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Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil

31 de maio de 2005

FOGO E VENTO

Compare o pensamento humano a uma fogueira. Enquanto houver fogo, é sinal de que a inteligência está funcionando, que o homem raciocina e é realmente consciente dos seus sonhos e seus atos. O problema se dá quando, por algum motivo, esse homem se descuida e deixa a chama se apagar. Nesse exato momento, ele deixa de ser gente e passa a ser, no máximo, um robô bem acabado.
O principal adversário de um homem nessa luta por manter acesa a chama da sua independência são os próprios homens. São os outros que, até sem perceber, de maneira sutil e automática, criam o vento que apaga o fogo. Podemos facilmente enumerar situações cotidianas flagrantes de apagamento da chama alheia.
Uma professora que dá uma bronca no aluno que não está prestando atenção à aula e o pune na frente dos colegas. Esse menino, que estava gastando seu tempo pensando bestamente na vida, aprende que deve sempre usar seu tempo objetivamente, estudando, trabalhando ou obedecendo e acaba, por isso, um dia deixando se apagar dentro dele a chama da subjetividade e da contemplação. Ou um pai que vive a dizer para o filho durante o jantar que muito se orgulharia caso o filho resolvesse seguir sua carreira de médico. Ele até diz que isso é apenas um sonho dele, e que o filho tem total liberdade para escolher outro caminho, mas será que tem? Há também o tradicionalíssimo caso daquela moça que vive a ouvir das amigas da mãe: -Vai casar ou vai ficar pra titia? E depois que segue o caminho estipulado pelos outros e se casa continua ainda escutando: -Quando é que vai dar um netinho pra sua mãe?
Esses são casos típicos de pessoas que, sem perceber, vivem ditando regras e determinando o destino da vida daqueles que os cercam. São os apagadores de chama. São o vento que apaga o fogo. Quem não estiver atento perderá sua capacidade de reflexão, perderá sua capacidade de decidir seu próprio futuro. Quem for obediente vai se dar mal.
Falei em obediência e explico: aquele que tem como único e absoluto objetivo agradar os outros conseguirá ser, no máximo, um medíocre como tantos outros por aí. Aquele que raciocina, pensa, acredita e realmente deseja realizar, com certeza terá que desobedecer e desagradar para alcançar seu objetivo. Vejamos: Galileu teve que contestar ensinamentos consagrados de Aristóteles e desagradar à Igreja para defender aquilo em que depositava sua confiança – a teoria que dizia que a Terra gira em torno do Sol, e não o contrário. Por causa disso, foi condenado e censurado pela Igreja. Albert Einstein precisou se contrapor à visão de Isaac Newton, pai da física e considerado um dos maiores cientistas de todos os tempos, e contrariar leis científicas seculares para defender sua Teoria da Relatividade. Mudando radicalmente de área, podemos citar Muhammad Ali, ou Cassius Clay, que num brilhante exemplo pacifista desobedeceu às ordens do seu país e se recusou a lutar na guerra do Vietnã. Ainda não se convenceu? Então vamos lá. Você conhece o Agenor de Miranda Araújo? Não? O Agenor desobedeceu a seu pai, que só queria o seu bem, e encheu de vergonha a sua mãe porque rejeitou um bem remunerado cargo executivo na empresa da família para viver de música. Essa “irresponsabilidade” foi fundamental para que ele se tornasse o Cazuza. E o Rubinho Barrichello? Exemplo mundial de obediência e subordinação, ele acatou ordens da Ferrari e reduziu a velocidade para permitir que Schumacher o ultrapassasse. Agora eu faço a pergunta: qual deles é o maior campeão de todos os tempos?
É necessário esclarecer, entretanto, que a desobediência pura e simples não levará ninguém a lugar algum. Os casos citados acima são todos eles exemplos de desobediências fundamentadas, intrinsecamente ligadas a objetivos definidos e consistentes. A desobediência gratuita e alienada dificilmente resultará em bons frutos.
Por outro lado, é necessário também salientar o importante papel que os obedientes realizam para a sociedade. Aquele rapaz de terno e gravata impecáveis, cabelo calculadamente penteado, orgulho da mamãe e da vovó, genro predileto de dez entre dez sogras, certamente tem muito trabalho a realizar. Será sempre dele a tarefa de levar sorrindo para casa pilhas e mais pilhas de trabalho no final de semana enquanto seu chefe se diverte na pescaria. Normalmente, referem-se a ele no escritório como “indispensável”. O sujeito “indispensável” nada mais é do que aquele cidadão que terá que trabalhar no feriado. E o mais surpreendente é que, obediente como ele só, ainda será capaz de se orgulhar disso. O obediente, no futebol, é aquele jogador que treina com disposição todo santo dia e fica dando carrinho no meio de campo a pedido do treinador enquanto um polêmico Romário se esbalda na noite, falta os treinamentos, mas resolve a parada lá na frente e enche o bolso de dinheiro.
Poderia enumerar aqui mais centenas de exemplos, mas espero já ter conseguido esclarecer suficientemente o meu ponto de vista. Mas muito cuidado! Não vá aceitando assim, tão depressa, a minha opinião! Reflita, conteste! Pense com a sua cabeça, porque nessa vida eu tenho dois medos fundamentais. O primeiro é que um dia eu me dê por vencido e permita que o vento dos outros apague a minha chama. O segundo medo, e com certeza o maior deles, é que eu deixe um dia de ser chama e passe a ser vento, e saia pelas ruas ventilando e apagando o fogo dos outros.

