos todos aqueles que dele gostavam. Arranjou até uma namoradinha nova e calmíssima, a Mônica, com quem passeava pra lá e pra cá irradiando um sorriso escancarado. Seu pai, seu Weber, já dizia numa alegria cega e delirante: “Agora sim! Sou um pai felicíssimo. Com a graça de Deus, Paulinho deu um jeito na vida. Livrou-se daquela megera e encontrou essa santa! A Mônica sim é uma mulher com ‘M’ maiúsculo!”.
Mas não era nada disso. Tudo teatro. Todas as noites, e repito: todas as noites Paulinho chorava em silêncio e babava no travesseiro até o dia raiar. De manhã, numa coriza medonha, tomava seu banho e saía para a rua. Mais um dia de teatro.
Comprou um revólver e uma fantasia de florista e foi bater na casa de Taveira, com a arma escondida no meio do buquê de margaridas. Taveira abriu a porta e ouviu-se logo o estampido. O tiro, certeiro, matou o professor de yoga antes que este pudesse dizer ao menos um “olá”. Nilza, que estava na cozinha, correu para a sala e viu a cena dramática: Paulinho com o revólver na mão e Taveira morto no chão com o queixo dilacerado. Os vizinhos, assustados, correram para o apartamento de Taveira, mas Bondade havia trancado a porta e bloqueado a passagem com a mesa de jantar. Do lado de fora, só o que se ouvia eram os inacreditáveis gritos de pavor de Nilza. De Paulinho, não se ouvia sequer um pio. Os vizinhos tentavam desesperadamente arrombar a porta quando mais dois tiros foram disparados. Tarde demais.
A polícia chegou e conseguiu arrombar a porta. Lá dentro, o que se via era uma cena lamentável: três corpos sem vida estendidos no chão, cada um com um buraco de bala. Em cima da mesa, Bondade deixara um bilhete destinado à Dona Isolda, mãe de Nilza, com os seguintes dizeres:

“Ninguém me humilha mais. Antes de matar, estuprei. Ass.: Paulinho.”


