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Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil

10 de novembro de 2005

ALMA GÊMEA É O K...

MINI TRAGICOMÉDIA DE COSTUMES EM 5 ATOS

PRIMEIRO DIA

(Alberico está sentado na mesa do bar tomando um chope com a cara mais feliz do mundo quando chega o seu bom e velho amigo Coutinho).

Coutinho – Fala, meu ídolo!

Alberico – Grande Coutinho! Senta aí logo e toma um chope comigo pra comemorar...

Coutinho – É, nego! Tô vendo mesmo que cê tá com uma cara ótima. (Pede um chope). Anda. Desembucha, meu filho! Estamos comemorando o quê? Pode soltar a bomba...

Alberico – Coutinho, o negócio é o seguinte: conheci a mulher da minha vida! Tô querendo me casar.

Coutinho (exaltado) – Que brincadeira é essa, Alberico? Não brinca com assunto sério não!

Alberico – É sério, Coutinho. O pior é que é sério. Aliás, nunca falei tão sério na minha vida!

Coutinho – Você pirou, Alberico? Pirou de vez? Você é o nosso ídolo! O ídolo da turma toda exatamente porque nunca caiu nessa cilada de se apaixonar por mulher nenhuma. Vive por aí cada dia com uma mulher diferente, uma mais gostosa que a outra...

Alberico – Eu sei, Coutinho, eu sei. Mas agora isso vai acabar. Eu mesmo tô assustado, rapaz. Cada segundo que eu passo longe da Cacau eu tenho a impressão que tô perdendo meu tempo.

Coutinho – Isso passa, homem de deus! Isso passa! Eu já caí nessa, o Júlio já caiu nessa. Todo mundo já caiu, menos você Alberico! Você não! Você é a redenção da nossa turma toda! Todo mundo queria levar a vida que você leva, mas a gente não pode mais: já fizemos a burrada e agora não tem volta. A gente morre de inveja da vida que você leva e você vem me dizer que tá apaixonado? Tenha a santa paciência!

Alberico – Você não tá entendendo, Coutinho. Não tem como fugir, cara. Está escrito, é destino, sei lá. Só sei que a Cacau é a minha alma gêmea.

SEGUNDO DIA

(Um mês depois: Os dois estão sentados no mesmo bar, bebendo e conversando.)

Coutinho – Agora me esclarece uma coisa aqui, Alberico: Você ainda continua insistindo naquele papo besta de alma gêmea?

Alberico – Besta nada, Coutinho! Besta nada! Você precisa conhecer a Cacau pra entender o que eu tô falando. A gente vai se casar.

Coutinho (preocupado) – Alberico, pelo amor de deus escuta aqui o seu amigo! Não cai nessa não, mestre. É fria! Casamento é fria!

Alberico – A gente se ama, Coutinho! Entende uma coisa: a gente não agüenta ficar um segundo longe um do outro. Eu não escolhi isso. Simplesmente aconteceu, cara!

Coutinho (exaltado) – Como assim aconteceu, Bericão? Como assim?

Alberico (extasiado) – Ela é toda linda! É perfeita! Você tem que ver. Só anda de sandalinha baixa, pé no chão, e lava a cabeça com sabão de coco... De uma simplicidade que só vendo! E olha que tem só 18 aninhos...

Coutinho (indignado) – 18 anos? 18 anos? Você vai se casar com uma criança? Cê tá maluco, Alberico?

Alberico – Calma, Coutinho. Calma, rapaz. Deixa eu te contar, pô. Ela tem só 18, mas parece mais. Ela é uma mulher madura, cara. Não é igual essas menininhas que tem por aí não. Super culta, interessada. Ouve o Guinga, cara! Ela simplesmente a-do-ra o som do Guinga...

Coutinho – Som de quem?

Alberico – Guinga, porra. Um dos maiores gênios desse país, pô. Tá vendo, Coutinho? É esse tipo de ignorância que eu não agüento mais, e é por isso que a Cacau é diferente...

Coutinho – Porra, Bericão, não precisa ofender, cara.

Alberico – Foi mal, cara. Foi mal. É que eu fico empolgado quando falo da Cacau.

Coutinho – E você vai se casar com uma criança que não sabe nada da vida só por causa desse tal de Ginga?

Alberico (impaciente) – Guinga, Coutinho. Guinga.

TERCEIRO DIA

(Coutinho sentado na mesa do bar tomando um café. Alberico chega distraído, derrubando a xícara).

Coutinho – Que é isso, Alberico? Tá no mundo da lua?

Alberico – Na lua não, irmão, eu tô é no céu!

Coutinho Tá no céu por que, filhão? Conta logo! Quer matar seu amigo de curiosidade?

Alberico (em êxtase) – É a Cacau. Nossa, nem te conto...

Coutinho (exaltado) – Como “nem te conto?” Conta sim, uai. Sou todo ouvidos!

Alberico Tô acabando de chegar do motel. Passei a noite lá com a Cacau.

Coutinho – Mas e daí?

Alberico – E daí que eu tô completamente transtornado, Coutinho. Tô até com medo de mim, sentindo um aperto no peito igual eu nunca senti antes. Agora eu tenho certeza que ela é minha alma gêmea.

Coutinho – Ai, ai, ai... Lá vem você de novo com esse papinho... O que é que foi dessa vez?

Alberico – Alberico, você não imagina o que é a Cacau na cama. Eu tremo só de pensar! A mulher é um espetáculo!

Coutinho – Agora você tá falando a minha língua, rapaz! Anda! Conta tudo. Tudinho mesmo. Quero riqueza de detalhes!

Alberico – Então lá vai: pra começar, você não faz idéia do que é o corpo dessa menina! Um metro e setenta de altura, barriguinha sarada, com direito a piercing no umbigo.(Coutinho começa a uivar, animado).