25 de maio de 2005

O VÔO DE JÚLIA

Júlia nasceu naquilo que a sociedade chamava de “berço de ouro”. Seu avô havia ficado milionário no ramo da especulação imobiliária, de forma que deixou como herança para seu filho único, o pai de Júlia, uma dessas fortunas incalculáveis. Levavam, por isso, uma vida que todo mundo sonha em ter, digna de rico de novela das oito.
O problema é que no fundo Júlia achava aquilo tudo, no mínimo, um pouco estranho. Como não precisasse trabalhar, acordava sempre tarde, por volta das dez da manhã e ia tomar o sortido desjejum com seu pai, um viúvo bonachão que resolvera curtir a vida à sua maneira. A essa altura, já estavam há horas trabalhando no faraônico apartamento o jardineiro (sim, havia um jardim no apartamento), a empregada doméstica, a faxineira e o motorista do pai. Mesmo sabendo que o patrão só acordava lá pelas nove da manhã, todos os funcionários chegavam pontualmente para o serviço às sete horas. Todos os dias, exceto os domingos.
Finalizado o café da manhã, o pai saía devidamente uniformizado e aparelhado para a inadiável partida de tênis matinal. Enquanto isso, Júlia se arrumava e ia para o escritório de onde administrava os negócios da família. Mas isso é mentira. A própria Júlia sempre soube que sua presença no escritório era totalmente desnecessária, dispensável. A verdade é que seu pai havia contratado profissionais do mais alto gabarito exatamente para que pudessem relaxar, viajar ou simplesmente ficar à toa enquanto se multiplicavam os já gordos dividendos da família.
Inútil no trabalho, Júlia se trancava em sua sala, abria seu jornal e lia com particular interesse notícias sobre conflitos no Oriente Médio, guerras civis espalhadas pelo continente africano, intervenções norte-americanas ao redor do globo, além dos tradicionais problemas de fome e miséria no Brasil. Vivia, por causa disso, sempre triste e desanimada. As amigas mais próximas não entendiam, e tentavam logo levantar o astral da moça:
-Ora, Julinha... Tenha a santa paciência! O que é que você tem a ver com o que está acontecendo na África? Você tem a faca e o queijo na mão e fica aí, se lamentando pelos cantos. Você leva a vida que eu pedi a Deus. Pode ficar à toa o dia inteiro, se quiser.
Júlia respondia: -Mas o problema é exatamente esse! Eu não preciso fazer nada!
Mas outra a interrompia e logo emendava: -Sem falar que essa semana vai ter a festa no Haras do Benitinho. Vai ser excelente! Começa na sexta à noite e termina só no domingo à tarde. Ouvi dizer que mandaram vir um sistema de som de São Paulo num caminhão por exigência do DJ que vai tocar. Ele é um dos mais badalados do mundo! Tem gente do Brasil inteiro disputando os convites no tapa!
Mas nada disso era capaz de animar Júlia. O fato é que ela estava deprimida. Seu namorado, Marcelo, era seu vizinho no prédio. Tinham uma história de vida bastante parecida. Ambos eram ricos desde sempre e achavam desconfortável aquela situação. A única diferença é que, enquanto Júlia vivia deprimida, Marcelo pegava a gorda mesada que recebia do pai e gastava em papelotes e mais papelotes de cocaína. Cheirava o dinheiro todo. Júlia até tentava falar alguma coisa com ele:
-Pára com isso, Marcelo! Pra quê isso?
E ele respondia: -Você é que devia experimentar pra ver o tanto que é bom. Quando eu tô cheirado, parece que a vida é uma maravilha!
-Mas depois o efeito passa e volta tudo ao normal mesmo, não é?
-É. É sim. Aí, quando passa o efeito, eu cheiro tudo de novo! A sensação que dá quando o pó começa a bater na tampa não dá pra descrever, Julinha. Você sente a onda vindo, de leve, e quando você vê já bateu. O bicho pega!
Um dia, aborrecida do namorado e com vontade de dar uma arejada, Júlia telefonou para o escritório avisando que não iria trabalhar, que estava precisando espairecer. Avisou o escritório só por hábito, por rotina, pois sabia que sua ausência nem seria sentida. Pegou o carro e foi dar uma passeada pela cidade, observando com olhos atentos tudo o que via. Seus olhos mais pareciam bocas famintas, devorando tudo que passava pela frente: o trânsito insuportavelmente parado, o menino malabarista no sinal fechado, as senhoras grã-finas de óculos escuros carregando sacolas e mais sacolas de compras, um mendigo que se divertia cheirando cola e urinando na calçada enquanto o outro dormia em cima de um pedaço de papelão...
Até que ela se cansou e voltou para casa. Parou o carro na garagem entrou no elevador e apertou o 13. Encontrou o pai almoçando:
-Oi, filhinha. Que surpresa boa! Senta aqui com o papai que o almoço está delicioso! Tem aquela massa que você adora!
A filha deu um beijo no rosto do pai e disse: -Espera um pouquinho que eu já venho, papai...
Entrou no quarto, trancou a porta, abriu a janela e pulou. Isso mesmo: subiu no parapeito e voou sem titubear. Talvez tenha sido, ao longo de toda a sua vida, a atitude mais consciente de Júlia. No salão de beleza, uma manicure comentava entre uma e outra cutícula:
-Que menina louca! Tinha tudo na vida: dinheiro, saúde, um pai que a amava e mesmo assim se matou.
E uma outra, enquanto tingia o cabelo, falou: -Era louca. Só pode ser muita loucura, coitadinha. Ou então era uma drogada...
O fato é que Júlia se matou. Matou-se e eu até hoje não sei muito bem o porquê. A maioria acha que foi por loucura. Eu, por outro lado, desconfio que tenha sido por excesso de lucidez. Tanta lucidez que tornou insuportável continuar a vida nesse mundo.