18 de julho de 2004

PC

PC, ao contrário do que possa parecer, não se chama "Paulo César". Seu nome é Duílio, mas ganhou esse apelido por trabalhar por muitos anos na venda de computadores. Entretanto, a grande paixão da vida de PC sempre foi a boemia. Adorava a combinação explosiva de noite, alcoolismo em larga escala e mulheres - todo o tipo de mulheres.
Naquela noite de sexta-feira, a programação já estava sendo combinada no boteco copo sujo em frente à sua loja de computadores, local onde PC e seus amigos sempre se encontravam para um repiáuer. Tomariam uma cerveja ali até umas oito horas e depois cada um iria para sua casa se aprontar para a boate da moda: "Elevador". A "Elevador" era uma boate que se situava no centro da cidade, no terraço de um arranha-céu. Era toda envidraçada e possibilitava uma belíssima vista aérea da cidade, que ia ficando mais bonita e mais poética à medida que os freqüentadores da distinta casa iam se embebedando.
Oito horas e o pessoal já se levantava da mesa quando PC se manifestou, já com a língua trôpega:
-Não vou tomar porcaria de banho nenhum! Podem ir se perfumar que eu vou ficar tomando mais umas por aqui e a gente se encontra direto lá na boate. Bando de frescos, isso sim!
O pessoal já o conhecia bem e sabia que não havia como discutir com PC após o terceiro "Submarino". Para quem não sabe, Submarino é um drinque que consiste de uma dose de Steinhaeger gelado misturada a um copo de cerveja. O resultado dessa mistura é uma bebida muito saborosa que leva o sujeito à inconsciência em minutos, sem dar a ele a chance de perceber ou reagir. E era a bebida preferida de PC.
Quando chegaram à disputada casa noturna, os amigos de PC se depararam com uma cena bizarra: no meio da pista da boate mais badalada do momento, PC se engalfinhava com o ser mais feio que já se teve notícia em toda a história ocidental. Ele beijava, amassava e rodopiava na pista de dança com um bucho unânime e repito: -Não há sequer um ser humano vivo que pudesse classificar como bela aquela pobre que se desmanchava em cenas dignas de carnaval proibido nos braços de PC. Após o susto, rapidamente se aproximaram do casal e ouviu-se a constatação hilária:
-Olhando assim, mais de perto, acho que é mulher!
E o outro amigo retrucou:
-Também acho! Pelo menos não está latindo.
Foi aí então que resolveram abordar PC para averiguar a situação do rapaz. Descabelado, olhos cerrados e vermelhos, camisa desabotoada e cheio de marcas do mais vagabundo batom vermelho, ele balbuciou:
-Já apresentei a vocês o meu docinho-de-leite? Como é seu nome mesmo, amorzinho?
E ela respondeu encantada:
-Vinícias, meu anjo.
Foi o suficiente para que os amigos o puxassem para um canto e dessem a bronca necessária:
-Você está louco, meu filho? Tem noção do que está fazendo? Queimando seu filme aqui no meio da "Elevador" com esse tribufu lamentável?
Mas PC já não conseguia mais se manifestar. Àquela altura, já era impossível para ele concatenar consoantes e vogais a fim de construir uma palavra que fosse. Seus amigos então lhe tomaram o copo de uísque e entregaram uma garrafa d’água. Porém, enquanto bebia a água, aproveitava para beijar com volúpia e ereção aquele bucho inexplicável, sob o olhar atento e estarrecido das mais lindas mulheres da cidade, que se dispunham numa roda em volta do inacreditável casal, como que assistindo a um espetáculo circense.
Foi nesse momento que a água que PC bebia começou a surtir algum efeito positivo, ajudando-o a recobrar os sentidos. Primeiro, começou a ouvir as batidas da música eletrônica que ecoava no local. Depois, começou a enxergar flashes da luz que piscava e parecia se mover, deixando-o nauseado. Até que, de repente, ele retomou parte da consciência e vislumbrou a seguinte cena: em sua frente Vinícias, aquele "e.t." horroroso, mexia no seu cabelo enquanto ele avistava todas aquelas luzes da cidade, bem distantes, lá embaixo. Não conseguia ainda entender muito bem as coisas mas, apavorado, fez a constatação cabível:
-Puta que o pariu! Fui abduzido!




15 de julho de 2004

O SOLTEIRO

Narro esta história na primeira pessoa do singular por um motivo muito simples: aconteceu comigo.