Coutinho (salivando) – E a peitaria? Como que é a peitaria?

Alberico – O peito dela é a coisa mais gostosa desse mundo. Tamanho ótimo, quase grande demais, tipo os peitos da D. Natália. Lembra da Natália, mãe do Dirceuzinho?

Coutinho – Se lembro! Duas turbinas maravilhosas!

Alberico – E tem sempre uma marquinha de biquíni que é um negócio! E o melhor: empinadinhos, com os biquinhos rosadinhos sempre apontando pro ventilador de teto!

Coutinho – Agora essa sua paixão tá começando a fazer sentido. Agora sim! Esse é o Alberico que eu conheço!

QUARTO DIA

(Coutinho chega à mesa do bar e saúda Alberico).

Coutinho – E aí, meu ídolo! Continuas rasgando a menininha?

Alberico – Opa! Mais respeito aí, hein, Coutinho?

Coutinho – Calma. Tô brincando, sô. Mas fala aí... Abre o jogo...

Alberico – Pra te falar a verdade, eu já nem sei mais quem tá pegando quem...

Coutinho (curioso) – Como assim? Explica isso aí, uai!

Alberico – É que a Cacau tá cada dia melhor na cama, Coutinho, uma coisa inacreditável. Uma desenvoltura, um repertório de posições, cada uma mais acrobática que a outra!

Coutinho (batendo nas costas do amigo) – Você é mesmo um garimpeiro, hein, Bericão? Sempre encontra essas pedras preciosas por aí... Carne nova, gostosa e ninfomaníaca! É por isso que você é o nosso ídolo! Tu é um cara diferenciado, meu irmão! Que fase! Que fase!

Alberico (desanimado) – É, mas só que...

Coutinho – Só que o quê? Anda! Desembucha!

Alberico – Só que eu ando meio desconfiado, sabe Coutinho?

Coutinho – Por que, cara? Desconfiado de quê?

Alberico – Por exemplo: fico pensando onde é que a Cacau tá aprendendo essas posições novas, esse repertório sexual dela...

Coutinho – Ah não! Deixa de ser careta! Hoje em dia se aprende isso em tudo que é lugar. Na tv a cabo tem uns programas que só falam nisso. Sem falar nos livros, na internet, até na escola, viu? Até na escola!

Alberico – Outro dia, no motel, no meio do ato, ela me chamou de um nome estranho...

Coutinho – Que nome?

Alberico Mandioca.

Coutinho – Mandioca?

Alberico (envergonhado) – É...Mandioca...

QUINTO DIA

(Coutinho chega animado à mesa do bar. Alberico pensativo).

Coutinho – Se não é o meu grande amigo Mandioca.

Alberico – Não pisa, Coutinho. Não pisa que eu tô sofrendo. Tô sofrendo horrores...

Coutinho – E desde quando meu ídolo sofre? Tá sofrendo por quê?

Alberico – A Cacau. Me deu um pé na bunda.

Coutinho – Tá falando sério? Que é que aconteceu, homem de deus?

Alberico – Por e-mail, dá pra acreditar? A minha alma gêmea, a única mulher que me tirou do sério a minha vida inteira terminou comigo pela internet. Mandou um e-mail falando que tinha conhecido outro cara e que tava indo embora pra morar com ele em Jericoacoara.

Coutinho – Ele quem? Quem é o cara, Bericão? Tu já sabe?

Alberico – Sei: o Mandioca.

Coutinho – Mandioca?

Alberico – É. Mandioca.

Coutinho – Mandioca???

Alberico – Mandioca.

Coutinho – E por quê o apelido do cara é Mandioca, meu irmão?

Alberico – Porra, Coutinho, que crueldade, cara. E precisa perguntar? Tá na cara, pô.

Coutinho – É. Se bem que é mesmo. Mandioca só pode ser uma coisa... Tá mais que óbvio.

Alberico – Pois é.

Coutinho – E você tá muito mal? Precisando de alguma coisa é só falar!

Alberico – Tô mal, cara, claro! Minha alma gêmea tá numa praia paradisíaca com um cara que chama Mandioca. Você queria o que?

Coutinho – Mudando de assunto, Bericão. Dá só uma olhada na mulata que acabou de entrar...

Alberico – Nossa senhora! Que ferramenta, hein, Coutinho? Que espetáculo! Peraí que eu vou lá nela. Em branco é que eu não posso deixar passar!

Coutinho – Uai, Bericão? Mas já? E aquele papo de alma gêmea pra lá, alma gêmea pra cá? A defunta ainda nem esfriou, pô...

Alberico – Ah, quer saber Coutinho? ALMA GÊMEA É O CARALHO!!!


4 de outubro de 2005

MATANDO OS PRÓPRIOS FILHOS

Contra a proibição das armas, podemos listar uma série de bons argumentos: o cerceamento de um direito de escolha, a vulnerabilidade do cidadão da Zona Rural (onde a polícia não chega), o estímulo ao tráfico e ao contrabando de armas (uma vez que a nossa polícia já se mostrou incapaz de fiscalizar nossas fronteiras), etc.
Entendo perfeitamente. A argumentação é excelente, mas continuo contra as armas. Minha visão, nesse caso, chega às raias da utopia, admito. Discordo da organização social desigual como um todo e, no meu ponto de vista, grande parte dos criminosos acaba por ser resultado dessa sociedade viciada e injusta. Então compramos armas para nos defender e matar muitas vezes aqueles que, assim como nós, são vítimas desse ciclo vicioso.
Pense numa pessoa que não teve base familiar, não teve oportunidade de se educar, não tem a menor noção do que seja uma postura ética diante da vida e acaba tragada pela tentação e o status do crime organizado. É um marginal. Marginal no sentido de que passa uma vida inteira à margem, excluído das oportunidades sociais, e é justamente nessa penumbra que o seu caráter é formado. É um filho da sociedade, parido e criado por ela. Alguém pode argumentar citando exemplos de várias pessoas que não tiveram chance e mesmo assim não se deixaram levar pelo caminho do crime, mas esses são os excepcionais. E uma sociedade, mais uma vez na minha opinião, não pode exigir de seu cidadão que ele seja um fora-de-série. Por isso o sistema é perverso: abandona nas condições mais desumanas um filho seu e depois julga melhor dar-lhe um tiro para resolver o problema que a sua própria omissão criou.
Daqui a uns mil anos, quando formos uma Suíça, serei totalmente a favor da liberação das armas. Prometo renascer no Brasil, tirar meu título de eleitor, votar a favor das armas no referendo do ano de 3005 e sair por aí com meu revólver futurístico ameaçando mandar bala na cara de quem ousar invadir uma propriedade minha!

