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Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil

25 de maio de 2005

O VÔO DE JÚLIA

Júlia nasceu naquilo que a sociedade chamava de “berço de ouro”. Seu avô havia ficado milionário no ramo da especulação imobiliária, de forma que deixou como herança para seu filho único, o pai de Júlia, uma dessas fortunas incalculáveis. Levavam, por isso, uma vida que todo mundo sonha em ter, digna de rico de novela das oito.
O problema é que no fundo Júlia achava aquilo tudo, no mínimo, um pouco estranho. Como não precisasse trabalhar, acordava sempre tarde, por volta das dez da manhã e ia tomar o sortido desjejum com seu pai, um viúvo bonachão que resolvera curtir a vida à sua maneira. A essa altura, já estavam há horas trabalhando no faraônico apartamento o jardineiro (sim, havia um jardim no apartamento), a empregada doméstica, a faxineira e o motorista do pai. Mesmo sabendo que o patrão só acordava lá pelas nove da manhã, todos os funcionários chegavam pontualmente para o serviço às sete horas. Todos os dias, exceto os domingos.
Finalizado o café da manhã, o pai saía devidamente uniformizado e aparelhado para a inadiável partida de tênis matinal. Enquanto isso, Júlia se arrumava e ia para o escritório de onde administrava os negócios da família. Mas isso é mentira. A própria Júlia sempre soube que sua presença no escritório era totalmente desnecessária, dispensável. A verdade é que seu pai havia contratado profissionais do mais alto gabarito exatamente para que pudessem relaxar, viajar ou simplesmente ficar à toa enquanto se multiplicavam os já gordos dividendos da família.
Inútil no trabalho, Júlia se trancava em sua sala, abria seu jornal e lia com particular interesse notícias sobre conflitos no Oriente Médio, guerras civis espalhadas pelo continente africano, intervenções norte-americanas ao redor do globo, além dos tradicionais problemas de fome e miséria no Brasil. Vivia, por causa disso, sempre triste e desanimada. As amigas mais próximas não entendiam, e tentavam logo levantar o astral da moça:
-Ora, Julinha... Tenha a santa paciência! O que é que você tem a ver com o que está acontecendo na África? Você tem a faca e o queijo na mão e fica aí, se lamentando pelos cantos. Você leva a vida que eu pedi a Deus. Pode ficar à toa o dia inteiro, se quiser.
Júlia respondia: -Mas o problema é exatamente esse! Eu não preciso fazer nada!
Mas outra a interrompia e logo emendava: -Sem falar que essa semana vai ter a festa no Haras do Benitinho. Vai ser excelente! Começa na sexta à noite e termina só no domingo à tarde. Ouvi dizer que mandaram vir um sistema de som de São Paulo num caminhão por exigência do DJ que vai tocar. Ele é um dos mais badalados do mundo! Tem gente do Brasil inteiro disputando os convites no tapa!
Mas nada disso era capaz de animar Júlia. O fato é que ela estava deprimida. Seu namorado, Marcelo, era seu vizinho no prédio. Tinham uma história de vida bastante parecida. Ambos eram ricos desde sempre e achavam desconfortável aquela situação. A única diferença é que, enquanto Júlia vivia deprimida, Marcelo pegava a gorda mesada que recebia do pai e gastava em papelotes e mais papelotes de cocaína. Cheirava o dinheiro todo. Júlia até tentava falar alguma coisa com ele:
-Pára com isso, Marcelo! Pra quê isso?
E ele respondia: -Você é que devia experimentar pra ver o tanto que é bom. Quando eu tô cheirado, parece que a vida é uma maravilha!
-Mas depois o efeito passa e volta tudo ao normal mesmo, não é?
-É. É sim. Aí, quando passa o efeito, eu cheiro tudo de novo! A sensação que dá quando o pó começa a bater na tampa não dá pra descrever, Julinha. Você sente a onda vindo, de leve, e quando você vê já bateu. O bicho pega!
Um dia, aborrecida do namorado e com vontade de dar uma arejada, Júlia telefonou para o escritório avisando que não iria trabalhar, que estava precisando espairecer. Avisou o escritório só por hábito, por rotina, pois sabia que sua ausência nem seria sentida. Pegou o carro e foi dar uma passeada pela cidade, observando com olhos atentos tudo o que via. Seus olhos mais pareciam bocas famintas, devorando tudo que passava pela frente: o trânsito insuportavelmente parado, o menino malabarista no sinal fechado, as senhoras grã-finas de óculos escuros carregando sacolas e mais sacolas de compras, um mendigo que se divertia cheirando cola e urinando na calçada enquanto o outro dormia em cima de um pedaço de papelão...
Até que ela se cansou e voltou para casa. Parou o carro na garagem entrou no elevador e apertou o 13. Encontrou o pai almoçando:
-Oi, filhinha. Que surpresa boa! Senta aqui com o papai que o almoço está delicioso! Tem aquela massa que você adora!
A filha deu um beijo no rosto do pai e disse: -Espera um pouquinho que eu já venho, papai...
Entrou no quarto, trancou a porta, abriu a janela e pulou. Isso mesmo: subiu no parapeito e voou sem titubear. Talvez tenha sido, ao longo de toda a sua vida, a atitude mais consciente de Júlia. No salão de beleza, uma manicure comentava entre uma e outra cutícula:
-Que menina louca! Tinha tudo na vida: dinheiro, saúde, um pai que a amava e mesmo assim se matou.
E uma outra, enquanto tingia o cabelo, falou: -Era louca. Só pode ser muita loucura, coitadinha. Ou então era uma drogada...
O fato é que Júlia se matou. Matou-se e eu até hoje não sei muito bem o porquê. A maioria acha que foi por loucura. Eu, por outro lado, desconfio que tenha sido por excesso de lucidez. Tanta lucidez que tornou insuportável continuar a vida nesse mundo.

Um comentário:

Carla Ladeira disse...

Fred...QUANDO VCE VAI ESCREVER UM LIVRO HEIN????? Vce e um grande escritor! Nao tem nenhum caso do Alcinda pra contar ai nao?? hahahah!
Beijosssss

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