"Enterrei meu canarinho
junto à roseira.
Agora, a primeira rosa
vai amanhecer
cantando."
(Yeda Prates Bernis)
Quando a gente acorda, e lembra, sente aquela vontade de chorar. Mas chorar por quê? O motivo primordial do lamento é algo que às vezes fica difícil entender. Vejo o rapaz basco de pé diante da Guernica, de Picasso: ele chora. O pai que assiste inquieto ao nascimento da filha também chora. A lavadeira do interior de Minas que viaja uma eternidade para, pela primeira vez na vida, ver o mar. Olhando com os pés molhados a força da rebentação salgada, ela ao mesmo tempo chora e ri.
É isso. O ser humano tem esse dom de sentir. O belo também faz chorar. E quando olho pra trás, tentando recuperar tudo o que posso da vida do meu avô, só o que vejo é beleza: a vibração da família, a elegância no trato com as pessoas, a dedicação incansável ao trabalho e a pureza da caridade. É aquela sensação de que tudo deu certo. Mas na vida real sempre me pareceu impossível um mundo assim, tão perfeito. Talvez tenha havido alguma feiúra, e dela ele nos tenha poupado.
Viveu como um jardineiro teimoso, plantando sementes coloridas nesse jardim-mundo preto e branco. E cada uma dessas sementes um dia se tornará árvore. E essas árvores darão os mais diversos frutos, das mais diversas cores e sabores. É assim o milagre da vida. Através do esforço silencioso e constante desse jardineiro que lutou, sem muita ajuda, para transformar em floresta esse nosso deserto. E é por isso que dá vontade de chorar. Chorar sim, de tão bonito.