"Um sistema que exige qualidades excepcionais dos seres humanos só excepcionalmente terá êxito."
Bertrand Russell

Ônibus 174
Quem viu este filme, sabe do que estou falando.

31 de maio de 2005

FOGO E VENTO

Compare o pensamento humano a uma fogueira. Enquanto houver fogo, é sinal de que a inteligência está funcionando, que o homem raciocina e é realmente consciente dos seus sonhos e seus atos. O problema se dá quando, por algum motivo, esse homem se descuida e deixa a chama se apagar. Nesse exato momento, ele deixa de ser gente e passa a ser, no máximo, um robô bem acabado.
O principal adversário de um homem nessa luta por manter acesa a chama da sua independência são os próprios homens. São os outros que, até sem perceber, de maneira sutil e automática, criam o vento que apaga o fogo. Podemos facilmente enumerar situações cotidianas flagrantes de apagamento da chama alheia.
Uma professora que dá uma bronca no aluno que não está prestando atenção à aula e o pune na frente dos colegas. Esse menino, que estava gastando seu tempo pensando bestamente na vida, aprende que deve sempre usar seu tempo objetivamente, estudando, trabalhando ou obedecendo e acaba, por isso, um dia deixando se apagar dentro dele a chama da subjetividade e da contemplação. Ou um pai que vive a dizer para o filho durante o jantar que muito se orgulharia caso o filho resolvesse seguir sua carreira de médico. Ele até diz que isso é apenas um sonho dele, e que o filho tem total liberdade para escolher outro caminho, mas será que tem? Há também o tradicionalíssimo caso daquela moça que vive a ouvir das amigas da mãe: -Vai casar ou vai ficar pra titia? E depois que segue o caminho estipulado pelos outros e se casa continua ainda escutando: -Quando é que vai dar um netinho pra sua mãe?
Esses são casos típicos de pessoas que, sem perceber, vivem ditando regras e determinando o destino da vida daqueles que os cercam. São os apagadores de chama. São o vento que apaga o fogo. Quem não estiver atento perderá sua capacidade de reflexão, perderá sua capacidade de decidir seu próprio futuro. Quem for obediente vai se dar mal.
Falei em obediência e explico: aquele que tem como único e absoluto objetivo agradar os outros conseguirá ser, no máximo, um medíocre como tantos outros por aí. Aquele que raciocina, pensa, acredita e realmente deseja realizar, com certeza terá que desobedecer e desagradar para alcançar seu objetivo. Vejamos: Galileu teve que contestar ensinamentos consagrados de Aristóteles e desagradar à Igreja para defender aquilo em que depositava sua confiança – a teoria que dizia que a Terra gira em torno do Sol, e não o contrário. Por causa disso, foi condenado e censurado pela Igreja. Albert Einstein precisou se contrapor à visão de Isaac Newton, pai da física e considerado um dos maiores cientistas de todos os tempos, e contrariar leis científicas seculares para defender sua Teoria da Relatividade. Mudando radicalmente de área, podemos citar Muhammad Ali, ou Cassius Clay, que num brilhante exemplo pacifista desobedeceu às ordens do seu país e se recusou a lutar na guerra do Vietnã. Ainda não se convenceu? Então vamos lá. Você conhece o Agenor de Miranda Araújo? Não? O Agenor desobedeceu a seu pai, que só queria o seu bem, e encheu de vergonha a sua mãe porque rejeitou um bem remunerado cargo executivo na empresa da família para viver de música. Essa “irresponsabilidade” foi fundamental para que ele se tornasse o Cazuza. E o Rubinho Barrichello? Exemplo mundial de obediência e subordinação, ele acatou ordens da Ferrari e reduziu a velocidade para permitir que Schumacher o ultrapassasse. Agora eu faço a pergunta: qual deles é o maior campeão de todos os tempos?
É necessário esclarecer, entretanto, que a desobediência pura e simples não levará ninguém a lugar algum. Os casos citados acima são todos eles exemplos de desobediências fundamentadas, intrinsecamente ligadas a objetivos definidos e consistentes. A desobediência gratuita e alienada dificilmente resultará em bons frutos.
Por outro lado, é necessário também salientar o importante papel que os obedientes realizam para a sociedade. Aquele rapaz de terno e gravata impecáveis, cabelo calculadamente penteado, orgulho da mamãe e da vovó, genro predileto de dez entre dez sogras, certamente tem muito trabalho a realizar. Será sempre dele a tarefa de levar sorrindo para casa pilhas e mais pilhas de trabalho no final de semana enquanto seu chefe se diverte na pescaria. Normalmente, referem-se a ele no escritório como “indispensável”. O sujeito “indispensável” nada mais é do que aquele cidadão que terá que trabalhar no feriado. E o mais surpreendente é que, obediente como ele só, ainda será capaz de se orgulhar disso. O obediente, no futebol, é aquele jogador que treina com disposição todo santo dia e fica dando carrinho no meio de campo a pedido do treinador enquanto um polêmico Romário se esbalda na noite, falta os treinamentos, mas resolve a parada lá na frente e enche o bolso de dinheiro.
Poderia enumerar aqui mais centenas de exemplos, mas espero já ter conseguido esclarecer suficientemente o meu ponto de vista. Mas muito cuidado! Não vá aceitando assim, tão depressa, a minha opinião! Reflita, conteste! Pense com a sua cabeça, porque nessa vida eu tenho dois medos fundamentais. O primeiro é que um dia eu me dê por vencido e permita que o vento dos outros apague a minha chama. O segundo medo, e com certeza o maior deles, é que eu deixe um dia de ser chama e passe a ser vento, e saia pelas ruas ventilando e apagando o fogo dos outros.