Se você é daqueles que já há algum tempo vive desfrutando da confortável companhia de sua cara metade, talvez tenha se esquecido do quanto é imprevisível o que pode acontecer a um homem solteiro numa madrugada. Existe também a possibilidade de você fazer parte do privilegiado e seleto grupo dos namoradores natos, cujas lembranças mais recentes da época de solteiro se resumem a algumas partidas de tapão no recreio da escola ou até mesmo aquelas deliciosas trocas de figurinhas. De qualquer modo, não interessa.
O que interessa é que era Sábado à noite e haveria uma festa sobre a qual o Cabeça havia dado as melhores referências, com assinatura em baixo de outro amigo: o Modelo (assim apelidado pelo fato de seu principal ganha pão serem os desfiles de moda). Em suas descrições da mesma festa em anos anteriores eles quase babavam ao descrever a farta presença de mulheres, bebida e comida – uma mistura sensacional, se não fosse diarreica.
Como é de costume em eventos deste porte, o nível alcoólico já superava em muito o recomendado no momento em que partimos para a festa eu, Cabeça, Modelo e Grisalho, que levava consigo, além da já habitual e costumeira cabeleira branca, mais uma garrafa do escocês.
A chegada à festa foi animadora, uma vez que, fato raro na vida de um solteiro nato, as grandes expectativas criadas não geraram a decepção quase tradicional. Mas eu me referi ao solteiro nato e preciso explicar. Não se trata de um ser humano qualquer, não. O solteiro nato se destaca dos demais por ser, acima de tudo, um desbravador. Um bandeirante motivado não por esmeraldas, mas pelas curvas de um belo rabicó feminino. Um Borba Gato apaixonado pela possibilidade de encontrar um tesouro ainda intocado (pelo menos por ele próprio).
Voltemos à festa. Algum tempo de amnésia alcoólica se sucedeu, mas quando voltei ao comando, grata surpresa: estava conversando com uma fêmea de boa peitaria e cabelos compridos, personagem de antigos carnavais. O abate era inevitável. Seu nome era Luana. Alguns amigos a apelidaram maldosamente de Luana B.O., em virtude de favores orais que ela habilmente me fornecera numa noite de reveillon no litoral baiano. Boquete de ouro.
Mas vamos deixar de lado a desonrosa descrição da pobre, para que possamos prosseguir. Segui com ela, não consigo me lembrar por quê, para um dos lugares mais movimentados da festa: uma boate a céu aberto para onde a maioria das pessoas havia se dirigido em busca de mais pessoas e música dançante. Foi exatamente nesse local repleto que, sem noção, iniciei com Luana um processo de exploração explícita e mútua de nossos corpos bêbados. Processo este que envolvia a desabotoadura de roupas e eventuais carícias públicas a partes pudendas. O enlace evoluiu de tal forma que resolvemos realizar ali mesmo, perante o olhar esbugalhado dos incautos espectadores, a inadiável conjunção carnal. Perdoe-me o paciente leitor, mas esta última frase é mentirosa. Não há nela uma única afirmação verdadeira, mas não pude resistir e acabei inventando esse desfecho inverídico, porém muito mais atraente. A verdade é que causamos sim um certo estupor, mas contivemos nosso élan antes que o fato se consumasse, quando ela disse que teria que ir embora.
A reação que se espera de alguém numa situação dessas é que esboce, no mínimo, um certo pesar pela partida da parceira, mas não tenho esta decência. Assim que fui informado por Luana da necessidade de sua partida, comecei a vislumbrar a possibilidade de ampliar meu campo de atuação, afinal de contas não faltavam naquela festa mulheres irretocáveis e apetecíveis. E além do mais, àquela altura eu já estava com a confiança natural de um ébrio que já não possui mais o olhar do lobo.
O conceito do olhar do lobo, para quem não sabe, é tão infalível quanto a lei da gravidade. Trata-se de uma verdade matemática e inquestionável: quando um homem deseja muito uma mulher, ele transmite esse desejo através do olhar de forma escancarada e involuntária, assim como um lobo a procura de comida. O problema reside justamente aí. Percebendo-se desejada, a presa, digo, a mulher, sente-se valorizada, e todos sabemos que o acréscimo da auto estima feminina gera aumentos exponenciais na possibilidade de rejeição.
