Na verdade seu nome é Frederico, mas ganhou o apelido devido à peculiar insistência etílica. Era praticamente um maratonista do álcool. Não era magro, nem gordo, mas sua espantosa resistência aos efeitos da birita o fazia derrubar os mais célebres cachaceiros da região.
Certa vez, indo embora completamente alcoolizado de um casamento, Beberico pegou irresponsavelmente seu carro e foi dirigindo pra casa. Ao acordar no dia seguinte pela manhã, percebeu que havia sangue por todo seu quarto, no travesseiro, no chão e no paletó. Sentia inclusive na boca o gosto daquele sangue. Desesperado, achou que estava morrendo. Dirigiu-se apressado até o banheiro onde pôde constatar que também o seu rosto estava encharcado, assim como suas mãos. Entrou no banho a fim de se limpar para pelo menos poder identificar a lesão que ocasionava todo aquele sangramento. Ao sair do banho, limpo mas ainda tonto, constatou que não havia nenhum corte ou hematoma, e que inclusive ele não estava sangrando: provavelmente era sangue alheio.
Preocupado e afoito, ligou para todos os amigos perguntando o que tinha acontecido, e obteve de todos a mesma e uníssona resposta: -Simples, Beberico. Você disse que ia embora da festa, aí pegou seu carro e foi embora mesmo! Nós continuamos lá e nem tivemos mais notícia sua. Beberico não acreditava naquilo que acabara de ouvir. Ninguém sabia que sangue era aquele em seu quarto. Podia ser de um cachorro atropelado, mas o seu carro estava intacto, novo em folha. Podia ser de outro ser humano, uma briga, quem sabe? Mas Beberico não tinha sequer um dano físico, um olho roxo que fosse, nada! E assim, a verdade é que até hoje Beberico não sabe que diabo de sangue era aquele.