25 de maio de 2005

O VÔO DE JÚLIA

Júlia nasceu naquilo que a sociedade chamava de “berço de ouro”. Seu avô havia ficado milionário no ramo da especulação imobiliária, de forma que deixou como herança para seu filho único, o pai de Júlia, uma dessas fortunas incalculáveis. Levavam, por isso, uma vida que todo mundo sonha em ter, digna de rico de novela das oito.
O problema é que no fundo Júlia achava aquilo tudo, no mínimo, um pouco estranho. Como não precisasse trabalhar, acordava sempre tarde, por volta das dez da manhã e ia tomar o sortido desjejum com seu pai, um viúvo bonachão que resolvera curtir a vida à sua maneira. A essa altura, já estavam há horas trabalhando no faraônico apartamento o jardineiro (sim, havia um jardim no apartamento), a empregada doméstica, a faxineira e o motorista do pai. Mesmo sabendo que o patrão só acordava lá pelas nove da manhã, todos os funcionários chegavam pontualmente para o serviço às sete horas. Todos os dias, exceto os domingos.
Finalizado o café da manhã, o pai saía devidamente uniformizado e aparelhado para a inadiável partida de tênis matinal. Enquanto isso, Júlia se arrumava e ia para o escritório de onde administrava os negócios da família. Mas isso é mentira. A própria Júlia sempre soube que sua presença no escritório era totalmente desnecessária, dispensável. A verdade é que seu pai havia contratado profissionais do mais alto gabarito exatamente para que pudessem relaxar, viajar ou simplesmente ficar à toa enquanto se multiplicavam os já gordos dividendos da família.
Inútil no trabalho, Júlia se trancava em sua sala, abria seu jornal e lia com particular interesse notícias sobre conflitos no Oriente Médio, guerras civis espalhadas pelo continente africano, intervenções norte-americanas ao redor do globo, além dos tradicionais problemas de fome e miséria no Brasil. Vivia, por causa disso, sempre triste e desanimada. As amigas mais próximas não entendiam, e tentavam logo levantar o astral da moça:
-Ora, Julinha... Tenha a santa paciência! O que é que você tem a ver com o que está acontecendo na África? Você tem a faca e o queijo na mão e fica aí, se lamentando pelos cantos. Você leva a vida que eu pedi a Deus. Pode ficar à toa o dia inteiro, se quiser.
Júlia respondia: -Mas o problema é exatamente esse! Eu não preciso fazer nada!
Mas outra a interrompia e logo emendava: -Sem falar que essa semana vai ter a festa no Haras do Benitinho. Vai ser excelente! Começa na sexta à noite e termina só no domingo à tarde. Ouvi dizer que mandaram vir um sistema de som de São Paulo num caminhão por exigência do DJ que vai tocar. Ele é um dos mais badalados do mundo! Tem gente do Brasil inteiro disputando os convites no tapa!
Mas nada disso era capaz de animar Júlia. O fato é que ela estava deprimida. Seu namorado, Marcelo, era seu vizinho no prédio. Tinham uma história de vida bastante parecida. Ambos eram ricos desde sempre e achavam desconfortável aquela situação. A única diferença é que, enquanto Júlia vivia deprimida, Marcelo pegava a gorda mesada que recebia do pai e gastava em papelotes e mais papelotes de cocaína. Cheirava o dinheiro todo. Júlia até tentava falar alguma coisa com ele:
-Pára com isso, Marcelo! Pra quê isso?
E ele respondia: -Você é que devia experimentar pra ver o tanto que é bom. Quando eu tô cheirado, parece que a vida é uma maravilha!
-Mas depois o efeito passa e volta tudo ao normal mesmo, não é?
-É. É sim. Aí, quando passa o efeito, eu cheiro tudo de novo! A sensação que dá quando o pó começa a bater na tampa não dá pra descrever, Julinha. Você sente a onda vindo, de leve, e quando você vê já bateu. O bicho pega!
Um dia, aborrecida do namorado e com vontade de dar uma arejada, Júlia telefonou para o escritório avisando que não iria trabalhar, que estava precisando espairecer. Avisou o escritório só por hábito, por rotina, pois sabia que sua ausência nem seria sentida. Pegou o carro e foi dar uma passeada pela cidade, observando com olhos atentos tudo o que via. Seus olhos mais pareciam bocas famintas, devorando tudo que passava pela frente: o trânsito insuportavelmente parado, o menino malabarista no sinal fechado, as senhoras grã-finas de óculos escuros carregando sacolas e mais sacolas de compras, um mendigo que se divertia cheirando cola e urinando na calçada enquanto o outro dormia em cima de um pedaço de papelão...
Até que ela se cansou e voltou para casa. Parou o carro na garagem entrou no elevador e apertou o 13. Encontrou o pai almoçando:
-Oi, filhinha. Que surpresa boa! Senta aqui com o papai que o almoço está delicioso! Tem aquela massa que você adora!
A filha deu um beijo no rosto do pai e disse: -Espera um pouquinho que eu já venho, papai...
Entrou no quarto, trancou a porta, abriu a janela e pulou. Isso mesmo: subiu no parapeito e voou sem titubear. Talvez tenha sido, ao longo de toda a sua vida, a atitude mais consciente de Júlia. No salão de beleza, uma manicure comentava entre uma e outra cutícula:
-Que menina louca! Tinha tudo na vida: dinheiro, saúde, um pai que a amava e mesmo assim se matou.
E uma outra, enquanto tingia o cabelo, falou: -Era louca. Só pode ser muita loucura, coitadinha. Ou então era uma drogada...
O fato é que Júlia se matou. Matou-se e eu até hoje não sei muito bem o porquê. A maioria acha que foi por loucura. Eu, por outro lado, desconfio que tenha sido por excesso de lucidez. Tanta lucidez que tornou insuportável continuar a vida nesse mundo.