E foi assim, com os olhos confiantes de um lobo saciado, que fui acompanhar Luana até a saída da festa. Durante esse percurso, fui surpreendido por um leve pontapé nas nádegas, que imaginei oriundo de pés amigos. Entretanto, quando me virei para fazer a reverência, deparei com um antigo e flácido desafeto, que me olhava fixamente, convocando-me, pasmem, para uma briga. Não entendi muito bem o que poderia estar motivando aquela adiposa criatura a querer partir para as vias de fato, até que Luana se manifestou, identificando-o como seu ex-namorado. Na certa ele havia passado pela cruel experiência de assistir sua casta e pura amada fazendo par romântico com um antigo desafeto seu num espetáculo libidinoso aberto ao público. Mesmo levando em conta a agudez da situação, não concordo que fosse motivo para realizar ali, no meio de um ambiente festivo, uma disputa corpórea. Mas não consegui dissuadi-lo da idéia, e o que se viu daí em diante foi uma exibição grotesca de golpes, baixos ou não, que só terminou quando meu oponente desfaleceu e pude, enfim, embebedar seu rosto em uísque, ateando fogo na face ensanguentada. Felizmente, ou infelizmente, a passagem em que descrevo a briga é, novamente, mentirosa. Mais uma vez não consegui conter meu ímpeto de dar à história um desfecho que considero ideal, mas não tenho outra intenção senão relatar os fatos da forma como eles realmente se sucederam. Peço desculpas e permissão para continuar a partir do momento em que relatei o último fato verídico.
Não concordo com a resolução física para esse tipo de problema, e também não sou tão valente assim. A verdade é que quando partiríamos para a contenda, Luana intercedeu segurando seu vergonhoso ex-namorado, situação da qual me aproveitei, retirando-me do alcance visual daquele agressor em potencial, em busca da segurança proporcionada pela minha roda de amigos. Aliás, amigos esses que ficaram furiosos ao me ouvir relatar o fato e passaram então o resto da noite, em vão, à procura daquele selvagem que quisera agredir o mais pacato dos cidadãos.
Findado este pequeno melodrama, pude retomar meu plano inicial. Já estava livre daquela putinha, e agora poderia voltar minhas atenções às beldades presentes. Mas, infelizmente, já era tarde demais: o episódio da briga havia tomado, sem que eu percebesse, o tempo que me sobrava de festa, e as tão desejadas beldades haviam partido, deixando a mim e a meus amigos a triste opção da partida.
Eu poderia terminar aqui, mas outras coisas aconteceram e peço que me acompanhem até o final – afinal, não falta muito.
Quando chegamos, Modelo e eu, ao local onde havíamos estacionado, tivemos a triste constatação: nossos “amigos” Cabeça e Grisalho haviam partido, restando-nos apenas a esperança de uma carona salvadora, uma vez que já não havia mais táxis àquela hora. Foi o que aconteceu. Fazíamos o tradicional gesto da carona com o dedão quando um carro estacionou. Era um carro pequeníssimo, quase lotado com três passageiros: um casal ia na frente enquanto uma gordinha se esparramava no banco de trás. Acabou a moleza – ajeitamos a gorda e nos esprememos lá atrás. A partir daí, iniciou-se mais um drama. Modelo dormia e eu tinha o corpo pressionado por dois corpos volumosos, somados ao efeito explosivo da mistura já citada de comida e bebida em excesso. Além disso, a embriaguez me reduzira drasticamente o controle do esfíncter, justamente no momento em que me atacava uma crise de gases. Mas eu tive sorte. Se bem que nem tanta sorte assim. Eu explico: tive sorte porque, no momento da inevitável flatulência, soltei gases inaudíveis. O problema é que, justamente por serem inaudíveis, não eram inodoros. O mau cheiro infestou em poucos segundos aquele pequeno carro, de vidros embaçados, e veio acompanhado de um terrível mal estar que levou os dois do banco da frente a abrirem rapidamente as janelas, fazendo com que uma rajada de vento congelante e desconfortável do alvorecer invadisse o interior do veículo, cumprindo uma missão desinfetante. Consegui contornar a incômoda situação acusando meu amigo que dormia, eximindo-me de qualquer culpa. Mas o bem estar durou pouco, uma vez que emendei outra bomba na sequência – gota d’água para o dono do veículo. Atordoado pelo efeito dos gases e indignado com a falta de respeito ele parou o carro e mandou que descêssemos. O motorista estava certo. Em seu lugar eu provavelmente teria feito o mesmo, por isso descemos sem argumentar. Naquela hora da manhã, voltávamos a pé para casa sob golpes de um vento antártico, quando o Modelo fez a pergunta impensável:
-E amanhã? Qual vai ser a programação?




