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Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil

9 de junho de 2006

O JARDINEIRO

"Enterrei meu canarinho
junto à roseira.
Agora, a primeira rosa
vai amanhecer
cantando."
(Yeda Prates Bernis)

Quando a gente acorda, e lembra, sente aquela vontade de chorar. Mas chorar por quê? O motivo primordial do lamento é algo que às vezes fica difícil entender. Vejo o rapaz basco de pé diante da Guernica, de Picasso: ele chora. O pai que assiste inquieto ao nascimento da filha também chora. A lavadeira do interior de Minas que viaja uma eternidade para, pela primeira vez na vida, ver o mar. Olhando com os pés molhados a força da rebentação salgada, ela ao mesmo tempo chora e ri.

É isso. O ser humano tem esse dom de sentir. O belo também faz chorar. E quando olho pra trás, tentando recuperar tudo o que posso da vida do meu avô, só o que vejo é beleza: a vibração da família, a elegância no trato com as pessoas, a dedicação incansável ao trabalho e a pureza da caridade. É aquela sensação de que tudo deu certo. Mas na vida real sempre me pareceu impossível um mundo assim, tão perfeito. Talvez tenha havido alguma feiúra, e dela ele nos tenha poupado.

Viveu como um jardineiro teimoso, plantando sementes coloridas nesse jardim-mundo preto e branco. E cada uma dessas sementes um dia se tornará árvore. E essas árvores darão os mais diversos frutos, das mais diversas cores e sabores. É assim o milagre da vida. Através do esforço silencioso e constante desse jardineiro que lutou, sem muita ajuda, para transformar em floresta esse nosso deserto. E é por isso que dá vontade de chorar. Chorar sim, de tão bonito.

7 comentários:

nadia disse...

oi, te achei como indicação entre alguns dos tantos blogs de mineiros (gente quantos mineiros escrevendo e bem...), bom, aí cheguei, e achei de uma sensibilidade tocante esse primeito texto ...e quis dizer GRATA!
beijo-valeu

Déborah Tolentino disse...

Nadia acabou de te indicar e vim correndo! Muito lindo, muito simples e profundo, tudo em seu lugar... Ela falou do "atropelado" tb, mas esse fica pra mais tarde... Bjosss da Dé

Anônimo disse...

Fred, falar de seu avô é simples e difícil... Basta ouvir a alma,mas transformá-la em palavras(difícil, né?) Você conseguiu! Sublime e exato. Beijo... Danuza

B R E N A disse...

To vendo o comentário da Dé, minha amiga, aqui... rs... como assim que ela não conhecia seu blog???
Então, Fred. Como sempre, brilhante texto.
Beijos

Aninha disse...

Querido fred,
Linda homenagem. Ainda bem que sabemso que as coisas belas da vida, guardamos no coração e com muita saudade.
beijos
Aninha

B R E N A disse...

Fred, Aninha disse que te conhece, né?!
:)

Pequena disse...

Que lindo. Deu vontade de chorar.

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