12 de maio de 2005

A MULHER INVISÍVEL

"Como aqueles primitivos
que carregam consigo
o maxilar inferior de seus mortos,
eu te carrego comigo
tarde de maio".
(Carlos Drummond de Andrade)

Houve um tempo em que éramos inseparáveis. Tão inseparáveis que chegava a irritar. Eu dormia na casa dela, ela na minha. Quando não estávamos juntos, conversávamos ao telefone. O tempo inteiro um grudado no outro. Nos conhecíamos um ao outro tão intimamente que nossas reações eram sempre previsíveis. Um sabia o que o outro pensava, e digo mais, sabia o que o outro ia pensar. Mas éramos novos. A mãe dela foi transferida no emprego para uma cidade distante e tiveram que se mudar. Não houve, na época, nada que eu pudesse fazer. Ela foi embora e eu fiquei...

No começo, havia a esperança de sempre mantermos contato e tentar dar prosseguimento àquele relacionamento que parecia indestrutível. Mas o tempo e a distância não deixaram. Aos poucos o comprometimento que havia foi diminuindo, os laços foram se desfazendo, nosso mundo em comum desaparecendo e os assuntos se tornando mera rotina. As vidas se tornaram distantes até um ponto em que não fazia mais nenhum sentido insistir. Acabou. Aquela pessoa com quem um dia eu dividi os meus minutos e as minhas idéias já não existia mais. E foi assim.
Hoje, mais de dez anos depois, aconteceu: estava sentado na sala assistindo a um jornal na televisão e uma notícia me fez pensar nela. De repente, cresceu em mim uma vontade violenta de conversar com ela sobre aquele assunto da notícia. Precisava saber a opinião dela. E o peito apertava. Queria ouvir de novo aquela voz, aquele jeito de falar. Que saudade! Como é estranho e difícil de entender que aquela pessoa que um dia fora tão imprescindível e constante na minha vida pudesse ter simplesmente desaparecido. O peito doía. É tão inexplicável e dolorosa essa ausência irreversível!

Tentei reconstruir na minha mente o seu rosto, mas não consegui. Para relembrar talvez fosse necessário o estímulo infalível de um cheiro, ou de um sabor... O tempo se encarregou de ir aos poucos apagando da memória. Como será que ela está agora? Será que continua linda? Será que está gorda? Será que a cidade a tornou cinza? Terá essa rotina desumana enfraquecido o seu brilho? Não sei. E nem tenho como saber. Resta-me divagar. Imagino que tenha se casado, que continue linda e que tenha uma filha. E na minha imaginação ela passeia com a filha no colo numa tarde de maio e os dias são sempre ensolarados. Sim: na minha imaginação não chove nunca e há uma brisa agradável soprando o cabelo dela. A filha se chama Ana Maria, é bochechuda e sempre chora de medo quando aparece algum “au-au”. E nesse mundo ideal não há espaço para a pressa da insanidade urbana e nem tampouco para a irritante busca da vitória. Só existe a calma. A calma , e as árvores, e o vento, e pés descalços.

Fico feliz por ela, mas me lembro que estou apenas sonhando. Tomara que ela esteja feliz como estava no meu sonho. Tomara que não tenha sofrido, que não tenha chorado, que não tenha morrido! Tomara que um dia, numa dessas tardes ensolaradas de maio, uma brisa sopre agradável em seu ouvido e ela pense, mesmo que apenas por um instante, em mim.