5 de julho de 2004

TRAIÇÃO

Vou contar uma coisa sobre o comportamento masculino que, para muitos, talvez não seja novidade. Mas é algo que precisa ser dito. Existem apenas dois tipos de homem: os que traem e os que querem trair. Deve haver, eu imagino, alguns que são fiéis, mas estou aqui para falar apenas dos normais.
Para mim, esta é uma constatação de um dado obvio, evidente. Se quiser saber se um homem é do tipo que pega outras mulheres ou do tipo que quer pegar, basta prestar atenção no modo como tratam suas esposas. Aqueles que traem as esposas tratam-nas melhor.
O problema é que para este mesmo homem, nascido e criado para trair, foi armada uma arapuca, um script da vida que não condiz com a premissa inicial da infidelidade. Todo mundo sabe que o caminho dito “normal” é o sujeito se casar, ter filhos, criar os filhos, ter netos, blá, blá, bla´... Entretanto, a mesma sociedade que desenhou este caminho não aceita a infidelidade, e é aí que começa toda a podridão.
O que acontece é o seguinte: se sabemos que o rapaz ou trai ou quer trair, como então conciliar este dado com a vida de casado? Vejo, num primeiro momento, duas respostas a esta pergunta. Uma das soluções mais imediatas é o sexo comprado. Facilita demais a vida do marido, uma vez que este não se sente realmente um infiel, na medida em que está pagando por um serviço que o desobriga a ter qualquer tipo de envolvimento com a prestadora. Isso, para o marido, é uma beleza. Ele sabe que, para a mulher, sentimento é uma coisa muito importante num relacionamento. Se não há sentimento, a traição é menos grave. A prostituta se torna, assim, uma espécie de carregadora de piano. Ela é paga para tirar das costas dos maridos o peso da mochila da traição. Outra opção, talvez mais antiga que a mais antiga das vocações, é a chamada vista grossa. A mulher sabe que está sendo traída, sempre. O que ela faz? Algumas, as mais autênticas, realmente brigam e terminam o casamento. Outras, porém, mesmo sabendo da traição, tentam manter as aparências. São as piores. Às vezes, traem o marido numa forma de vingança que pode acabar se transformando num autoflagelo. A mulher acaba se degradando, se mutilando, se torna capaz de atos incoerentes com seu pensamento. O ser humano sempre procura o caminho da autodestruição. É da sua natureza.
O leitor deve ter percebido que escrevi o texto deixando clara a participação do homem de forma diferente à da mulher. Entretanto, hoje sabemos que este tratamento diferenciado não precisa mais ser dado. As mulheres, em questões dessa natureza, estão cada vez mais parecidas com os homens, com o agravante de que são melhores em dissimular. Pode-se trocar a palavra “marido” por “esposa”, “homem” por “mulher”, e o que quero dizer ainda assim fará sentido. Mas o que quero realmente dizer?
É o seguinte: se sabemos, e como sabemos, de tantos casos em que houve a traição, por que não aprendemos a relevá-la? Por que não a tratamos como fato corriqueiro cotidiano? Só para começar, poderíamos parar de denominar “traição” as relações extraconjugais. O conceito de “traição” está diretamente ligado à idéia de deslealdade. Pois vejam: se não houver mentira, não haverá a deslealdade – não é traição.
O motivo que me induz a levantar essa questão já foi citado acima, mas vale a pena insistir: se há tanta gente traindo seus parceiros, por que então não transformar a relação extraconjugal em algo difundido e aceito pela maioria? Por que não facilitamos as coisas? Será que é necessária a sensação de perigo? Será que precisamos sentir o prazer de transgredir as regras do jogo?
A outra opção seria aprendermos a não querer trair, mas isso, a esta altura do campeonato, eu acho difícil. O que há, na doentia mente humana, que nos faz trair mas abomina a idéia de sermos traídos?



3 de junho de 2004

MINHAS MELHORES RISADAS

Interrompemos o andamento normal do blog para a publicação desta missiva que nada tem a ver com o "Gente que existe".