12 de maio de 2005

A MULHER INVISÍVEL

"Como aqueles primitivos
que carregam consigo
o maxilar inferior de seus mortos,
eu te carrego comigo
tarde de maio".
(Carlos Drummond de Andrade)

Houve um tempo em que éramos inseparáveis. Tão inseparáveis que chegava a irritar. Eu dormia na casa dela, ela na minha. Quando não estávamos juntos, conversávamos ao telefone. O tempo inteiro um grudado no outro. Nos conhecíamos um ao outro tão intimamente que nossas reações eram sempre previsíveis. Um sabia o que o outro pensava, e digo mais, sabia o que o outro ia pensar. Mas éramos novos. A mãe dela foi transferida no emprego para uma cidade distante e tiveram que se mudar. Não houve, na época, nada que eu pudesse fazer. Ela foi embora e eu fiquei...

No começo, havia a esperança de sempre mantermos contato e tentar dar prosseguimento àquele relacionamento que parecia indestrutível. Mas o tempo e a distância não deixaram. Aos poucos o comprometimento que havia foi diminuindo, os laços foram se desfazendo, nosso mundo em comum desaparecendo e os assuntos se tornando mera rotina. As vidas se tornaram distantes até um ponto em que não fazia mais nenhum sentido insistir. Acabou. Aquela pessoa com quem um dia eu dividi os meus minutos e as minhas idéias já não existia mais. E foi assim.
Hoje, mais de dez anos depois, aconteceu: estava sentado na sala assistindo a um jornal na televisão e uma notícia me fez pensar nela. De repente, cresceu em mim uma vontade violenta de conversar com ela sobre aquele assunto da notícia. Precisava saber a opinião dela. E o peito apertava. Queria ouvir de novo aquela voz, aquele jeito de falar. Que saudade! Como é estranho e difícil de entender que aquela pessoa que um dia fora tão imprescindível e constante na minha vida pudesse ter simplesmente desaparecido. O peito doía. É tão inexplicável e dolorosa essa ausência irreversível!