A FORÇA DA CORRENTEZA

Pense na seguinte imagem: pequenos bebês sendo deixados no leito de um rio. Assim é a nossa vida. Sem perceber, a estranha força da correnteza vai nos guiando e nos levando sem que a gente tenha muito domínio da situação. Ao nosso lado, milhares de outras pessoas vão se deixando levar pela tal correnteza, de modo a nos deixar ainda mais convencidos de que o caminho do leito do rio é o caminho certo. A multidão é tamanha que a gente mal consegue ver o que é que há além daquele rio...
Não que o caminho ditado pela correnteza não seja um caminho válido. O problema é que, se não ficarmos atentos, poderemos acabar achando que se trata de um caminho único, coisa que não é. Desde o momento em que nascemos até o dia de hoje, a maioria de nós tem se deixado levar pela correnteza. Ainda duvida? É fácil responder.
Por exemplo: imagine alguém que esteja concluindo algum curso superior e resolva largar tudo porque gosta mesmo é de ser músico. Será essa uma tarefa fácil? Não. Não porque esse caminho vai contra a correnteza e sabemos que é gigante a força do rio. As pessoas que estão perto dele logo tentarão dissuadi-lo da idéia “maluca”. Achou pouco? Imagine então alguém que se descobre homossexual. Será uma tarefa fácil para essa pessoa assumir para sua família e amigos que deseja relacionar-se com pessoas do mesmo sexo? E, uma vez homossexual resolvido e apaixonado, será que ele poderá demonstrar seu afeto beijando na boca seu parceiro em local público? Não. Provavelmente correria até o risco de ser preso por única e exclusivamente dar um beijo na boca da pessoa que ama.
Mais uma vez se manifesta o violento e camuflado poder da correnteza. Camuflado, porque do ponto de vista de quem está no meio do rio, não existe a tal corrente. Para se perceber esse movimento comum, seria necessário nadar até a margem, ou seja, deslocar-se, para aí sim perceber a multidão de cabecinhas que estão sendo arrastadas na enxurrada.
Falei sobre a margem e prossigo: quanto mais no meio do leito do rio, encoberto por milhares de outros corpos que simplesmente bóiam, mais difícil se torna vislumbrar os caminhos alternativos, seus afluentes. É necessária a proximidade da margem para que se possa realmente perceber a situação e enxergar todas as possibilidades. Sim, é necessário ser um “marginal”. Quem se afasta do leito do rio será automaticamente taxado de marginal, mas deve saber que, para conseguir alcançar seu novo objetivo essa será uma condição obrigatória.
Aquele músico, cujo exemplo citei acima, se quiser realmente viver de música terá que desagradar à família e magoar os pais. Mas essa desobediência é absolutamente indispensável. O mesmo se aplica ao homossexual. A sua felicidade dependerá sempre de algum sofrimento alheio. Para se realizar, ele terá provavelmente que ferir o orgulho dos pais e aviltar senhoras conservadoras em locais públicos. Seu único crime foi não seguir o caminho da multidão. Resolveu tomar as rédeas do seu próprio destino e traçar para si um rumo diferente, talvez um afluente deste mesmo rio...
O importante aqui não é evitar o rio e sim saber da sua existência. Uma vez identificada a força da correnteza, cabe a cada um escolher para si uma direção a seguir: pode ser o próprio rio, mas pode não ser. Eu, por exemplo, já escolhi. Quero, até o fim da minha vida, ter forças para nadar contra essa correnteza imperativa, pois lá na nascente encontrarei a água mais limpa. Quanto aos que seguirão até final do rio, imagino o que encontrarão por lá: o esgoto, a merda.

25 de abril de 2005

BEBERICO

Na verdade seu nome é Frederico, mas ganhou o apelido devido à peculiar insistência etílica. Era praticamente um maratonista do álcool. Não era magro, nem gordo, mas sua espantosa resistência aos efeitos da birita o fazia derrubar os mais célebres cachaceiros da região.

Certa vez, indo embora completamente alcoolizado de um casamento, Beberico pegou irresponsavelmente seu carro e foi dirigindo pra casa. Ao acordar no dia seguinte pela manhã, percebeu que havia sangue por todo seu quarto, no travesseiro, no chão e no paletó. Sentia inclusive na boca o gosto daquele sangue. Desesperado, achou que estava morrendo. Dirigiu-se apressado até o banheiro onde pôde constatar que também o seu rosto estava encharcado, assim como suas mãos. Entrou no banho a fim de se limpar para pelo menos poder identificar a lesão que ocasionava todo aquele sangramento. Ao sair do banho, limpo mas ainda tonto, constatou que não havia nenhum corte ou hematoma, e que inclusive ele não estava sangrando: provavelmente era sangue alheio.

Preocupado e afoito, ligou para todos os amigos perguntando o que tinha acontecido, e obteve de todos a mesma e uníssona resposta: -Simples, Beberico. Você disse que ia embora da festa, aí pegou seu carro e foi embora mesmo! Nós continuamos lá e nem tivemos mais notícia sua. Beberico não acreditava naquilo que acabara de ouvir. Ninguém sabia que sangue era aquele em seu quarto. Podia ser de um cachorro atropelado, mas o seu carro estava intacto, novo em folha. Podia ser de outro ser humano, uma briga, quem sabe? Mas Beberico não tinha sequer um dano físico, um olho roxo que fosse, nada! E assim, a verdade é que até hoje Beberico não sabe que diabo de sangue era aquele.


15 de abril de 2005

UM RIO

Imagine um rio de águas muito intensas. Ele é bravo e é manso. Às margens desse rio, uma família inteira se abriga e encontra ali as condições ideais para crescer. Essa família então vai crescendo e se multiplicando porque o rio a protege e dá alimento ao mesmo tempo em que banha e fertiliza suas margens. Depois de passar anos e anos oferecendo toda sua energia vital àquela família, é natural que o rio vá perdendo sua força. Suas águas vão ficando cada vez menos caudalosas até que...
Até que o rio seca. Seca, mas não morre nunca porque gerações inteiras foram banhadas por suas águas e conheceram a beleza de sua força. Por causa desse rio, aconteceu a vida. E essa vitalidade de sua correnteza existirá para sempre no sangue de cada um que um dia teve a imensa sorte de beber da sua água.


Em homenagem a meu avô.