Eu queria que você me conhecesse de um jeito que você não conhece direito. Queria ficar do seu lado um tempo que eu nunca fiquei. Queria fazer as coisas que você faz, te acompanhar. Pegar algumas características minhas que te fazem bem e, a elas, somar outras novas. Pegar minhas características que te fazem mal e esconder, bem escondidinho, num lugar que você nunca ia achar. Queria te olhar do jeito que eu sempre te olhei, só que por mais tempo, até poder te desenhar de olhos fechados, com todos os detalhes.
Pode ser loucura minha, mas comecei a imaginar como seria o futuro do seu lado. Como seria a casa, qual seria o carro, qual seria o bairro e outras bobagens assim. Pensei também em como seria o futuro sem você. Não consegui imaginar direito, só lembro que era em preto e branco.
Pensei em como, mesmo após tanto tempo, tem tanta coisa que a gente ainda não fez juntos. Mas consegui ver nisso uma coisa boa, um lado positivo, que é te conhecer melhor ainda fazendo tudo isso agora. Fazer e refazer e refazer e refazer...
Você é a pessoa que me fez viver as emoções mais intensas. Minhas melhores risadas e meus piores choros foram com você, ou por você. Só isso, pra mim, já significa tudo. Não quero levar uma vida mais ou menos e sei que, com você, não existe mais ou menos.

17 de maio de 2004

ANANIAS

Ananias era viúvo. Morava sozinho e trabalhava numa repartição da prefeitura. Já era senhor de idade, há muito tempo no serviço público e, por isso, totalmente contagiado pela preguiça e ineficiência de seus colegas de trabalho.
Poderiam dizer que a inoperância da repartição se devia à avançada idade dos funcionários, mas não procede. Quem realmente conhecia os rapazes sabia da grande eficiência e disposição daqueles gentis senhores quando o assunto era a inadiável e semestral “pescaria”. Sim! Fosse verão ou inverno, fizesse frio ou calor, ou até mesmo se viesse a falecer, numa infelicidade, um ente querido de algum deles, e haveria ainda uma certeza: nada impedirá a pescaria!
De seis em seis meses se organizavam, sob a batuta de Ananias, com pontualidade e eficácia jamais vistas em toda a história do serviço público, e partiam para a tão sonhada viagem ao Pantanal.
É bem verdade que a tal viagem oferecia, além da citada pescaria, outras formas de diversão. Uma delas, entretanto, causava particular furor no grupo: a chamada Torre de Babel.
A Torre de Babel era uma bem estruturada boate, situada no meio do Pantanal. Só se podia chegar até lá de barco, e era isso que faziam. Liderados por Ananias, alugavam uma chalana que os levava direto à “Torre”, onde poderiam contratar belíssimas acompanhantes nativas, que lhes propiciavam toda a sorte de favores sexuais, mediante singela bonificação.
Ah! Como eles se divertiam na Torre! Era como se voltassem no tempo, revivendo os anos permissivos, sem algemas, da juventude.
Certa vez, num desses fantásticos passeios à Torre de Babel, Ananias tivera uma idéia genial. No momento em que o barco partia da boate, agora sim, rumo à pescaria de fato, ele voltou ao garboso prostíbulo e contratou, para que seguisse viagem com ele, a mais bela de todas as nativas: Capitu! Como era bela! Com esse nome literário e feitio de índia virginal, passeava de biquíni vermelho e salto agulha no coração daqueles coroas.
Com Capitu e Ananias devidamente embarcados, este foi ao encontro de seus colegas. Exibia-a como um troféu, causando em todos grande alvoroço e palpitação. Dizem que havia até aqueles que salivavam intensamente diante da beleza da moça, e pulverizavam espessos perdigotos à medida que tentavam balbuciar algum elogio.
Eis o plano: tendo contratado Capitu por 500 reais pelos cinco dias de pescaria, Ananias a sublocaria aos companheiros por 200 reais cada, recuperando todo o dinheiro investido e ainda lucrando algum. Isso sem mencionar que continuava sendo ele o “proprietário” da beldade, podendo usufruir como e quando quisesse dos talentos da fogosa índia. Era isso. Ananias acabava de inventar o que ele mesmo chamou de “pescaria dos sonhos”.
Na busca maquiavélica do lucro, Ananias usava de métodos desleais. Distribuía amendoins e, em alguns casos extremos, dava aos amigos até comprimidos antiimpotência. Como se não bastasse, ainda fazia a moça ficar seminua pelo convés. Para aqueles que não se rendiam nem à tropical nudez da índia, Ananias tinha um último e infalível artifício: chamava a todos para assistir à impressionante habilidade da nativa, que o brindava com um irresistível trabalho oral.
Ganhou tanto dinheiro na viagem que chegou à inevitável conclusão:
-Vou levar essa pequena comigo pra casa. Ela é a minha galinha dos ovos de ouro!
Dito e feito. Uma semana depois Ananias chegava em casa com Capitu. Prometera a ela um belo ordenado mensal e tornou-se, por assim dizer, seu cafetão.
O problema era que, cada vez mais extasiado com a competência da moça, tornou-se seu maior cliente. Passava horas com ela no quarto, realizando atividades físicas intermináveis e malabarismos incompatíveis com sua já avançada idade.
Na repartição, os colegas já comentavam:
-É, rapaz! O Ananias não veio trabalhar de novo!
-Deve estar em casa traçando aquele bibiu.
-Qualquer dia desses ele tem um troço...
Não deu outra. Após longo sumiço da repartição, os colegas foram, preocupados, verificar o que havia acontecido. Em seu apartamento, a cena era desoladora: Capitu chorava copiosamente e Ananias estava morto, com a mão na maçaneta da porta e um leve sorriso nos lábios.


