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Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil

30 de maio de 2007

COITADO!

Viu o sinal amarelo e acelerou. Não queria chegar atrasado porque estava correndo feito um louco atrás daquela promoção no seu trabalho, em uma gigante corporação multinacional, precisava paparicar o chefe. Mas não deu. Foi obrigado a frear e esperar o interminável tempo de um sinal vermelho. “Tempo é dinheiro”, pensou. Apático, viu o malabarista do sinal vermelho se aprontando para mais um número. Sim, para mais um número. Já era rotina: todo dia passava por ali naquele mesmo horário e todo dia via o mesmo número mambembe daquele acrobata que devia ter, como ele, uns 25 anos. Usava uma roupa colorida de circo, mistura de pierrot com bobo da corte, e ateava fogo aos malabares naquele exato momento.

De dentro do seu carro, os vidros fechados, as portas travadas e o ar condicionado ligado, ao ver bem na sua frente pela centésima vez aquele rapaz da mesma idade que ele fazendo malabarismo no sinal, o jovem funcionário sentiu pena. Sim: teve muita pena. “Que bosta de vida, a desse cara! Como é que pode uma pessoa levar uma vida assim? Acordar todo santo dia na mesma hora, vestir essa mesma roupa de palhaço pra fazer a mesma coisa de sempre!” Enquanto pensava, ficava atento ao malabarista que, com seus movimentos precisos, criava desenhos de fogo no ar. Parecia ver aquela cena em câmera lenta. “Coitado! Vai passar a vida toda fazendo isso e nunca vai ter o que eu tenho”.

O número acabou brilhantemente e o malabarista passava de carro em carro com seu chapéu de bobo, na tentativa de recolher um trocado. As janelas dos carros permaneciam fechadas. A grande maioria das pessoas nem olhava, nem reconhecia a existência daquela pessoa. Era como se fosse invisível. Talvez não olhassem para não ter que encarar realmente a sua existência. Alguns até deram algum dinheiro pela greta da janela espelhada, mas sem olhar.

Já se conheciam de vista, de tanto se encontrarem por ali. O malabarista se aproximou do carro do jovem funcionário: lá estava ele como sempre com seu indefectível terno preto, não obstante o calor de fritar ovo no asfalto, e o impecável cabelo engomado, penteado pra trás, e o suor escorrendo pela testa enquanto tentava afrouxar o opressivo nó da gravata, como sempre. Também como sempre estendeu o chapéu e recebeu do jovem funcionário algumas moedas. O valor de sempre. Cruzaram os olhares e fizeram um para o outro, como sempre, uma ligeira reverência, balançando positivamente a cabeça:
-Oi!
-Opa!


O sinal abriu e o rapaz arrancou seu veículo. Afinal, ainda tinha que paparicar o chefe. Sentado no meio fio enquanto contava os trocados recebidos, o malabarista pensava naquele jovem funcionário que todo santo dia passava por ali, fosse chuva ou sol, com seu terno preto e seu cabelo engomado. Ficou triste e teve dó do outro. Isso mesmo: também ele sentiu muita pena. “Que bosta de vida, a desse cara! Como é que pode uma pessoa levar uma vida assim? Acordar todo santo dia na mesma hora, vestir essa mesma roupa de palhaço pra fazer a mesma coisa de sempre!” Enquanto isso, imaginava-o no seu emprego, enclausurado em algum cubículo calorento e recebendo ordens de algum chefe chato, realizando as mesmas tarefas burocráticas de sempre. Parecia ver aquela cena em câmera lenta. “Coitado! Vai passar a vida toda fazendo isso e nunca vai ter o que eu tenho”.

E é isso. Todo dia se encontram, e todo dia se despedem desse jeito: um deprimido com a miséria do outro.


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