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Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil

6 de dezembro de 2004

O ENTERRO DO MEU TIO

Outro dia recebi um telefonema às quatro da manhã: meu tio havia sido baleado na noite anterior e não resistiu aos ferimentos. Morreu. Ele estava tranqüilo numa padaria fazendo um lanche no exato momento em que dois assaltantes entraram e um deles, de dezessete anos, disparou seu revólver (não se sabe ao certo se por crueldade ou susto). Morreu e deixou esposa, três filhas, além de uma infinidade de parentes e amigos que o adoravam. O fato é que marcaram o velório e o enterro para o dia seguinte.
No velório, surpreendi-me ao perceber a aglomeração de uma triste e barulhenta multidão. As pessoas se acotovelavam em busca de espaço junto ao corpo, que ainda nem havia chegado. Foi a primeira vez que fui a um velório tão cheio, talvez porque até aquele dia eu só houvesse ido a alguns poucos e escassos enterros, e sempre funerais de pessoas já bem velhas, cuja grande parte dos amigos também já tivesse falecido.
A realidade é que pela primeira vez eu comparecia a um velório de alguém que morrera em pleno auge de sua atividade e cuja vida fora tirada de forma tão violenta, inesperada e ao mesmo tempo banal. E essa banalidade somada ao carisma e jovialidade do meu tio assassinado parecia aumentar de forma exponencial a dor e o inconformismo de todos que, ali no enterro, tentavam se consolar.
Tamanha e tão desordenada era a multidão que, no momento da chegada do corpo, foi necessária a intervenção de alguns familiares no sentido de liberar o cômodo onde estava o caixão. Deu-se então um critério, para mim arbitrário, de seleção: só poderiam ficar ali num primeiro momento os parentes, de forma que até os amigos mais íntimos e antigos tiveram de ser retirados da sala, dando lugar a sobrinhos distantes e primos de terceiro grau.
Do lado de fora, separados por uma porta de vidro, os amigos e conhecidos do meu tio se colocavam nas pontas dos pés e grudavam seus rostos no vidro numa tentativa desesperada e mórbida de visualizar o morto enquanto, do lado de dentro, o padre abria o caixão. Nelson Rodrigues costumava dizer que a verdadeira dor dança mambo. E é verdade: o ser humano, na aflição incompreensível do momento da perda, não sabe o que fazer. Pula, grita, dá cabeçadas na parede, silencia, se joga no chão, rodopia e, no dia seguinte, no momento em que acorda e lembra que aquilo não foi um sonho e que o morto realmente morreu, o sofrimento se repete. E assim a agonia e o sentimento de impotência vão prosseguindo, dia após dia.
Mas citei Nelson Rodrigues e preciso retornar ao velório. No instante da abertura do caixão, o que se ouviu foi um uivo agudo, doloroso e único, resultado do somatório do pranto inconformado e da lamúria de todos aqueles que tanto amavam o meu tio e, em volta do corpo, não suportavam aquela cena. Havia, ainda, a busca desesperada do último carinho, do último afago. Todos ali passavam ternamente a mão em seu rosto já frio, e essa talvez seja a característica mais desumana e dolorosa das mortes inesperadas, seja por acidente, seja pela violência humana: a morte inesperada não dá ao ser humano o direito ao último carinho, à última declaração de amor. A pessoa morre sem que tenhamos declarado todo o nosso sentimento, porque a maioria dos seres humanos tem essa mania boba de guardar para si o amor que sente. Só externamos o nosso ódio, enquanto escondemos o amor, bem escondidinho, em algum lugar dentro de nós. Ai daquele que for descoberto amando! Ai de mim se souberem que eu amo de verdade algumas pessoas nessa vida...
De onde eu estava, aos pés do caixão, eu também chorava e podia ver claramente a figura de meu tio. Ele havia acabado de voltar da praia, onde comemorou com minha tia seus vinte e cinco anos de casado, e por isso sua pele ainda estava bronzeada. A verdade é que, visualmente, seu corpo parecia intacto. Não fossem os algodões nas narinas, eu jamais entenderia o que é que faltava àquele corpo para que ele se levantasse dali, saísse do caixão e voltasse, saudável e bronzeado, a fascinar a todos nós com sua tradicional inteligência, seu bom humor, seu paternalismo, suas piadinhas prontas, seu empreendedorismo incontrolável, seu sorriso fácil, seu talento...
Taí: esse vai fazer falta.

2 comentários:

Anônimo disse...

Este seu blog, muito inspirador, diga-se de passagem, está se revelando uma exaltação ou um tributo ao amor. Acho que apesar de vc ser fan número um de Nelson Rodrigues e tê-lo até como mentor literário, está longe de ser um crítico ferrenho e pouco crente no amor como ele era. Vc é o solteiro convicto mais romântico da paróquia - para desespero de todas elas! Aproveito e ofereço minhas condolências pela morte absurda e trágica de seu tio. Abraço. Leo Leite

Jessica disse...

Por uma pesquisa no google acabei aqui no seu blog, já o favoritei! A parte que me mais tocou foi saber que sou uma dessas pessoas, que nao externam seus sentimentos, ai de quem souber! Muito bom que vc compartilhe seus sentimentos e pensamento pois és maravilhoso! Como seu tiu tbm era.

Abraços Fred
Jessica Romero

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