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Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil

12 de maio de 2005

A MULHER INVISÍVEL

"Como aqueles primitivos
que carregam consigo
o maxilar inferior de seus mortos,
eu te carrego comigo
tarde de maio".
(Carlos Drummond de Andrade)

Houve um tempo em que éramos inseparáveis. Tão inseparáveis que chegava a irritar. Eu dormia na casa dela, ela na minha. Quando não estávamos juntos, conversávamos ao telefone. O tempo inteiro um grudado no outro. Nos conhecíamos um ao outro tão intimamente que nossas reações eram sempre previsíveis. Um sabia o que o outro pensava, e digo mais, sabia o que o outro ia pensar. Mas éramos novos. A mãe dela foi transferida no emprego para uma cidade distante e tiveram que se mudar. Não houve, na época, nada que eu pudesse fazer. Ela foi embora e eu fiquei...

No começo, havia a esperança de sempre mantermos contato e tentar dar prosseguimento àquele relacionamento que parecia indestrutível. Mas o tempo e a distância não deixaram. Aos poucos o comprometimento que havia foi diminuindo, os laços foram se desfazendo, nosso mundo em comum desaparecendo e os assuntos se tornando mera rotina. As vidas se tornaram distantes até um ponto em que não fazia mais nenhum sentido insistir. Acabou. Aquela pessoa com quem um dia eu dividi os meus minutos e as minhas idéias já não existia mais. E foi assim.
Hoje, mais de dez anos depois, aconteceu: estava sentado na sala assistindo a um jornal na televisão e uma notícia me fez pensar nela. De repente, cresceu em mim uma vontade violenta de conversar com ela sobre aquele assunto da notícia. Precisava saber a opinião dela. E o peito apertava. Queria ouvir de novo aquela voz, aquele jeito de falar. Que saudade! Como é estranho e difícil de entender que aquela pessoa que um dia fora tão imprescindível e constante na minha vida pudesse ter simplesmente desaparecido. O peito doía. É tão inexplicável e dolorosa essa ausência irreversível!

Tentei reconstruir na minha mente o seu rosto, mas não consegui. Para relembrar talvez fosse necessário o estímulo infalível de um cheiro, ou de um sabor... O tempo se encarregou de ir aos poucos apagando da memória. Como será que ela está agora? Será que continua linda? Será que está gorda? Será que a cidade a tornou cinza? Terá essa rotina desumana enfraquecido o seu brilho? Não sei. E nem tenho como saber. Resta-me divagar. Imagino que tenha se casado, que continue linda e que tenha uma filha. E na minha imaginação ela passeia com a filha no colo numa tarde de maio e os dias são sempre ensolarados. Sim: na minha imaginação não chove nunca e há uma brisa agradável soprando o cabelo dela. A filha se chama Ana Maria, é bochechuda e sempre chora de medo quando aparece algum “au-au”. E nesse mundo ideal não há espaço para a pressa da insanidade urbana e nem tampouco para a irritante busca da vitória. Só existe a calma. A calma , e as árvores, e o vento, e pés descalços.

Fico feliz por ela, mas me lembro que estou apenas sonhando. Tomara que ela esteja feliz como estava no meu sonho. Tomara que não tenha sofrido, que não tenha chorado, que não tenha morrido! Tomara que um dia, numa dessas tardes ensolaradas de maio, uma brisa sopre agradável em seu ouvido e ela pense, mesmo que apenas por um instante, em mim.

Um comentário:

Anônimo disse...

"Nunca ande pelo caminho traçado, pois ele conduz somente até onde os outros foram"
Grahan Bell

Fred, não é exatamente a mesma idéia, porém como lição de inconformismo quanto aos caminhos pre-estabelecidos...
Um abraço,
Cota

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