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Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil

31 de julho de 2006

VIDA QUÍMICA

Tocou o despertador. Nem parece que eu dormi e já chegou a hora de acordar para trabalhar. Aquela rotina de sempre: banho e depois café da manhã. Um copo de leite desnatado, uma fatia de pão integral com ricota e os primeiros comprimidos do dia. É... Tomo um monte de vitaminas diferentes no café. Uma pra acabar com um tal de radical livre, outra pra evitar a calvície, outra pra tirar pé de galinha...

Mas não paro por aí não. Vou contar como a coisa funciona: no meu caminho pro trabalho, sempre pego um trânsito muito mala. Fico ali parado naquele calor, no meu carro popular sem vidro elétrico, sem direção hidráulica nem ar condicionado, ouvindo buzinas ensurdecedoras às 7:30 da manhã. Tudo isso pra chegar no meu trabalho que é mais mala ainda. O meu chefe então nem se fala: é insuportável. Não tem nada pior que um burro com autoridade. Ganho pouco pra ser humilhado diariamente. Você precisa ver que delícia.

O que me salva, então, é o Prozac. Antes de sair de casa já mando logo um pra dentro, que é pra agüentar esse rojão. Só que com o Prozac eu fico excitado demais e aí, pra contrabalançar, eu tomo dez gotinhas de uns florais de Bach que eu tenho em casa que são uma beleza! Agora sim, posso começar o meu dia.

Logo antes do almoço eu tomo uma anfetaminazinha, bem de leve, pra dar aquela diminuída básica no apetite. Saio pra almoçar feliz da vida, com tão pouca fome que umas folhinhas de rúcula com agrião já são suficientes pra me saciar. Depois do almoço, pra finalizar, não pode faltar aquela xícara gigante de café expresso que me deixa elétrico pra agüentar o batente no turno da tarde.

O problema é que vai chegando o final do dia e o efeito da anfetamina vai passando, começa a bater uma fome negra. Mas comer comida mesmo, de verdade, eu não posso de jeito nenhum, senão eu engordo e todo mundo sabe que no mundo de hoje não tem lugar pra obeso. Gordo hoje em dia só pega mulher se for pagando ou se também for gorda. Todo mundo gosta é daquelas mulheres bem magrelas, que vomitam tudo que comem, com peitão de silicone. Sancho Pança só serve pra ser o engraçado da turma ou o gente boa, e isso eu não quero. Então eu preparo aquele shake Herbalife maravilhoso, que não tem gosto de nada, mas quando bate na barriga vira uma maçaroca que engana a minha fome por mais um tempinho e eu ganho uma sobrevida...

Pronto! Saí do trabalho e agora é hora de passar na musculação para dar aquela malhada. Antes, é claro, eu tomo uma injeçãozinha limpeza, que um amigo meu super sangue bom me indicou. É um anabolizante pra cavalo mangalarga que ele me garantiu que não faz mal nenhum, e nele eu confio porque afinal de contas já tem um tempão que ele é faxineiro lá da academia. Na verdade, a minha pele tá ficando meio estragada, minhas costas meio peludas, mas em compensação tô ficando com um bíceps bombante e um abdômen que parece um tanque. Quando acaba a malhação eu devoro uma barrinha de proteína que é a minha última refeição do dia.

Satisfeito da vida, saradão, eu tomo um banho e já ligo pra turma da academia pra marcar a balada. Hoje vai tocar aquele mesmo Dj da semana passada e da retrasada que a mulherada adora. O cara acelera com força! O bom é que a música é muito alta, quase ensurdecedora. Isso me salva, porque não dá pra ouvir nada e aí eu nem preciso conversar com o mulherio. Normalmente eu não bebo, porque dá muita barriga. Prefiro tomar um docinho, ou uma bala, o que estiver mais à mão, e aí começo a delirar com aquele bate-estaca. Parece que o cara tá tocando dentro da minha cabeça. A primeira menina que me dá meia olhada já sabe que eu passo o rodo. E passo mesmo, quero nem saber!

Aí é garantido, com essas meninas de hoje, que vai acabar no motel. E eu, que não sou bobo, já ando com o Viagra na carteira e mando ele pra dentro na hora que eu tô saindo com a gata da boate, que é pra já chegar no motel em ponto de bala. Acelerado por causa do doce e bombando do Viagra, fica fácil. Pego a mulher de um jeito que ela vai chegar em casa destruída, detonada. Eu sou o cara!

O único problema do Viagra é que depois dá uma dor de cabeça que é um espetáculo. Parece que o tampo vai explodir. Mas é pra isso que existe a Neosaldina. É só tomar uma neusa que em meia hora passa a dor. Aí eu deito. Mas não consigo dormir, porque o efeito do doce ainda não passou e eu fico ouvindo meu coração bater como se fosse um terremoto. Abro a gaveta do criado-mudo e pego a cartelinha do Dormonid. Tomo um, dependendo dois, e durmo igual um anjo. No dia seguinte, quando eu acordo, repito tudo outra vez. E não consigo nem imaginar como meus pais e meus avôs, ou até os homens das cavernas faziam pra viver sem essas pílulas milagrosas, esses comprimidos maravilhosos. Viva a indústria farmacêutica! Viva a química!

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