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Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil

27 de dezembro de 2012

TINHA UMA FESTA NA RUA


"Em amor, é um erro falar-se de uma má escolha
uma vez que, havendo escolha,
ela tem de ser sempre má."
Marcel Proust

Tinha uma festa na rua. Estava tocando rock, a banda era boa, a cerveja estava gelada, tudo certo. Mas caiu um pé d’água. Uma chuva imensa que fazia a água correr no meio fio como se fosse um afluente do São Francisco. Todo mundo correu procurando algum lugar pra se proteger daquele “remake” do dilúvio. 

Quem mora aqui sabe. Quando chove em BH, parece que o mundo vai acabar. As ruas transbordam, o trânsito para, a luz acaba. E pra tentar escapar desse fim do mundo, as pessoas começaram a se acotovelar debaixo de uma lona que pelo menos servia pra proteger parcialmente da chuva. Debaixo dela chovia menos, mas chovia. Todo mundo molhado, inclusive uma morena que apareceu do meu lado de all star preto de cano longo e cadarço preto. Eu estava bêbado e pensei: “com essa eu casava fácil.”

Achei importante falar aqui que eu estava bêbado porque na hora eu mesmo fiquei me questionando: “onde já se viu pensar em casamento numa hora dessas, no meio desse aguaçal? Só pode ser coisa de bebum mesmo.” Aí, bem nessa hora, a morena do all star preto passou, molhada, na minha frente. Olhei com calma, buscando a serenidade e o distanciamento necessários para um julgamento imparcial, impessoal que me permitisse uma leitura fria dos fatos. Respirei fundo, contei até três e aí sim pude emitir uma avaliação ponderada: “é, com essa eu casava fácil.

Parecia um daqueles comerciais de xampu em que o mundo em volta corre em velocidade normal e só a mulher está em câmera lenta. Ainda em câmera lenta ela gira o cabelo espargindo no ar puríssimas gotas enquanto os homens em volta despejam no chão espessos fios de baba. Mas acho que essa cena não aconteceu de fato. Deve ter acontecido só na minha cabeça enquanto eu tentava, em vão, emitir um parecer neutro sobre a morena e seu all star com cadarço preto.

Pensar em casamento nunca foi coisa minha. Sempre tive aversão a estabelecer relacionamentos, ainda mais os duradouros. Qualquer tipo de convivência que implicasse alguma dedicação da minha parte sempre me gerou repulsa, ou no mínimo preguiça. Na literatura, prefiro os contos aos romances. Contos são curtos, enquanto romances demoram demais, e acabam por isso nos forçando a um mergulho na história, uma intimidade exagerada com o protagonista, enfim, demandam um engajamento excessivo que sempre busquei evitar. No cinema, nunca tive paciência para essas trilogias que todo mundo adora. Onde já se viu gostar de um filme que só acaba daqui a três anos? Tenho também verdadeiro horror àqueles intermináveis seriados de suspense americanos, tipo Lost, que as pessoas acompanham freneticamente, sofrendo junto, baixando na internet o episódio um dia antes da exibição na TV, para só após 12 temporadas saberem o final (normalmente decepcionante).

Mas voltando à morena do all star preto, o fato é que um dia a conheci. Tínhamos um amigo em comum. E ocorreu uma coisa diferente, estranha, novidade pra mim. Dizem que quanto maior a expectativa, maior a decepção. E como a minha expectativa em relação à morena era imensa, já estava certo que viria junto uma descomunal decepção. Nunca veio.

Ontem, na festa, a morena do all star preto inovou: estava de vestido branco. Eu nem tinha começado a beber ainda. De cara limpa, aproveitei pra olhar pra ela, mais uma vez buscando aquele julgamento sóbrio, definitivo e pensei: “É. Casei”.

E casei mesmo, porque depois que eu a conheci, vi que ela era o contrário de tudo: era como o livro que eu queria ler e reler todo dia, a trilogia que não cansa, o seriado que eu queria que nunca tivesse fim. E tudo isso de um jeito natural, fácil. Não exigiu de mim um esforço sobre-humano, não foi nada difícil ou trabalhoso, como eu sempre achava que ia ser. Difícil e trabalhoso era ficar longe. Não foi uma escolha objetiva, técnica, avaliando prós e contras. Aliás, nem sei mesmo se foi uma escolha. Tendo a achar que não: num instante era eu, no próximo, éramos eu e ela. 

Considero um caso raro esse acontecimento na nossa vida, uma coincidência incrível, uma coisa estatisticamente improvável: conhecer alguém que provoca em mim o que ela provoca (desde aquele já distante encontro no dilúvio) e ter a sorte danada de, por mero acaso, também provocar isso nela. 

Não sei por que isso aconteceu. Não acredito em destino e muito menos em Alguém por aí escrevendo certo por linhas tortas. Só sei que aquele dia, há já nem sei quantos anos, tinha uma festa na rua. Agora, todo dia tem uma festa lá em casa.



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