28 de março de 2005

SOBRE AMOR À PRIMEIRA VISTA

Fala-se bastante, hoje e sempre, em amor à primeira vista e é preciso fazer logo um esclarecimento: é uma grandessíssima bobagem. Amor à primeira vista é uma coisa que nunca existiu, não existe e jamais existirá. Sei que sempre haverá por aí aqueles cidadãos rasteiros e irrefletidos que logo se exaltarão e sairão berrando frases repletas de pontos de exclamação acusando-me de ser um insensível ou até mesmo um traumatizado ou recalcado por pensar assim. Por isso, desde já inicio minha defesa alegando que, muito pelo contrário, faço tal afirmação na qualidade de severo defensor da plenitude do significado da palavra amor.
Certa vez, vi uma mulher que me causou imediatamente um desconcerto incomparável com tudo que eu já havia sentido por alguém “à primeira vista” até então. E é exatamente aí que mora o perigo. Atordoados pela taquicardia e pelo calor causados por aquele primeiro impacto, torna-se mais fácil esquecermos que o amor é uma emoção completa. Completa porque para caracterizá-lo é necessário o uso de mais sentidos. Além da primeira “vista” deve haver o primeiro cheiro, o primeiro toque, o primeiro gosto ou o primeiro som. Ou seja, confiar apenas na primeira vista e desprezar a perfeição de nossos sensos é não enxergar verdadeiramente. Vemos melhor quando usamos o corpo todo. O amor precisa da comunhão dos sentidos. E também precisa do tempo.
Falei sobre o tempo e explico: só o tempo é capaz de revelar nossas ilusões de ótica, porque geralmente vemos o que queremos ver. Pessoas carentes, em busca desesperada de companhia, se deixam enganar facilmente por estelionatários exatamente porque projetam ali um grande amor. Mas a verdade aparece com o tempo. Assim também são as amizades. Com o passar dos anos podemos facilmente discernir os verdadeiros amigos e os eventuais interesseiros.
O amor não existe na primeira vista, nem na segunda e nem na terceira. Não se deve ter pressa. Trata-se de um exercício de paciência que pode até parecer complicado mas que, aos poucos, vai se mostrando valioso e gratificante. É como um quebra-cabeça que vamos montando, a quatro mãos, colocando uma peça por dia. Com o passar do tempo já começamos a perceber ali a figura do amor, apesar de ainda haver muitos espaços vazios. Assim, com calma, continuamos posicionando as peças, preenchendo esses vazios, e o amor vai aparecendo cada vez mais, sua imagem vai se escancarando diante de nossos olhos tornando-se cada vez mais nítida. E sempre haverá espaço para colocarmos mais uma peça.

15 de março de 2005

DONA ALICINHA

Já acordou daquele jeito. Vestiu o roupão tradicional e desceu as escadarias da mansão para tomar o café da manhã.
-Alzira! Pelo amor de Deus, Alzira! Tenha a santa paciência!
-Mas o que é que foi, Dona Alicinha!
-O que é que houve? Quer saber o que é que houve? O que foi que eu te falei ontem, hein?
-Não lembro não, senhora!
-Esse é o problema! Você nunca lembra! Eu te falei mil vezes pra você servir o café essa semana usando a toalha de mesa branca, mas você insiste em desobedecer...
-É porque a branca tá lavando, Dona Alicinha...
-Ah! Agora além de tudo deu pra me responder, Alzira? Você acha que eu não sei que você faz essas coisas só pra me irritar? Pois eu vou te mostrar que sou eu quem manda nessa casa. Ai de você se me desobedecer mais uma vez que seja! Uma vezinha só!
Era sempre assim. Dona Alicinha acordava com a macaca e quem sofria as conseqüências era quase sempre Alzira. Todas as manhãs ela ouvia, calada e obediente, os desaforos da patroa. E o pior é que Alzira ainda a defendia perante as outras domésticas da rua. Quando falavam mal de Dona Alicinha, Alzira logo retrucava: - No fundo ela tem um coração de ouro!
Alicinha levava a chamada vida de madame. Casada, mãe de dois filhos homens já crescidos e uma menina ainda criança, vivia de cuidar da casa e dar ordens a uma infinidade de criados. Foi treinada desde a mais tenra infância até o dia em que subiu ao altar com Plínio para realizar, da melhor maneira possível de acordo com os conceitos seculares de seus pais, as tarefas de uma verdadeira dona de casa.
Após a habitual bronca matinal em Alzira, pegou seus artefatos esportivos importados e rumou para a academia de ginástica onde diariamente se exercitava com o auxílio de seu personal trainer e a companhia das amigas do condomínio fechado. Lá passou quase a manhã inteira discorrendo sobre a incompetência de Alzira enquanto recebia o apoio uníssono das colegas:
-Se fosse lá em casa já estava no olho da rua! –E outra logo emendava:
-Esse povo está cada vez mais despreparado. Outro dia me veio uma que mal sabia fazer um estrogonofe. Sem falar em outra que eu descobri que fazia programas à noite! Vê se pode! Uma prostitutazinha dentro da minha casa!
-É. Se bobear essa gente toma conta...
Saiu dali aliviada. Falar mal da criadagem era, para ela e aquelas honradas senhoras, uma verdadeira e eficiente terapia. Tão eficiente que já deixou a academia com o apetite renovado para se encontrar com as irmãs, num almoço no restaurante mais badalado no momento. O restaurante ficava numa esquina movimentada e nobre da cidade e oferecia algumas mesas na calçada além de outras num ambiente interno climatizado com excelente ar condicionado. Em princípio houve uma dúvida entre os dois ambientes, dúvida essa que foi rapidamente solucionada por Alicinha:
-Vocês estão doidas! Vamos nos sentar bonitinhas lá dentro no ar condicionado porque aqui fora toda hora aparece um daqueles pedintes insuportáveis querendo vender rosas, engraxar sapato... É um inferno! Isso sem falar no risco de passar um daqueles trombadinhas com caco de vidro na mão e tudo. Deus que me livre!
A argumentação de Alicinha convenceu prontamente suas irmãs, que a seguiram para o interior do recinto. De dentro do restaurante, no conforto do ar condicionado, Alicinha já observava pelo vidro a presença de algumas crianças de rua: -Que inferno! Lá vêm aqueles meninos pedir moeda ou então sobra de comida. Eles não dão sossego...
As irmãs tentavam acalmá-la: -Calma, Alicinha... Calma, minha filha. Desse jeito você vai acabar tendo um troço!
E ela respondia: -Calma nada! Esse presidente não faz nada e dá nisso. A gente é que paga o pato!
Imediatamente chamou o garçom e fez o pedido: -Olha aqui, meu filho... Embrulha o que sobrou desse peixe que é pra dar pro menino ali na porta.
Deixou o restaurante apressada e jogou o marmitex no colo do menino, pois já estava atrasada para levar a filha à aula de francês. Pegou a menina em casa e saiu dirigindo às pressas. As duas conversavam distraídas sobre a novela quando foram interrompidas por um garoto no sinal fechado:
-Vai um chicletinho aí, dona?
-Ai! Que susto, moleque! Quer me matar do coração?
Fechou o vidro blindado na cara do rapazinho e voltou-se para a filha: -Absurdo! Esses moleques ao invés de trabalhar e arrumar um emprego decente ficam nessa vagabundagem no meio da rua. E ainda por cima assustam a gente...
Estressada, achou melhor voltar pra casa e dar uma cochilada até a hora de buscar a filha no francês, mas não conseguiu porque o jardineiro fazia um barulho ensurdecedor com o cortador de grama. Não teve outra saída, a não ser ficar rolando na cama de um lado para o outro até tocar o celular: era a filha.
-Mamãe, acabou a aula. Pode vir me buscar.
-Tá bom, meu amorzinho. Mamãe já vai...
Como se já não bastasse o ódio que alimentava pelo jardineiro, ao chegar ao curso da filha deparou-se, abismada, com uma animada conversa entre sua menininha e um garotinho negro um tanto mal vestido para os padrões daquela renomada e cara escola. Puxou-a bruscamente para dentro do carro e iniciou o interrogatório:
-Que garoto é esse, minha filha?
-É o Laércio, mãe. Ele é da minha sala de francês.
-Como assim? Ele não me parece ter condições financeiras para freqüentar essa escola...
-Eu sei, mãe. É que ele é filho da moça da cantina, então ele pode estudar de graça. Ele é muito engraçado. E o pessoal da sala fala que ele quer namorar comigo.
-Nem brinca com uma coisa dessas, minha filha. Só faltava essa. Com tanta gente branca nessa escola você vem me arrumar justo um negrinho? Ah! Tenha a santa paciência!
A filha, calada, não entendeu nada.
Mais um dia na vida de Alicinha estava terminando. Durante quase 24 horas ela permaneceu dura como uma rocha diante das situações mais tristes do cotidiano. Xingou a empregada doméstica pela manhã, esquivou-se dos pedintes na saída do restaurante, fechou o vidro na cara do vendedor de chicletes e repreendeu a filha por sua amizade com um negro. Poderiam até pensar que Alicinha é uma vítima da absorvente vida numa cidade grande. Poderiam argumentar que a repetição exaustiva daquele horror cotidiano pelo período de quase uma vida inteira acabou por torná-lo banal para aquela madame. Poderiam pensar, ao final daquele dia, que a rudeza da metrópole a tornara incapaz de sofrer ou de sentir, não fosse por um último e inesperado acontecimento: no começo da noite, Alicinha assistia à sua infalível novela ao lado de seu marido Plínio quando ele, num movimento incerto, derrubou uma taça de vinho tinto no sofá branco recém reformado. Ao ver aquele líquido vermelho se espalhando pelo alvo tecido do sofá, Alicinha chorou. Mas não foi um pranto qualquer. Ela chorava o mesmo choro de quem acaba de ver morrer um filho. Rolava no carpete, esperneava, soluçava enquanto esfregava a própria saia na mancha de vinho. Em vão.