14 de maio de 2004

PADEDÊ II - A SAUNA

Padedê ia sair mais cedo do trabalho aquele dia. Disse aos amigos que estava muito tenso e que ia dar uma relaxada numa sauna, no centro da cidade. Foi aí que o pessoal da repartição fez, em coro, o alerta evidente:
-Mas Padedê! Você tá ficando louco, meu filho? Essas saunas do centro são antros da pederastia! Só dá viado!
-Que nada! Fica tranquilo que eu me viro. Até parece que vocês não me conhecem. Credo...
Pegou seu chevette marrom três volumes apressadamente e partiu rumo à tão sonhada sauna no centro.
Lá chegando, foi atendido por um rapaz que mostrou a ele o vestiário. Foi logo se estabelecendo por ali. Tirou a roupa toda, menos os óculos ray-ban empenados, e foi para a sauna. Isso mesmo: foi para a sauna nu e de óculos escuros.
Sentou-se no degrau mais alto da sauna e recostou a cabeça na parede azulejada, como se tirasse um cochilo. Até então, Padedê era o único freguês.
Eis que entra pela sauna mais um cliente, também nu. Apesar da abundância de lugares disponíveis, escolheu sentar-se bem próximo de Padedê. Fitou, por alguns segundos, aquela figura bizarra que parecia estar dormindo na sauna, pelado e de óculos escuros. Terminada a averiguação, o franzino moço tentou puxar, com voz bastante sutil, uma conversa:
-Oi! Tudo bem?
Padedê não respondeu.
O rapaz então tentou novamente: -Você vem sempre aqui?
Não adiantava. Padedê parecia hibernar por detrás daqueles óculos ridículos e tortos.
Mas o rapaz não desistia, não. E tentou mais uma vez: -Está quente aqui, né? Entrei há pouco e meu corpo já está todo suado!
Nada causava uma reação em Padedê, até que o rapaz arriscou numa última e corajosa tentativa:
-Posso dar uma chupadinha?
Padedê então, sem se mover ou mudar o semblante, respondeu:
-Pode.

13 de maio de 2004

PADEDÊ (PAS-DE-DEUX)

Padedê era magro, muito magro, e usava uns óculos estilo ray-ban que transbordavam sua face fina. Ninguém que se tenha notícia sabe, até hoje, a origem de seu apelido. Mas vamos ao que interessa: num dia de semana qualquer, à tarde, ele passeava com seu chevette três volumes marrom pelo centro da cidade. O sinal estava fechado e o sol escaldante já incomodava sua calvície. Nesse momento, Padedê se impressiona com uma morena alta e monumental que, do outro lado da rua, parecia flertar com ele de forma quase agressiva. Não acreditou. Endireitou o ray-ban e olhou para trás, procurando outro cidadão que pudesse ser alvo daqueles olhares hipnóticos e sexuais. Não havia ninguém. O alvo era ele mesmo.
Não titubeou. Seria impensável dispensar uma beldade daquelas. Sem pensar duas vezes, estacionou ao lado do monumento e lançou a pergunta criativa:

-Tá indo pra onde, broto?
-Pra Pampulha - respondeu.
-Que coincidência boa! Estou indo pra lá também. Quer uma carona?
-Aceito. Claro! Salvou a minha vida! - suspirou animada.

