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Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil

10 de janeiro de 2006

O CHICABON

Foi numa dessas cidadezinhas deliciosas do interior mineiro. Não interessa saber exatamente onde, só interessa que foi em Minas. Quem já percorreu de alguma forma essas estradas sabe muito bem do que estou falando.
Lá estava eu, sentado num bar de esquina tomando uma cerveja gelada na companhia de bons amigos quando aconteceu: na outra esquina, encostada numa mureta rosa, aquela menina chupava descansadamente um chicabon. Isso mesmo: com a leveza de quem tem a cabeça vazia de problemas, ela resolveu sentar-se ali, naquela mureta rosa, enquanto chupava tranqüila e displicentemente o seu picolé.
Devia estar lá pelos seus 15 anos. Linda, esbelta, corpo perfeito. Poderia ser considerada já uma adulta não fosse pelo ar desengonçado de quem ainda não se sabe mulher. E lambia aquele picolé como se o tempo tivesse parado. Naquele momento, o mundo era aquele chicabon. O maior problema a ser enfrentado era chupá-lo antes que se derretesse e lambuzasse a sua ventilada roupa.
Pode parecer banal, mas vejam, não é. Não se vê mais uma cena como essa nas grandes cidades. A correria do dia-a-dia torna inconcebível esse momento trivial de paz e tranqüilidade. Estamos sempre correndo, com pressa, não se sabe atrás do quê. Tudo é urgente. Contas a pagar, prazos a cumprir, buzinas frenéticas no carro que não sai do lugar. E, nessa rotina robótica, não há espaço para o tal chicabon. Ai daquele que for visto sentado no meio fio chupando um picolé. Logo lhe darão o implacável veredicto: -Preguiçoso... Vagabundo...
Porque, na metrópole poluída, respeitado mesmo é o sujeito que se mata nessa correria absurda, vende as férias, leva o trabalho pra dentro de casa nos fins de semana e mal percebe os filhos crescendo. Dessa maneira, esse “bem sucedido” cidadão, com seu dinheiro suado muito bem investido em rentáveis aplicações, vai levando sua vida até o dia em que pifa para sempre o seu estressado coração.
Além disso, outro empecilho ao pobre chicabon: impera agora a cultura do homem light. O homem light, para quem não conhece, jamais chuparia um picolé. Ele toma cerveja sem álcool, café descafeinado, leite desnatado e come doce sem açúcar. O homem light tirou a essência de tudo. Tudo para ele é proibido. O picolé, um perigoso e calórico veneno. De tanto proibir a essência de tudo, acabou ele mesmo se esquecendo de sua própria. Qual será mesmo, se é que existe, essa perdida essência do ser humano?
Na verdade, trata-se de uma pergunta de difícil resposta. Mas, enquanto isso, com sua abençoada ignorância dos problemas que os adultos inventam, aquela menina saboreava languidamente seu chicabon. Um picolé tem 400 calorias? 600 calorias? A bolsa de valores caiu? E daí? Sábia aquela menina sentada na mureta rosa com seu demorado chicabon.


Um comentário:

Dalila Flag disse...

Olá, Frederico! Recebi seu e-mail, contando deste blog. Esteve no meu cantinho - Plenos Pecados - e não postou nenhum comentário... mas, estou aqui pra retribuir a visita. Adorei seu conto sobre o picolé. Posso te linkar? Assim nos visitaremos com facilidade e frequência, né não?
Visitei seu profile e vi que temos os mesmos gostos literários. Já somos amigos, então... :-)
Beijos, gato

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