19 de janeiro de 2005

CERTEZA

Se existe uma coisa difícil de se ter nessa vida, essa coisa é a certeza. Pense comigo. Quando a gente nasce, na verdade a gente não tem muita certeza se quer realmente sair da confortável e aconchegante barriga de nossas mães. Mas aí vem uma série de contrações esquisitas e umas mãos com luvas de borracha que nos tiram de lá, sem que a gente esteja certo de que aquela era a nossa melhor opção.
O choque inicial é grande, mas tudo bem. A gente nasce e depois é colocado em um colégio sem ter certeza se estudar ali é ou não um bom negócio, mas fomos matriculados lá. Aí um dia a gente se forma e tem que escolher, por volta dos dezoito aninhos, uma profissão que teoricamente será aquela que desempenharemos até o fim de nossas vidas. Não há como, nessa idade, ter muita certeza do que realmente queremos para nossas vidas. Mas somos valentes, não somos do tipo de gente que foge do pau e, sendo assim, escolhemos a tal profissão.
Em meio a isso tudo, a gente conhece uma pessoa espetacular que passa a fazer parte de nossas vidas de um jeito que a gente ainda não conhecia. Só que no planeta existem outros seis bilhões de pessoas, de maneira que é matematicamente impossível ter certeza se aquela pessoa com a qual estamos vivendo é a nossa melhor alternativa. Mesmo assim, sem ter certeza, concluímos que sua companhia é boa, nos faz mais bem que mal e resolvemos ficar com ela.
Mas como assim ficar? Existe uma série de possibilidades de convivência, mas a que sempre aparece com a força de uma tsunami é a do casamento. Sim, sim, já decidimos quem nos fará companhia, mas o próximo passo é decidir como. Casar é o melhor negócio? É, mais uma vez, impraticável ter certeza. Não nos foi dado o talento para prever o futuro e a nossa melhor opção acaba sendo pagar pra ver. Vale a pena.
Depois de muito tempo vivendo juntos, os filhos já bem criados, crescidos e independentes, a gente começa pela primeira vez na vida a ter uma noção de certeza. A gente olha pra trás e começa a achar que fez boas escolhas ao longo dos anos, que escolheu a companhia ideal, uma pessoa que sempre esteve do nosso lado quando a gente mais precisou. Só que aí um dia essa pessoa morre e a gente fica sozinho, sem ter certeza se ela morreu mesmo ou se apenas foi pra um outro lugar onde um dia a gente vai se ver de novo.

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