A caminho da Pampulha, os dois conversavam sobre o inacreditável e desagradável calor quando Padedê, lascivo, fez o convite irrecusável:

-Vamos dar uma refrescada, filé? Podíamos tomar um banho de banheira juntos. Aqui mesmo, na Pampulha, tem um motel de excelente nível...
-Será? Mal nos conhecemos!
-Por isso mesmo. Estou louco pra te conhecer todinha!
-Ah! Então vamos.

Padedê nem acreditou. Estava indo para o motel com uma morena escultural, malhada e que, como se não bastasse, ainda era maior que ele.
Chegando à requintada espelunca, ele mal esperou que o carro parasse para se atracar com aquela que era, até então, a melhor mulher de sua vida. Ela aderiu ao fogo apaixonado de Padedê e foram, alucinados, para a tão esperada banheira. Ele foi logo tirando toda a roupa, inclusive o ray-ban empenado, enquanto ela, só de biquíni (sim, ela estava de biquíni), entrava na espumosa banheira de hidromassagem. Padedê se jogou sobre a moça e foi tirando, com a boca, as duas peças de seu biquíni. Primeiro a parte de cima, revelando belíssimo silicone (este foi o primeiro contato de Padedê com a cirurgia plástica). Animado, partiu para a parte de baixo. Com uma mordida certeira, arrancou o laço lateral que segurava a delicadíssima tanguinha. Qual não foi sua surpresa quando viu, entre as pernas da moça, um imenso órgão genital masculino, inclusive maior que o dele próprio. A triste visão pôde ser confirmada quando Padedê, agora mais atento às peculiaridades de sua parceira, percebeu o protuberante gogó da moça. Ah! Que pesadelo horroroso era aquele gogó! Ele sabia que moças não têm pomo-de-adão...
Assustado, saiu correndo da banheira, pingando todo o quarto. Pensou, pensou e, olhando mais uma vez para aquele corpo ainda monumental ensaboado na banheira, decidiu:
-Ah! Quer saber? Já estou aqui mesmo...


12 de maio de 2004

LUZ QUE NÃO TEM DONO

Não se mostra de uma vez.
Aos pedaços, insinua.
Vai crescendo até que um dia...

Até que um dia, nua,
aparece tão inteira
e imensa flutua.

Brilha forte,
ilumina,
mas jamais será só sua.

O seu brilho, tão intenso
que impressiona em um segundo
é a luz que não tem dono
tem que ser de todo mundo.

Aqui resta a escuridão,
lá bem longe o clarão prova.
Minha Lua foi embora,
tudo escuro: Lua Nova.


NILMA GARÔFALO

Nilma Garôfalo já é uma senhora de idade avançada. Ganha a vida trabalhando numa repartição pública. Outro dia, eu pedi a ela uma carona, que foi prontamente atendida.
O carro popular de Nilma tinha os bancos todos plastificados e mal-cheirosos, o que me fez pronunciar a pergunta inadiável:
-Nilminha, porque os bancos do seu carro são assim, plastificados?
-Sabe o que é, meu filho? É que moro muito longe da repartição. Hoje em dia, com esse trânsito infernal, às vezes gasto horas para chegar em casa.
-Entendi. Mas o que o plástico nos bancos tem a ver com isso?
-É que... É que eu não sou muito boa para segurar o xixi. Aí, quando estou com vontade e agarrada no trânsito, faço por aqui mesmo, no banco do carro. O plástico é bom porque quando eu chego em casa, basta passar uma aguinha, um paninho e pronto!

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