Tentei reconstruir na minha mente o seu rosto, mas não consegui. Para relembrar talvez fosse necessário o estímulo infalível de um cheiro, ou de um sabor... O tempo se encarregou de ir aos poucos apagando da memória. Como será que ela está agora? Será que continua linda? Será que está gorda? Será que a cidade a tornou cinza? Terá essa rotina desumana enfraquecido o seu brilho? Não sei. E nem tenho como saber. Resta-me divagar. Imagino que tenha se casado, que continue linda e que tenha uma filha. E na minha imaginação ela passeia com a filha no colo numa tarde de maio e os dias são sempre ensolarados. Sim: na minha imaginação não chove nunca e há uma brisa agradável soprando o cabelo dela. A filha se chama Ana Maria, é bochechuda e sempre chora de medo quando aparece algum “au-au”. E nesse mundo ideal não há espaço para a pressa da insanidade urbana e nem tampouco para a irritante busca da vitória. Só existe a calma. A calma , e as árvores, e o vento, e pés descalços.

Fico feliz por ela, mas me lembro que estou apenas sonhando. Tomara que ela esteja feliz como estava no meu sonho. Tomara que não tenha sofrido, que não tenha chorado, que não tenha morrido! Tomara que um dia, numa dessas tardes ensolaradas de maio, uma brisa sopre agradável em seu ouvido e ela pense, mesmo que apenas por um instante, em mim.

A FORÇA DA CORRENTEZA

Pense na seguinte imagem: pequenos bebês sendo deixados no leito de um rio. Assim é a nossa vida. Sem perceber, a estranha força da correnteza vai nos guiando e nos levando sem que a gente tenha muito domínio da situação. Ao nosso lado, milhares de outras pessoas vão se deixando levar pela tal correnteza, de modo a nos deixar ainda mais convencidos de que o caminho do leito do rio é o caminho certo. A multidão é tamanha que a gente mal consegue ver o que é que há além daquele rio...
Não que o caminho ditado pela correnteza não seja um caminho válido. O problema é que, se não ficarmos atentos, poderemos acabar achando que se trata de um caminho único, coisa que não é. Desde o momento em que nascemos até o dia de hoje, a maioria de nós tem se deixado levar pela correnteza. Ainda duvida? É fácil responder.
Por exemplo: imagine alguém que esteja concluindo algum curso superior e resolva largar tudo porque gosta mesmo é de ser músico. Será essa uma tarefa fácil? Não. Não porque esse caminho vai contra a correnteza e sabemos que é gigante a força do rio. As pessoas que estão perto dele logo tentarão dissuadi-lo da idéia “maluca”. Achou pouco? Imagine então alguém que se descobre homossexual. Será uma tarefa fácil para essa pessoa assumir para sua família e amigos que deseja relacionar-se com pessoas do mesmo sexo? E, uma vez homossexual resolvido e apaixonado, será que ele poderá demonstrar seu afeto beijando na boca seu parceiro em local público? Não. Provavelmente correria até o risco de ser preso por única e exclusivamente dar um beijo na boca da pessoa que ama.
Mais uma vez se manifesta o violento e camuflado poder da correnteza. Camuflado, porque do ponto de vista de quem está no meio do rio, não existe a tal corrente. Para se perceber esse movimento comum, seria necessário nadar até a margem, ou seja, deslocar-se, para aí sim perceber a multidão de cabecinhas que estão sendo arrastadas na enxurrada.
Falei sobre a margem e prossigo: quanto mais no meio do leito do rio, encoberto por milhares de outros corpos que simplesmente bóiam, mais difícil se torna vislumbrar os caminhos alternativos, seus afluentes. É necessária a proximidade da margem para que se possa realmente perceber a situação e enxergar todas as possibilidades. Sim, é necessário ser um “marginal”. Quem se afasta do leito do rio será automaticamente taxado de marginal, mas deve saber que, para conseguir alcançar seu novo objetivo essa será uma condição obrigatória.
Aquele músico, cujo exemplo citei acima, se quiser realmente viver de música terá que desagradar à família e magoar os pais. Mas essa desobediência é absolutamente indispensável. O mesmo se aplica ao homossexual. A sua felicidade dependerá sempre de algum sofrimento alheio. Para se realizar, ele terá provavelmente que ferir o orgulho dos pais e aviltar senhoras conservadoras em locais públicos. Seu único crime foi não seguir o caminho da multidão. Resolveu tomar as rédeas do seu próprio destino e traçar para si um rumo diferente, talvez um afluente deste mesmo rio...
O importante aqui não é evitar o rio e sim saber da sua existência. Uma vez identificada a força da correnteza, cabe a cada um escolher para si uma direção a seguir: pode ser o próprio rio, mas pode não ser. Eu, por exemplo, já escolhi. Quero, até o fim da minha vida, ter forças para nadar contra essa correnteza imperativa, pois lá na nascente encontrarei a água mais limpa. Quanto aos que seguirão até final do rio, imagino o que encontrarão por lá: o esgoto, a merda.

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